A Mão Amiga do Exército Brasileiro em Pacaraima

O primeiro rosto que os imigrantes encontram ao cruzar a fronteira é o do militar. E isso talvez seja motivo de medo e preocupação em muitos lugares do mundo (inclusive algumas outras partes do Brasil). Não em Pacaraima. Na cidade fronteira entre Brasil e Venezuela os militares tem um propósito: acolher.

A “Operação Acolhida” foi lançada ano passado como missão humanitária em Roraima para “atender os irmãos Venezuelanos que chegam no país”, de acordo com o Ministério da Defesa. E como me impressionou aprender que o exército, de fato, tem uma “Mão Amiga”, bem diferente do “Braço Forte” pra falar no jargão dos próprios militares. Durante o período que estive lá, o exército sempre estava presente de alguma forma; seja no exercício de ações humanitárias, seja nas menções em todas as entrevistas que fiz com pessoas envolvidas no fluxo migratório.

Por isso fui acompanhar de perto o trabalho deles no Centro de Triagem de Pacaraima – o Petrig. “Nós somos referência no mundo. As missões de paz do exército Brasileiro são reconhecidas internacionalmente, mas pouco se fala disso”, comenta o Major Marcus Fabius enquanto me acompanha em um tour na estrutura montada especialmente para a missão em Junho de 2018.

É lá que se faz toda a documentação necessária para a entrada dos novos migrantes; incluindo vacinação, carteira de trabalho e CPF. Lá também é o lugar onde estão reunidas organizações como a ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), OIM (Organização Internacional para Migração) e UNFPA (United Nations Population Fund), que dão suporte em assuntos desde abrigo à saúde sexual.

Mas, de tudo, o que mais me chamou atenção foram os detalhes, as conversas, os pequenos gestos de gentileza que presenciei por acaso. Eu vi de fato carinho e acolhimento, que se expressava tanto no olhar cansado e na fala sincera de todos os militares com quem conversei e que me contaram sobre o desgaste emocional de estar imerso 24 horas na missão; quanto em cenas como um oficial brincando com uma menininha que se aproximou dele com uma garrafa de água.

A Operação Acolhida pode ser de fato chamada de Acolhida depois que eu passei pela área de vacinação e um oficial me falou que a parte mais difícil eram as crianças chorando com medo da vacina. Para acalmá-las, a equipe comprou com o próprio dinheiro um USB e encheu de desenhos animados em Espanhol para passar na tela do espaço de espera como distração para os pequenos.

O acolhimento também está na seção onde se encontra o banner “Tu familia puede saber que estás bien. Contáctala” (Sua família pode saber que você está bem. Contate-a) para apresentar o serviço gratuito da Cruz Vermelha de Restabelecimento de laços familiares. Está na agente da ACNUR, que parou tudo o que estava fazendo e teve que adiar a entrevista que eu pedi para ela para poder atender uma mulher grávida, com mais um filho no braço pedindo “por favor” por abrigo porque o filho tinha fome e ela não tinha para onde ir.

O envolvimento total dos militares com a missão se mostra quando, durante o tour, o Major Marcus Fabius me explica sobre o alojamento temporário que existe no Petrig. Em todo final de expediente, é preciso definir quem é elegível para passar a noite no alojamento que tem estadia máxima de 24h e é destinado apenas para pessoas consideradas em situação de alto risco antes de serem encaminhadas para um abrigo oficial da ACNUR. Sua voz pesa ao me falar da dificuldade de fazer a decisão dos mais vulneráveis entre os já vulneráveis. “É muito difícil. A gente vê gente em todo tipo de situação aqui. Outro dia tinha uma família com oito filhos, não tem como deixar eles na rua. O coração fica apertado quando a gente tem que decidir quem vai e quem fica”, comenta o Major.

O tenente Bruno, coordenador do alojamento, repete o sentimento em sua fala. Conta do desgaste emocional de lidar com a vulnerabilidade humana diariamente durante os meses que tem servido na missão. Mas também ressalta a gratidão que sente por fazer parte da Acolhida pelo carinho que recebe de volta por parte dos acolhidos. “Já teve até criança com nome em homenagem a mim aqui. Saiu até no Instagram da Acnur Américas”, fala com a emoção de quem sabe que vai poder guardar a história com afeto pra sempre.

Depois de conhecer a estrutura da missão, termino a visita perguntando ao Major Marcus Fabius sobre a opinião dele sobre a importância da Operação Acolhida. E a resposta não poderia resumir melhor a sinceridade e empatia que eu senti durante o tour. “Se a situação fosse contrária, eu gostaria que o povo Brasileiro fosse acolhido da mesma forma que a gente acolhe a população Venezuelana aqui. Acolher o imigrante é um trabalho de valorização à vida”, concluiu.

Published by Mira.Me

Written by Leila Maciel, a Brazilian girl who insists on calling the world her home. Escrito por Leila Maciel, uma Brasileira que insiste em chamar o mundo de casa. Instagram: @_mira.me

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