Pacaraima: quando a esperança entra em chamas

No dia 18 de Janeiro, eu entrei num ônibus que me levou de Boa Vista a Pacaraima. Fui sem saber o que ia encontrar, mas meu coração dizia que eu tinha que ir e entender como funcionava a vida na fronteira Brasil-Venezuela. Hoje eu entendo o que me levou até lá.

De um jeito muito louco, quando eu estava na fronteira o que eu mais senti foi esperança. Eu pensei que fosse encontrar a devastação de um povo que realmente não podia mais aguentar a situação em que vivia. Eu pensei que fosse encontrar xenofobia na sua forma mais pura do lado Brasileiro. Ao invés disso, eu encontrei força para seguir e começar do zero em um novo país por parte dos Venezuelanos que acabavam de chegar. Ao invés disso, eu encontrei o exército, a ACNUR e diversas ONGs e pessoas prontas para receber os nossos vizinhos de braços abertos, de peito aberto.


Com todos os problemas que o Brasil possa ter, ir a Pacaraima me deu esperança de que ainda existia acolhimento e humanidade nesse país ultimamente corrompido pelo ódio. Ir a Pacaraima em Janeiro restaurou o meu orgulho em ser Brasileira em um tempo em que a nossa bandeira é usada para reforçar a ideia de que você só merece pertencer ao país se votou em certo candidato.

Conversei com pessoas fortes e incríveis que lutaram com todo fio de vida que tinham para estar lá e fugir da fome em outro país que, infelizmente, já anda a beira do penhasco há muito tempo. Pacaraima me ensinou a valorizar a vida de um jeito que eu nunca imaginei que fosse possível. Me fez entender o que é resiliência de verdade. Não há nada como olhar nos olhos de quem viveu na pele a crise humanitária, ouvir o que eles têm a dizer e saber que aquelas vidas vão muito mais além de “x pessoas cruzam a fronteira por dia” que a gente lê no jornal.


Hoje a fronteira está, literalmente, em chamas. O bloqueio da passagem entre Brasil e Venezuela é simplesmente cruel. E não há nada que dói mais do que ver de longe toda a esperança -que ainda brota em uma situação de crise- que eu vivi por lá, queimando, sendo completamente destruída. Quantos sonhos foram interrompidos quando o direito de cruzar de um país ao outro foi negado? Quantas mortes -literais e simbólicas- essa guerra pelo poder está causando? E, no final, quem ganha com isso? Quem está lutando pelo o quê? Quando foi que a vida perdeu completamente o seu valor diante da necessidade de fazer “declarações políticas”? Eu não consigo aguentar isso calada. Eu não nasci para ficar calada.

Aqui compartilho as vozes que eu escutei lá. Eu grito com elas em resistência, em solidariedade e na esperança de passar o recado de que a situação da fronteira hoje é simplesmente inaceitável. E precisa doer no mundo inteiro para mudar.

Published by Mira.Me Project

Written by Leila Maciel, a Brazilian girl who insists on calling the world her home. Escrito por Leila Maciel, uma Brasileira que insiste em chamar o mundo de casa. Instagram: @mirameproject

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