The calls to my grandmother (and the certainty that she speaks my language)

I’ve been calling my grandma more often. 

She’s always lived far away. But I never called. 

Maybe because something in me always fed the hope that at the end of the year we’d see each other. And then I could give her the tightest hugs and lay my head on her lap while she stroked my hair. 

Maybe I never called because my memories with my grandmother were always related to those affections. And in a silly way, not calling her was for me a certain guarantee that I would have to meet her again to exchange those affections.

Today, I feel I’ve lost the privilege of wanting to limit our connection to the physical. Just because I wanted our meetings to always have the same warmth as the first time I flew to Recife and she welcomed me at the car door when we arrived from the airport. 

I remember I never felt so relieved in life when I realised that, just like me, she also spoke Portuguese, even living in what to me seemed so far away – at the time there was no greater distance for me than São Paulo-Recife. This is what my grandmother always meant to me. The comfort of knowing that even far from home someone will always speak my language. 

And it hurts. It hurts to lose that privilege of wanting things to always stay the same. Even more so when they involve grandma and childhood memories.

Yesterday, I missed touching her little face when she approached the screen and I could see her wrinkles. I could smell her apartment in Olinda as she made up the bed and talked to me. A smell that only her house has and that I can only describe as “the smell of my grandma’s house”. I wondered if one day I would ever smell that place again or if I would be left with the memory of it.  

I thought that as an immigrant for the last 4 years, I had already mastered the art of breaking distances by virtual presence – and so this moment of chaos would be easier. 

Great illusion. 

To see my grandmother on the screen is as comforting as it is distressing. It’s proof that the future is uncertain. And this uncertainty is always hard to deal with. 

But there is also beauty in these virtual meetings with my grandmother that I may have always been deprived of by pure attachment to old memories. 

As she has been visiting us in São Paulo for some years now, I rarely have the opportunity to be with her in her house. And I like it so much to be at her house.

She is always more radiant at home. She gives a little smile that almost never appears in São Paulo, where she is constantly trying to understand the “where” and the “why” of things. I like to see her replace the “Where I come from there’s no such thing, no” with a moody face that she says a lot in SP with “I love my Olinda” with happy eyes that she repeats in her city.

I also love that my grandma has exactly the same habit I have of hanging pictures on the wall. And whenever I call she insists on showing them to me. “Look how beautiful you look in that one.” “Here’s mommy’s little girl,” she says, pointing to my mum’s picture.

In the living room, she has a painting of my grandfather, who died in 2006, and she insists on saying “Your grandfather, what a handsome man” in a passionate tone and shining eyes when she walks past. And I think there is nothing more beautiful than this love that she still nurtures for him after almost 70 years of marriage.

My grandmother also shows me the sea from her balcony. It’s an opportunity I have to see the ocean without leaving home. There is something about seeing the sea that makes me feel closer to her. Maybe because I know that although I can’t see it from my window, a little bit of ocean is also a short walk away from here.

Times are hard but, in the end, my grandmother still speaks my language. No matter how far away she is. And that doesn’t change.

As ligações para a minha Avó (e a certeza de que ela fala a minha língua)

Tenho ligado para a minha vó com mais frequência. Por algum motivo que eu não sei bem explicar, eu nunca o fiz muito.

Ela sempre morou longe. Mas eu nunca liguei. 

Talvez porque alguma coisa em mim sempre alimentou a esperança de que no final do ano a gente fosse se ver. E aí então eu poderia dar-lhe os abraços mais apertados e deitar no seu colo para ganhar um cafuné. 

Talvez eu nunca tenha ligado porque as minhas lembranças com a minha avó sempre passaram por esses afetos. E de um jeito bobo, não ligar para ela, era para mim uma certa garantia de que eu teria que encontrá-la novamente para trocar esses carinhos.

Hoje, eu sinto que perdi o privilégio de querer limitar nossos contatos ao físico. Só por um capricho de querer que nossos encontros tenham sempre o mesmo calor daquela primeira vez que eu voei para Recife e ela me recebeu na porta do carro chegando do aeroporto. 

Lembro de nunca ter me sentido tão aliviada na vida ao saber que, assim como eu, ela também falava português, mesmo morando no que para mim parecia tão longe – nos meus olhos de criança a distância São Paulo-Recife era a maior que existia. Minha vó sempre foi isso pra mim. O aconchego de saber que mesmo distante de casa alguém sempre vai falar a minha língua. 

E dói. Dói perder esse conforto de querer que as coisas permaneçam sempre as mesmas. Ainda mais quando elas envolvem chamego de vó.

Ontem, senti particular saudade de encostar no rostinho dela quando ela se aproximou da tela e pude ver as suas marcas de expressão. Lembrei de um passado não tão distante mas que já parece há uma eternidade atrás, em que eu podia apertar a carinha dela e falar “vóvó” todos os dias de manhã da última vez que ela veio nos visitar. 

Pude sentir o cheirinho do apartamento dela em Olinda equanto ela arrumava a cama e conversava comigo. Um cheiro que só a casa dela tem e que eu não consigo descrever de jeito nenhum a não ser como “o cheiro da casa da minha vó”. Me perguntei se algum dia eu vou voltar a sentir o cheiro daquele lugar de novo ou se vai restar apenas a lembrança.  

Achei que como imigrante pelos últimos 4 anos, eu já tinha dominado a arte de quebrar distâncias por presenças virtuais – e por isso, esse momento de caos seria mais fácil. 

Grande ilusão. 

Ver a minha vó pela tela do celular é tão confortante quanto angustiante. É a prova de que o futuro é incerto. E essa incerteza é sempre difícil de lidar. 

Mas tem também beleza nesses encontros virtuais com a minha avó que eu talvez sempre tenha me privado de ver por puro apego a lembranças antigas. 

Como já faz alguns anos ela que visita a gente em São Paulo, eu raramente tenho a oportunidade de estar com ela na casa dela. E eu gosto tanto, tanto de estar na casa dela.

Ela está sempre mais radiante em casa. Dá um tipo de sorrisinho que quase nunca aparece em São Paulo, onde ela está constantemente tentando entender o “onde” e o “porquê” das coisas. Eu gosto de ver ela substituir o “Na minha terra não tem isso, não” de cara fechada que ela fala em SP por “Eu amo minha Olinda” de olhos alegres que ela repete na cidade dela.

Eu também amo que a minha vó tem exatamente a mesma mania que eu de pendurar fotos na parede. E quando eu ligo ela faz questão de me mostrá-las. “Olha como você ta linda nessa”. “Aqui o brotinho de mamãe”, ela diz apontando para a foto da minha mãe com a voz de quem tá falando do seu bebê. 

Na sala ela tem um retrato do meu avô, falecido em 2006, e ela insiste em falar “Seu avô, que lindo” em tom apaixonado e olhos brilhando quando passa por ele. E eu acho que não existe nada mais bonito que esse amor que ela ainda nutre por meu vô depois de quase 70 anos de casados.

Minha avó também me mostra o mar da varanda dela. E assim, pelo menos, eu tenho uma chance de ver o oceano sem sair de casa. Há algo em ver o mar que me faz sentir mais perto dela. Talvez porque eu saiba que embora eu não consiga vê-lo da minha janela, a metros daqui também há um pedacinho de oceano. E isso só compartilhamos porque estamos em lados opostos do mundo, porque São Paulo não tem praia.

Os tempos estão difíceis mas, no fim, minha vó continua falando a minha língua. Não importa o quão distante ela esteja. E isso não muda.

Canarinhos refugiados em Pacaraima project: building Venezuela’s future from Brazil

“If you want to know what a country’s future looks like, look at the children. They’ll give you a good idea,” was one of the first things Miriam Blos said to me when we met at the Casa da Música in 2019. A year later, in the same place, the phrase couldn’t make more sense. 

If before I talked about the conversations I had about Venezuela’s glorious past and struggling present, in this text I want to talk about the country’s future. And how much I saw the construction of a better future through the Canarinhos refugiados em Pacaraima project – which began 23 years ago as Canarinhos da Amazônia

I’ve already talked about Miriam here and said how the choir, which is the heart of the project, serves as a starting point of a much bigger purpose that is the rekindle of dreams. And this can be seen in the eyes of the Canarinhos who arrive at the Casa da Música to sing. It can be felt, for example, when they sing the Brazilian anthem while practising for the first audition of the year – and in doing so, they also resignify the anthem in times it has only been used to reinforce hate speech and xenophobia.

But it goes beyond that. There is also a whole team working behind the scenes to keep the project going and they believe body, soul and heart in what is being done there. If that’s not the key to change, I don’t know what is. The Casa da Música, among so many things, is a reminder that a better future is built from the present.

Maria

“Thanks to this mission, we are supporting the youth of our Venezuela. We are Venezuelans and we can give our little contribution to help our children. I believe that if each one of us seeds in the hearts of our future, which are the kids, these values of respect, solidarity and kindness, that’s where the change in the country will be structured,” comments Maria, who has been working for a year and a half with the administration and logistics of the project and is also mum of two Canarinhos.

For her, being part of the mission is also a way to make the migration process less difficult: “It’s not easy being an immigrant, because it’s a process of leaving [your country] and getting to know new cultures, seeing beyond. This isn’t easy. But being here supporting the project has motivated me to always keep my mind and eyes on helping our children,” she says. 

Reina

Reina, who also is part of the Casa da Música team and has kids singing in the choir, sees the project as a support network for the families who arrive. “I like to see how the kids here grow up and build their paths. If they come without a direction of what they want, they find more. And the parents benefit as well because they have the chance to get the project’s message and change their lifestyle. If it was bad before, they can make it better. So it’s a whole family that is restored and leaves here with a positive outlook,” she says.

Reina also comments on the hope the kids give to her. “They are young but they know the language, they know how to treat people from different countries who visit us, they learn music from different places…and if they can do all that, I like to believe that we can. I feel good,” she concludes.

Canarinhos refugiados em Pacaraima: a construção de um futuro para a Venezuela no Brasil

“Se você quer saber como o futuro de um país se parece, olhe para as crianças. Elas vão te dar uma boa ideia,” foi uma das primeiras coisas que Miriam Blos me disse quando nos conhecemos na Casa da Música em 2019. Um ano depois, no mesmo lugar, a frase não podia fazer mais sentido. 

Se antes eu comentei aqui sobre as conversas que tive sobre o passado glorioso e o presente sofrido da Venezuela, nesse texto eu quero contar sobre o futuro do país. E do quanto eu vi a construção de um futuro melhor através do projeto Canarinhos refugiados em Pacaraima – que começou há 23 anos atrás como Canarinhos da Amazônia. 

Já falei sobre a Miriam aqui e contei como o coral, que é o coração do projeto, serve como fio condutor de sonhos. E isso se vê nos olhos dos Canarinhos que chegam na Casa da Música para cantar. E se sente, por exemplo, quando entoam o hino brasileiro baixinho pelos cantos enquanto praticam para a primeira audição do ano – e assim também o ressignificam em tempos em que o hino só tem sido usado para reforçar um discurso de ódio e xenofobia.

Mas vai além. Por trás do coral também percebi um time inteiro de pessoas trabalhando para manter o projeto funcionando e que acredita de corpo, alma e coração no que está sendo feito ali. E se essa não é a chave para a mudança e dias melhores, eu não sei qual é. A Casa da Música, entre tantas coisas, é um lembrete de que um futuro melhor se constrói a partir do presente.

Maria

“Graças a essa missão nós estamos apoiando a juventude da nossa Venezuela. De alguma maneira nós somos venezuelanos e podemos dar o nosso grãozinho de areia para ajudar também as nossas crianças. Acredito que se cada um plantar nos corações do nosso futuro, que são eles, esses valores de respeito, de solidariedade e de bondade é de aí que vai se estruturar a mudança no país. Nessa mudança de mentalidade,” comenta Maria, que trabalha há um ano e meio com a administração e logística da Casa e é mãe de Canarinhos.

Para ela, fazer parte da missão é também uma maneira de fazer o processo de migração ser menos duro. “Não é fácil ser imigrante, porque é um processo de deixar [o seu país] e conhecer culturas novas, ver mais adiante. E não é fácil. Mas estar aqui apoiando o projeto tem me motivado, a sempre manter a mente e os olhos postos em ajudar nossas crianças,” conta. 

Reina

Já Reina, que também faz parte do time da Casa da Música e tem filhos cantando no coral, vê o projeto como rede de apoio para as famílias que chegam. “Eu gosto de ver como as crianças vão crescendo e construindo um caminho. Se vinham sem direção do que queriam, já se encontram mais. E os pais também, que têm a chance de entender a mensagem e mudar o estilo de vida. Se estava ruim, podem melhorar. Então é uma família inteira que se restaura e saem daqui com uma visão positiva para onde quer que seja,” comenta.

Ela ainda acrescenta sobre a esperança que a organização lhe dá. “São crianças mas sabem o idioma, sabem tratar as pessoas de diferentes países que nos visitam, aprendem músicas de diferentes lugares…e se eles podem tudo isso, eu gosto de acreditar que sim, nós podemos. Me sinto bem,” finaliza.

La Gran Sabana: about the things a crisis cannot destroy

Tú no puedes comprar las nubes, tú no puedes comprar los colores, tú no puedes comprar mi alegría, tú no puedes comprar mis dolores” (you can’t buy the clouds, you can’t buy the colours, you can’t buy my happiness, you can’t buy my sadness), the chorus of Latinoamérica by the group Calle 13 echoes in my head as I observe the reflection of the clouds in a little stream on La Gran Sabana. There are things that a crisis, a regime or a disastrous government plan cannot destroy. Perhaps this was my greatest learning during my brief stay in Venezuela.

As I mentioned before, this trip was a bit different this time. I changed plans several times along the way. And it was good. La Gran Sabana is probably not the place a journalist would seek to portray the crisis, but I am grateful to have chosen this unusual destination. I spent the day both in the most perfect calmness and in the eye of the hurricane. And this constant contradiction allowed me to see dimensions of the country’s situation that I probably wouldn’t have been able to see elsewhere. 

Amidst the spaced vegetation, some lakes that form small oases and the grandiosity of the “tepuis” – like Mount Roraima – that can be seen from the distance, it is almost possible to forget why thousands of Venezuelans flee the country every day.

Almost. If you look more carefully and attentively, you can see that the sense of normality is only apparent and that the political, economic and humanitarian crisis, yes, is present even in the most hidden places. 

From where I was – and cannot be revealed for security reasons – the silence was broken several times a day. I crossed paths with people from all over the country, who saw there a refuge and a way to survive the current political and economic chaos without having to leave their homeland. 

Due to the proximity to Brazil, the lack of supply, in fact, does not seem to be a problem. And you cannot feel the crisis so much. Through a kind of parallel market – which is not approved by the government but also not barred by inspection – all kinds of Brazilian products arrive, from food and gasoline to cigarettes and alcohol. 

Even so, in the villages, there are those who walk for almost two hours to reach a point of sale of Brazilian products. Among the conversations, I heard many comments such as “I’m not going to work on my motorcycle because I can’t afford to spend so much on petrol” or “I can’t buy a lot of vegetables because there’s no way to keep them without a refrigerator at home”. 

You can’t deny that there’s something melancholic about the scenario. And it would be irresponsible to romanticise the suffering and daily difficulties of the crisis. But I’d like to emphasize here the strength of those who move forward, always. 

Because, at the same time, I heard a lot “I won’t leave this place even with the worst situation it might reach” and “I couldn’t be happy anywhere else”. 

There is something beautiful about how life goes on and how every little thing becomes happiness. I saw a celebration over a pot of olives, for example. “Wow, it’s been five years since the last time I’ve seen olives, oh my God!”, said a woman with bright eyes contemplating the “luxury” of being able to eat something different from the usual.

I travelled to the beaches near Caracas without leaving the place I was during a humorous talk about times when the only concern was deciding whether to go into the sea or not. I heard many laughs, I saw many smiles. It’s hard to explain that joy. But I know it’s also a form of resistance and deserves space in this blog.

No puedes comprar mi vida” (you can’t buy my life) say the final verses of  Calle 13 in Latinoamérica.

La Gran Sabana: sobre as coisas que uma crise não pode destruir

Tú no puedes comprar las nubes, tú no puedes comprar los colores, tú no puedes comprar mi alegría, tú no puedes comprar mis dolores”, o refrão de Latinoamérica do grupo Calle 13 ecoa na minha cabeça enquanto observo o reflexo das nuvens num riozinho na Gran Sabana. Existem coisas que uma crise, um regime ou um plano desastroso de governo não pode destruir. Talvez tenha sido meu maior aprendizado durante a minha breve estada na Venezuela.

Como eu mencionei antes, essa viagem foi um pouco diferente. Improvisei. Mudei de planos várias vezes no caminho. E foi bom. A Gran Sabana provavelmente não é ponto comum que um jornalista buscaria para retratar a crise, mas eu sou grata de ter escolhido esse destino inusitado por acaso. Passei o dia ao mesmo tempo na mais perfeita calmaria e no olho do furação. E essa constante contradição me permitiu enxergar dimensões da situação do país que eu provavelmente não conseguiria em outro local. 

Em meio à vegetação espaçada, alguns lagos que formam pequenos oásis e a grandiosidade dos “tepuis” – como o Monte Roraima– que se vêem ao longe, é quase possível esquecer do motivo que leva milhares de venezuelanos a fugirem do país todos os dias.

Quase. Se olhar com um pouco mais de cuidado e atenção, é possível perceber que o senso de normalidade é apenas aparente e que a crise política, econômica e humanitária, sim, está presente até nos lugares mais escondidos. 

De onde eu estava – e que não pode ser revelado exatamente por questões de segurança – o silêncio era quebrado várias vezes ao dia. Cruzei com pessoas de toda parte do país, que ali viram refúgio e uma forma de sobreviver ao caos político e econômico atual sem ter que deixar a terra natal. 

Pela proximidade com o Brasil, a falta de abastecimento, de fato, não parece problema. E a crise não se sente tanto. Através de uma espécie de mercado paralelo – que não é aprovado pelo governo mas que também não é barrado pela fiscalização – lá chega todo tipo de produto brasileiro, desde a comida e a gasolina até o cigarro e o álcool. 

Ainda assim, nos vilarejos, há quem caminhe por quase duas horas para alcançar um ponto de venda de produtos brasileiros. Dentre as conversas, ouvi muitos comentários como  “não vou trabalhar de moto porque não tenho como gastar tanto com gasolina” ou “não dá muito pra comprar legumes, porque a gente não tem como mantê-los sem geladeira em casa”. 

Não dá pra negar que há algo de melancólico no cenário. E seria irresponsabilidade romantizar o sofrimento e as dificuldades cotidianas da crise. Mas queria ressaltar aqui a força de quem segue em frente, sempre. 

Porque, ao mesmo tempo, ouvi muito “eu não deixo esse lugar nem com a pior situação que possa ter” e “eu não conseguiria ser feliz em outro lugar”. 

Há algo de bonito em como a vida segue e em como cada pequena coisa se torna felicidade. Vi celebração diante de uma salada com vagem e um pote de azeitonas, por exemplo. “Nossa, fazia 5 anos que eu não via uma vagem! E que eu não comia uma azeitona, meu Deus!”, me disse uma mulher com os olhos brilhantes diante do “luxo” de poder comer algo diferente do habitual.

Viajei até as praias próximas de Caracas sem sair do lugar durante uma conversa-lembrança bem humorada sobre tempos em que a única preocupação era decidir entre entrar no mar ou não. Ouvi muitas risadas, vi muitos sorrisos. É díficil explicar essa alegria. Mas sei que ela é também forma de resistência e merece espaço nesse blog.

No puedes comprar mi vida,” terminam os versos do Calle 13 em Latinoamérica.

“De Arepa en Budare”: Luisa and those who still resist in Venezuela

“Never, ever, even with the terrible situation we’re living in now, I would leave my country. I am Venezuelan, as we say here, ‘de arepa en budare’*”. It is one of the first sentences that Luisa tells me while we have a coffee at 6 in the morning, amidst the tranquillity of La Gran Sabana.

Perhaps there is no better expression than ‘de arepa en budare’ to describe Luisa – and the Venezuelans who remain in Venezuela today. And I explain: Of all the products I saw and consumed in Venezuela, the only one still produced there, resistant to the country’s economic decay, was the famous harina PAN, the main ingredient of the country’s typical delicacy, the Arepa.

But the resistance goes far beyond harina PAN and arepas. Luísa resists every day. In the small and big acts. Just like the other Venezuelans I’ve met. The resistance is, for example, in the cooked food we took from Santa Elena to the savanna “in case we find someone starving on the way”. And it is also in the mission that she had just returned from to the Orinoco River Delta to provide medical care to the Waraó indigenous population.

She tells me how she was stopped 15 times at army checkpoints to get to the delta and how she only managed to get through them all because she has an indigenous id. She also tells how she used these moments at the inspection checkpoints to as an opportunity to open the dialogue with the military.

“At many [inspection points] I’d to say, ‘you’re pale, you’re not eating well, this rifle you’re carrying is too heavy…take a vitamin.’ I’d give them [the military] a vitamin. And they would ask me, ‘Really? How do I take it?’, you know, it’s a contradiction,” she tells me in a tone that only those who live fighting for – and believe in – better conditions can have. “The moment I gave them a vitamin, ironically saying that the rifle they carry weighs too much because they aren’t eating well and they asked me ‘do you have a biscuit? Bread?’…it’s also an opportunity to talk and that’s been my job,” she adds.

In addition, Luisa is still proud of her camp that today welcomes about 20 families. “Today it is a place that seems abandoned,\ because in fact there are no resources, but it serves as a shelter. And so many Venezuelans are living like this. You pass by and the places are really in a state of abandonment, but inside there is shelter and that’s how it works,” she says.

In times of dictatorship, the place has become a shelter for professionals who suffer political persecution. “And you have to protect yourself because at the moment there is no legal security. It’s a dictatorship. There is no freedom of speech. There is fake freedom of speech but people still have to work to maintain their families,” she explains. And then she adds an important comment. “All of this I do in anonymity, otherwise I couldn’t do it. I only dare to say what I said to you because you are not Venezuelan.

For Luisa, this resistance force from those who stay comes from the hope of seeing a better country. “Right now, the love and hope we have go far beyond having something good to dress and good to eat. We all like olive oil, for example, because we know how it is like to have olive oil to eat a good salad. But if we don’t have it now, what does it matter? We eat [salad] with a little bit of vegetable oil and we go on, giving our knowledge and our hope to others.”

She also understands the crisis situation as an opportunity to review and learn new values. “For some of us, it was given the mission to keep hope that, yes, we will get out [of this situation] and we have to give joy to the children so that they don’t see so much need and if they see it, it doesn’t matter, the values are other,” she says.

“At that moment it’s not possible to have good shoes, but we’re going to learn to walk barefoot so that we can also feel the earth. That’s also a way to teach other values, to return to spirituality. All this definitely moves us to spirituality,” Luisa speaks with the serenity of those who have chosen to look at the situation from a different perspective.

She still reflects on the Venezuelans who also resist outside the country in one way or another: “The ones who remain are those who still believe that they can be here and we will be there to receive those who have gone and will come back with more wisdom and values too. I believe that the Venezuelan who left, went also to show the world the joy [we have here] and to make the difference. And that although they left due to the pressure of a crisis, they never lose their good humour.”

“I believe a lot in the energy of my country as a great country. The political situation is circumstantial. It’s been going on for a long time but we have to learn to value what we have. I feel that like Venezuela there is no other. And it’s going to be better,” Luisa says with the certainty that the future will be positive. “Now it’s a nightmare, but we’ll get out of this nightmare, without a doubt. But maybe we need this to value the country we have,” she concludes.

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*the expression aludes to the traditional way of making the country’s typical delicacy -the Arepa- in a circular plate of iron -the budare. Saying someone is “Venezuelan de arepa en budare” is like saying the person is a “true/real Venezuelan”.

“De Arepa en Budare”: Luísa e a força que ainda resiste na Venezuela

“Jamais, jamais, mesmo com a pior situação que estamos vivendo agora, eu abandono o meu país. Eu sou venezuelana, como dizemos aqui, ‘de arepa en budare’”. É uma das primeiras frases que me diz Luísa enquanto tomamos um café às 6 da manhã, em meio a tranquilidade da Gran Sabana.

Talvez não haja expressão melhor do que “de arepa en budare”* para descrever Luísa – e quiçá os venezuelanos que permanecem na Venezuela hoje. E eu explico: de todos os produtos que vi e consumi na Venezuela, o único ainda produzido lá, resistente à decadência econômica do país, foi a famosa harina PAN, ingrediente principal da iguaria típica do país, a Arepa.

Mas a resistência vai muito além de harina PAN e arepas. Luísa resiste todos os dias. Nos pequenos e nos grandes atos. Assim como os outros venezuelanos que conheci. A resistência está, por exemplo, na comida pronta que levamos de Santa Elena para a savana “caso a gente encontre alguém passando fome no caminho”. E também está na missão que ela acabara de voltar no delta do Rio Orinoco para fornecer atendimento médico à população indígena Waraó.

Ela me conta de como foi parada 15 vezes em postos de inspeção do exército para chegar no delta e que só conseguiu passar por todos eles por ter identidade indígena. E também narra sobre como tomava esses momentos nos postos de inspeção para abrir diálogo com militares. 

“Em muitos [postos de inspeção] eu dizia, ‘você tá pálido, não tem comido bem, esse fuzil que você carrega tá muito pesado…toma uma vitamina’. Dava a eles [os militares] uma vitamina. E eles me perguntavam, ‘de verdade? Como eu tomo?’, sabe é uma contradição,” me diz em um tom de desafio ao sistema que só quem vive lutando por  – e acredita em – condições melhores pode ter. “No momento em que eu dava uma vitamina, dizendo, ironicamente, que o fuzil que eles carregam pesa muito porque não têm comido bem e me perguntavam ‘você tem biscoito? Pão?’…é também uma oportunidade de falar e esse tem sido o meu trabalho,” completa.

Além disso, Luísa ainda conta com orgulho de um acampamento dela que hoje acolhe cerca de 20 famílias. “É hoje um lugar que parece abandonado, porque de fato não há mantimento, mas serve de resguardo. E assim estamos atuando muitos venezuelanos. Você passa e os lugares realmente estão em estado de abandono, mas dentro há resguardo e assim funciona,” conta. 

Em tempos de ditadura, o local se tornou abrigo para profissionais que sofrem algum tipo de perseguição política. “E é necessário se resguardar porque no momento não há segurança jurídica. É uma ditadura, não há liberdade de expressão. A liberdade de expressão é disfarçada e as pessoas ainda têm que trabalhar para manter a família,” explica. E ainda acrescenta um comentário importante. “Tudo isso eu faço em anônimo, senão não poderia fazê-lo. Eu só me atrevo a dizer o que disse a você porque você não é venezuelana”.

Para Luísa, essa força de resistência dos que ficam vem da esperança de ver um país melhor. “Neste momento, o amor e a esperança que temos vai muito além de um bom vestir e de um bom comer. Todos nós gostamos de azeite de oliva, por exemplo, porque conhecemos o azeite de oliva para comer uma boa salada. Mas se não temos, o que importa? Comemos um pouco com azeite vegetal e seguimos, dando nosso conhecimento e nossa esperança.”

E entende a situação de crise também como uma oportunidade para rever e aprender novos valores. “Para alguns de nós foi dada a missão de manter a esperança de que, sim, vamos sair [dessa situação] e temos que dar alegria às crianças para que não vejam tanta carência e se a veem, não importa,” conta. 

“Nesse momento não é possível ter um bom calçado, mas vamos aprender a andar descalços para também sentir a terra. Isso é também uma maneira de ensinar outros valores, de regressar à espiritualidade. Tudo isso nos move a espirirualidade, definitivamente,” fala Luísa com a serenidade de quem escolheu para olhar para a situação de maneira diferente.

Ela ainda reflete sobre os venezuelanos que também resistem fora do país de uma maneira ou de outra. “Ficamos todos aqueles que ainda creem que podem estar aqui e vamos estar para receber os que se foram e voltarão com mais sabedoria e valores também. Eu acredito que o venezuelano que saiu também foi para demonstrar ao mundo a alegria [daqui] e para fazer a diferença. E que apesar de terem ido por uma pressão de uma crise, nunca perdem o bom humor.”

“Eu creio muito na energia do meu país como um grande país. A situação política é circunstancial. Tem durado muito tempo mas é para a gente aprender a valorizar o que temos. Eu sinto que como a Venezuela não há. E vai ser melhor, inclusive,” fala Luísa com a certeza de que o futuro será positivo. “Agora é um pesadelo, mas vamos sair desse pesadelo, sem dúvidas. Mas talvez nós precisemos disso para valorizar o país que temos. Eu digo que não há mal que dure cem anos e nem corpo que resista. Então estou segura de que vamos sair e vai ser logo,” conclui.

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*Algo como em português dizer “Venezuelana raiz”, a expressão “de arepa en budare” faz alusão ao modo tradicional como os indígenas faziam o prato típico do país – a Arepa – em uma chapa de ferro redonda, chamada “budare”

Venezuela: A spark of hope in the middle of chaos

My time in Venezuela was short. I arrived one day and left the next. And I feel that I needed more to absorb the atmosphere of the country that, yes, is sinking into a crisis. But in contrast, have people who don’t hold their heads down. 

I didn’t have the chance to stop for the long conversations I like to have to create the content that you usually see here because sitting down for a talk, in reality, it’s a habit of those who don’t have so much to worry about. I spent a lot of time listening, because, amid a tiring daily struggle, I felt like everyone had something to say. But I gave up on formal interviews because there are things that don’t always fit into a recorder and some notes.

I left the formalities aside several times so I could participate in conversations about the lack of gasoline – which only arrives once a month in Santa Elena de Uairén – and share recipes on how to make food last longer. I took some time to discover people’s “real profession” before the crisis – like the musicians who became miners and pilots who became traders –  and understand the reasons that make Venezuela a country to stay and not migrate. 

I’ve seen tired people. I’ve seen people fighting for survival. But I’ve also seen hopeful people. I’ve also seen happy people. In fact, what I’ve heard most was that the Venezuelans were cheerful people and that one of the biggest losses of the crisis was precisely that happiness. But I could still feel a sparkle of joy sneaking into the middle of conversations, in the art that Brazilians also know too well that is “laughing at our misfortune”. And this kind of joy I could only have captured on camera if I hadn’t been part of it. Maybe if I was behind the lenses, I wouldn’t be able to notice the fractions of a second when everything seemed perfectly normal.

I chose to live this clandestine happiness to try to understand the real situation of Venezuela from its intimate perspective. I came back with more understanding than before. I understood that life always goes on and the human being always adapts. I understood that crises can unleash the worst in people, but they can also unleash strength. A kind of strength that comes from within and that no one can take away. I understood that crisis also teaches a series of values that sometimes need to be rescued, such as how good it is to be close to those you love or how delicious it is food on your plate. I don’t know if that’s good or bad. 

I also can’t say I haven’t seen sadness and a certain nostalgia for what the country was and isn’t anymore (and it never will be again, because you can’t go back to the past). But I still felt that hope was the strongest feeling there, in the same way that I felt hope when I was at the border a year before.

This time my journey was different, the process came from within and here is my sincere perspective from what I saw and experienced. This series is brief and has fewer portraits. But it has more reflections. I hope it can capture a little of what my time on Venezuelan soil was like. 

Venezuela: Um fio de esperança em meio ao caos

Meu tempo na Venezuela foi curto. Cheguei num dia e fui no outro. E sinto que precisava de mais para absorver a atmosfera do país que, sim, está afundando em uma crise. Mas que, em contraposição, tem um povo que não se deixa abalar. 

Não consegui parar muito para as longas conversas que gosto de ter para criar o tipo de conteúdo que se vê aqui porque sentar e conversar, na realidade, é hábito de quem não está preocupado com tanto. Ouvi muito, porque em meio a uma luta cansativa e diária, sinto que todos tinham algo a falar. Mas acabei por dispensar registros formais porque tem coisas que nem sempre cabem em uma gravação e um bloco de notas. 

Deixei formalidades de lado muitas vezes pra poder participar em conversas sobre a falta da gasolina – que só chega 1 vez por mês em Santa Elena de Uairén – e dividir receitas de como fazer a comida render mais.Tomei tempo para descobrir a “profissão real” das pessoas antes da crise – tipo os músicos que viraram mineiros e pilotos que se tornaram comerciantes – e entender os motivos que fazem da Venezuela um país para ficar e não migrar. 

Eu vi gente cansada. Eu vi gente lutando por sobrevivência. Mas eu também vi gente esperançosa. Também vi gente alegre. Inclusive o que mais ouvi era que os Venezuelanos eram alegres e que uma das maiores perdas da crise foi justamente a dessa felicidade gratuita. Ainda assim, consegui sentir a alegria aparecer sorrateira no meio de conversas, na arte que nós, Brasileiros, também conhecemos bem que é a de “rir da própria desgraça”. E esse tipo de alegria eu só poderia ter capturado na câmera se eu não fizesse parte dela. Talvez se eu estivesse por trás das lentes, eu não conseguiria enxergar as frações de segundo em que tudo parecia na mais perfeita normalidade.

Escolhi viver essa felicidade clandestina para buscar entender a situação na Venezuela de forma mais íntima. Voltei entendendo mais do que antes. Entendi que a vida sempre continua e o ser humano sempre se adapta. Entendi que situações de crise podem despertar o pior mas também podem despertar força. Um tipo de força que vem de dentro e que ninguém pode tirar. Entendi que a crise também ensina uma série de valores que as vezes é preciso resgatar, tipo como é bom estar perto de quem se ama ou como comida no prato é gostosa. Não sei se isso é bom ou ruim. 

Também não posso dizer que não vi tristeza e uma certa nostalgia pelo o que o país foi e não é mais (e nunca voltará a ser, porque não se volta ao passado). Mas ainda senti que a esperança era mais forte, da mesma maneira que senti esperança quando estive na fronteira um ano antes.

Dessa vez a minha viagem foi diferente, o processo veio de dentro e aqui vai o meu sincero olhar sobre o que vi e vivi. Essa série é breve e tem menos retratos. Mas tem mais reflexões. Espero que ela possa transmitir um pouco do que foi o meu tempo em solo venezuelano.