Miriam e a luta pelo reencantamento dos sonhos

“Leila, faz dois anos que eu não tiro férias. Faz dois anos que eu to no fluxo migratório”, é o que Miriam me confessa enquanto conversamos sentadas na histórica mesa de madeira da Casa da Música. Foi lá que aconteceram grandes decisões sobre o acolhimento de imigrantes em Pacaraima: Primeira reunião da ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), capacitação da OIM (Organização Internacional para Migrações), decisão da abertura de um abrigo para os Waraós e tantas outras. Isso porque Miriam é 100% dedicação e amor ao que faz, nas palavras dela, “reencantar os sonhos”.

“Maestrina” do Coral Canarinhos da Amazônia, Miriam vem trabalhando com jovens e crianças em situação de risco desde 1997. Primeiro em Boa Vista, capital Roraimense. Depois, do outro lado da fronteira, em Santa Elena de Uiarén, com crianças Brasileiras vivendo lá. Até o projeto mudar definitivamente para Pacaraima, em 2017, e atender imigrantes.

Para ela, foi necessário migrar a Associação para o lado Brasileiro novamente quando a situação política na Venezuela já não permitia mais a execução do projeto. “Foi interessante porque eu percebi [em Santa Elena] que ‘olha, não dá pra continuar nesse sistema que está desconstruindo o país’. A gente olhou profundamente e viu que, de repente, tudo era um caos. Dai a gente vê um sistema político que não funcionou. Por mais bem intencionado que Chávez era, não funcionou. É muito simples de entender isso”, analisa.

O Coral então ganhou status de “fio condutor” do que na verdade é todo um sistema de apoio e acolhimento para famílias Venezuelanas em Pacaraima. Miriam é referência na cidade. As pessoas sabem que é até ela que é preciso ir quando chegam e necessitam de ajuda. Muito mais do que “maestrina”, Miriam também desempenha o papel de amiga, psicóloga, assistente social, advogada…e o que for preciso para garantir a segurança de quem chega. “Nós trabalhamos com as famílias, com a capacitação das mulheres para o mercado de trabalho, com rodas de conversa, com empoderamento, com proteção. E isso tem feito da Associação um espaço. Em qualquer lugar, a gente vai carregando esse patrimônio histórico de resgatar a vida das pessoas”, me conta sobre como a Canarinhos da Amazônia funciona.

Durante a conversa que temos, logo antes das crianças do coral chegarem para o almoço, ela me conta como é “conviver com a fome diariamente” desde que mudou-se para Pacaraima. “Quando as crianças chegam, que elas atravessam a fronteira, elas vêm num estado deplorável de fome, de desnutrição, de desespero, de falta completa de perspectiva. Daí o que a gente pode fazer?”. Como boa “encantadora de sonhos” que é, ela continua: “Vamos sentar e começar o processo da cura. Abrir os olhos, reencantar os sonhos. Isso é o primeiro trabalho que a gente faz depois de alimentar o corpo”.

Mais do que isso, a luta de Miriam é para que as pessoas consigam encontrar o seu equilíbrio e senso de normalidade de volta depois de sair do caos que está o outro lado da fronteira. “Se me pergunta, o que é a Casa da Música? É um espaço pacífico de convivência. Acontece o que lá? Acontece de tudo. Tudo de bom. Entende?. Lá as pessoas vão e têm comida, as pessoas têm carinho, têm acolhida, têm proteção. As pessoas passam de novo a sonhar, ter paz na sua vida”, me conta. “A gente só consegue caminhar se estiver harmoniosamente em paz. Se tiver muito sem saber onde você está e o que você está fazendo, você não consegue sair do lugar. Tem que ter essa neutralidade pra saber o que quer e poder seguir”, me resume com a sabedoria que só quem dedicou a vida a abrir caminhos e dar rumos poderia ter.

Ser encantadora de sonhos em ambientes de crise, no entanto, não é tarefa fácil. Miriam já encarou situações extremas de conflito na fronteira. Um dos episódios que me conta com indignação foi de quando um grupo de manifestantes ateou fogo no local onde viviam cerca de 30 famílias Venezuelanas no centro de Pacaraima, em agosto de 2018. “Foi horrível. Foi muito complicado, por que você não sabia a quem recorrer. A cidade parecia que tava pegando fogo, em todo lugar que você via tinha fogo. Era eu, eu mesma e essas pessoas. Enfim, foi traumático”, narra com a intensidade de quem viveu o horror da barbárie humana e lutou para conseguir abrigar todos na sua casa.

Me fala que tudo se organizou melhor depois da chegada do Exército Brasileiro para a missão humanitária, chamada de Operação Acolhida. Mas que o sentimento xenofóbico ainda é muito grande. “Principalmente do poder público que fomenta isso. Olhando de um ponto de vista -com o olhar das outras pessoas- tem muita gente que não entendeu e que não aceita. ‘É uma invasão no meu país, no meu território, na minha cidade’”, afirma.

Outro episódio marcante que me narra -dessa vez por mensagem- é o de 23 de Fevereiro desse ano, quando houve uma tentativa frustrada de envio de ajuda humanitária para o outro lado da fronteira. Na ocasião, o exército Venezuelano abriu fogo contra pessoas que tentavam atravessar ao lado Brasileiro. “Eu não tenho nenhuma questão ideológica a defender esse déspota Maduro, eu vejo mais além. Eu olho o ser humano, entende? Eu to vendo as pessoas que estão correndo e atravessando a fronteira pelos caminhos ilegais, homens e mulheres desesperadas. Enfim, são dois anos convivendo com essa migração, de corpo e alma e sentindo na pele. Vendo sonhos destruídos e tentando reencantar outros, mas hoje é o dia que eu me sinto mais impotente. O clima é de pavor”, me conta com a dor de quem luta pelo amor numa guerra dominada pelo poder.

Ainda assim, Miriam resiste. E vive um dia de cada vez. Seguindo na sua missão de reencantar sonhos de centenas de famílias que chegam a Pacaraima sem saber como será o futuro e assombrados por um passado de fome e miséria. “De alguma forma, a gente precisa ter o nosso Jardim do Éden, que é o teu momento de paz nas coisas que você acredita. E você precisa acreditar que elas estão aí pra te auxiliar, que o universo não é só esse caos que nós vivemos no planeta”, finaliza com esperança.

Published by Mira.Me

Written by Leila Maciel, a Brazilian girl who insists on calling the world her home. Escrito por Leila Maciel, uma Brasileira que insiste em chamar o mundo de casa. Instagram: @_mira.me

One thought on “Miriam e a luta pelo reencantamento dos sonhos

  1. Querida Leila…Gratidão por traduzir o real sentimento de nosso labor diário com nossas crianças e mulheres imigrantes …Hoje é o aniversário de nossa Asccam, uma associação jovem que tem dedicado 22 em amar ao próximo e ser um instrumento de transformação social através da Música. Gratidão pelo lindo presente que você deixa a disposição de nossa história como inspiração para as novas gerações de Canarinhos Embaixadores da Paz. Muito amor para você. Miriam e família Canarinhos Refugiados em Pacaraima.

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