Gabriel Villalba: the certainty of a coup d’état in Bolivia

“What the world needs to know is that in Bolivia we don’t live in a democracy,” is one of the things Gabriel Villalba told me when we talked in a rooftop café in La Paz. From up there, there was a tranquillity that looked nothing like the streets we had just crossed to get to that destination.

Lawyer and political analyst, Gabriel is clear about the situation in the country. He has no doubt that Bolivia suffered a coup d’état in October 2019 and he narrates firmly the facts that led to that situation. “The opposition already had in mind when they were going to act. So they created a common sense that the elections would be fraudulent and they didn’t accept Evo Morales’ victory,” he said.

“Evo’s government innocently asked the OAS (Organization of American States) to issue a technical report on the occurrence of fraud and I believe this was a political mistake,” he continued.

The preliminary report issued by the OAS announced fraud in the elections. But it only analysed 0.22 per cent of Bolivia’s voting records, according to Gabriel. “There was already a climate of systematic violence because local electoral courts had been burned, they were frightening social leaders of the Movimiento Al Socialismo (MAS) and we went into a state of social upheaval. Chaotic, no?” he added.

With sadness, he recounts the days of tension on the weeks that followed, when Evo Morales had to resign and Jeanine Áñez took over the office of the country. He mentioned the repression of social protests and the burning of the Whipala flag – which represents the indigenous peoples of Latin America and is adopted as the Plurinational state of Bolivia’s second official flag – as symbols of violence in the new government. 

“It was very disheartening because you realised the difference in social classes. In the protests asking to overthrow Evo Morales’ government, where the children of the high command of the police were, there was no repression.  But in the other marches, of the popular sectors, they had no constraints in repressing us,” Villalba said.

He also commented on the political persecution suffered by him and other fellow political activists. “I had, outside my house, plainclothes policemen and soldiers hanging around in cars. This is how the intelligence force of the military operates as a form of frightening. I had to be out of my house and for a week, moving from house to house of friends because I could not be in the same place. It was too dangerous. Our physical integrity was in danger,” he recalled.

But he can also see something positive in that. “I’m glad that’s happened, too. Do you know why? Because people used to say that with Evo we lived in a dictatorship when it was a democratic government. And now they realize what a dictatorship government is, with the military on the streets and war weapons shooting at civilians. That’s the real coup, isn’t it? And I believe that the young people who finally recognised this will be the hidden vote that will determine the elections,” Gabriel said, referring to the elections that were scheduled for May 3 at the time – and indicated results in favour of the MAS according to opinion polls.

Now, in a more recent commentary on what is happening in the country, which has postponed the elections indefinitely due to the Coronavirus pandemic, Villalba sees Bolivian democracy as even more fragile at the moment. “More than suspending or postponing the elections, they [the government of Áñez] fears this tendency of 40% of the votes to the MAS shown in the latest polls. So Jeanine Áñez is taking measures, taking advantage of the Coronavirus, to reverse this intention to vote,” he told Telesur network in March.

Even so, he believes that the MAS can go back to power after the pandemic. “They [Áñez administration] asked to postpone the elections without consulting the MAS, and I believe this will fall against them. They are taking authoritarian measures and the population is aware of that. They are disapproving Áñez’s de facto government actions and this has consequences on the ballot boxes, as you can see in the polls of intention to vote,” he concluded.

Gabriel Villalba: a certeza de Golpe de Estado na Bolívia

“O que o mundo precisa saber, é que na Bolívia não vivemos em democracia,” é o que me disse Gabriel Villalba enquanto conversamos em um café num terraço no centro de La Paz. Dali de cima, havia uma tranquilidade que nada se parecia com as ruas que tínhamos acabado de cruzar para chegar àquele destino.

Advogado e analista político, Gabriel é claro sobre a situação do país. Não tem dúvidas de que a Bolívia sofreu um golpe de Estado em outubro de 2019  e narra com firmeza os fatos que levaram a tanto. “A oposição já tinha claro o momento em que ia atuar. Então criaram todo um sentido comum de que as eleições seriam fraudulentas e não aceitaram a vitória do Evo Morales,” contou.

 “O governo do Evo pediu inocentemente a OEA (Organização dos Estados Americanos) para fazer um informe técnico sobre a ocorrência de fraude e creio que isso foi um erro político,” continuou.

O informe preliminar emitido pela OEA anunciou fraude nas eleições. Porém só analisou 0,22 por cento dos registros de voto na Bolívia, segundo Gabriel. “Já existia um clima de violência sistemática porque tribunais eleitorais locais tinham sido queimados, estavam amedrontando líderes sociais do Movimento ao Socialismo (MAS) e entramos em estado de convulsão social. Caótico, não?” completou.

Com pesar, ele recontou como foram os dias de tensão que seguiram esse momento, quando Evo Morales teve que renunciar e Jeanine Añez assumiu a presidência do país. Mencionou a repressão aos protestos sociais e a queima da bandeira Whipala – que representa os povos indígenas da América Latina e é adotada como segunda bandeira oficial do Estado Plurinacional da Bolívia – como símbolos de violência do novo governo. 

“Foi muito triste, porque você se dava conta da diferença de classes sociais. Nas marchas que pediram, por 21 dias, para derrubar o governo do Evo Morales e tinham uma condição de classe alta, onde estavam os filhos do próprio alto mando policial, não houve repressão.  Mas nas outras marchas, dos setores populares, não tiveram dúvidas em nos reprimir e isso foi o que mais me causou pena,” declarou Villalba.

E também comentou sobre a perseguição política sofrida por ele e outros companheiros ativistas políticos. “Eu mesmo, fora da minha casa, tinham policiais e militares à paisana rondando em carros. Assim opera a inteligência da polícia, dos militares como uma forma de amedrontar. Eu tive que sair da minha casa e durante uma semana fiquei me mudando de casa em casa de amigos porque não podia estar no mesmo lugar. Era perigoso demais. Nossa integridade física corria perigo”.

Mas também consegue enxergar algo de positivo nisso. “Eu também me alegro que isso tenha acontecido. Sabe porque? Porque todos diziam que com Evo nós vivíamos em ditadura, quando era um governo democrático. E agora se deram conta do que é um governo de ditadura, com militares nas ruas e armamento de guerra disparando contra civis. Esse é o verdadeiro golpe de Estado, não? E creio que os jovens que finalmente reconheceram isso vão ser o voto oculto que determinará um âmbito de apoio,” falou Gabriel, referindo-se as eleições que estavam previstas para o 03 de maio na época – e indicavam resultados favoráveis ao MAS de acordo com pesquisas de opinião.

Agora, em comentário mais recente ao que se passa no país, que adiou as eleições por tempo indeterminado pela pandemia do Coronavírus, Villalba vê a democracia boliviana mais frágil no momento. “Mais que suspender ou postergar as eleições, eles [o governo de Áñez] têm esse medo dessa tendência de 40 por cento dos votos ao Movimento Ao Socialismo, demonstrado nas últimas pesquisas. Então Jeanine Áñez está tomando medidas, aproveitando-se do Coronavírus, para reverter essa intenção de voto,” contou em entrevista a rede Telesur em Março.

Ainda assim, crê que o MAS pode se reerguer pós-pandemia. “Pediram para postergar as eleições sem consultar o MAS e creio que isso vai cair contra eles. Eles estão tomando medidas autoritárias e a população está tomando consciência social de repúdio ao governo de facto de Áñez e isso tem consequências nas urnas, como é possível ver nas pesquisas de intenção de voto,” concluiu.

Bolivia: reflexiones sobre la democracia entre protestas y susurros

En octubre de 2019, Bolivia apareció en los diarios de todo el mundo. Después de cuestionada la legitimidad de su tercera reelección, el entonces presidente Evo Morales fue removido en un movimiento que los libros de historia me habían enseñado sobre lo que es un golpe de Estado. Ejército en la calle, truculencia, represión. Aún así, leí editoriales de vehículos internacionales que decían lo contrario. Y en menos de dos semanas, el tema ya era cosa del pasado. 

No estaba contenta. Sentí que todavía había mucho que decir y nada se decía sobre ese momento de Bolivia. Supe de inmediato que estas historias tenían que estar aquí de alguna manera.

Fui en febrero. Encontré un escenario mucho más complejo de lo que imaginaba. Un país cuya política – como todo el resto de América Latina – estuvo marcada por golpes de Estado, renuncias, asesinatos y violencia desde siempre. Encontré un pueblo que ocupaba las calles y protestaba todos los días, pero que se sentía intimidado y tenía miedo a hablar cuando me acercaba. Todas las conversaciones tenían un aire de secreto, como “hablando de lado y mirando al suelo”, o en lugares “seguros” donde la guardia nacional no podía oírnos.

He escuchado muchas opiniones. Sentí mucha incertidumbre de las personas. Volví con más preguntas que respuestas, como siempre. Pero comparto con ustedes en esta nueva serie de las voces que escuché entre La Paz y Cochabamba. Porque merecen ser escuchadas. Y por que son importantes para cuestionar la dirección de la democracia en América Latina. 

Bolivia: reflections on democracy between protests and whispers

In October 2019, Bolivia made headlines around the world. After questioning the legitimacy of his third re-election, then-President Evo Morales was removed in a movement that the history books had taught me was a coup d’état. Army in the street, truculence, repression. Even so, I read editorials from international vehicles stating the opposite. And in less than two weeks the subject was already past. 

I was not satisfied. I felt that a lot still had to be said and it wasn’t about that moment in Bolivia. I knew that these stories had to be here somehow.

I went in February. I found a much more complex scenario than I ever imagined. I found a country where politics – like the rest of Latin America – was marked by coups d’état, renunciations, murders and violence. I found people who occupied the streets and protested every day, but who felt intimidated and afraid to speak when I approached. All the conversations had an air of secrecy, often kind of “talking on the side and looking at the ground” or in “safe” places where the national guard could not hear us.

I heard a lot of opinions. I noticed a lot of uncertainty. I came back with more questions than answers – as usual. But I share with you in this new series the voices I heard between La Paz and Cochabamba. Because they deserve to be heard. Because they are important to reflect on the direction of democracy in Latin America. 

Bolívia: reflexões sobre democracia entre protestos e cochichos

Em outubro de 2019, a Bolívia foi alvo das manchetes do mundo. Após questionamentos sobre a legitimidade de sua terceira reeleição, o então presidente Evo Morales foi retirado num movimento que os livros de história tinham me ensinado ser golpe de Estado. Exército na rua, truculência, repressão. Ainda assim, li editoriais de veículos internacionais afirmando o contrário. E em menos de duas semanas o tema já era assunto passado. 

Não me contentei. Senti que muito ainda tinha que ser dito e não estava sendo sobre aquele momento da Bolívia. Soube de pronto que essas histórias tinham que estar aqui de alguma forma.

Fui em fevereiro. Encontrei um cenário muito mais complexo do que imaginava. Um país cuja a política  – assim como o resto da América Latina – foi marcada por golpes de Estado, renúncias, assassinatos e violência desde sempre. Encontrei um povo que ocupava as ruas e todo dia protestava, mas que ao mesmo se sentia acuado e com medo de falar quando eu me aproximava. Todas as conversas tinham um ar de segredo, muitas vezes meio “falando de lado e olhando pro chão” ou em lugares “seguros”, onde a guarda nacional não pudesse nos ouvir.

Ouvi muitas opiniões. Percebi muita incerteza. Voltei com mais perguntas que respostas – como de costume. Mas divido com vocês nessa nova série as vozes que escutei entre La Paz e Cochabamba. Porque elas merecem ser ouvidas. Porque elas são importantes questionar os rumos da democracia na América Latina. 

The calls to my grandmother (and the certainty that she speaks my language)

I’ve been calling my grandma more often. 

She’s always lived far away. But I never called. 

Maybe because something in me always fed the hope that at the end of the year we’d see each other. And then I could give her the tightest hugs and lay my head on her lap while she stroked my hair. 

Maybe I never called because my memories with my grandmother were always related to those affections. And in a silly way, not calling her was for me a certain guarantee that I would have to meet her again to exchange those affections.

Today, I feel I’ve lost the privilege of wanting to limit our connection to the physical. Just because I wanted our meetings to always have the same warmth as the first time I flew to Recife and she welcomed me at the car door when we arrived from the airport. 

I remember I never felt so relieved in life when I realised that, just like me, she also spoke Portuguese, even living in what to me seemed so far away – at the time there was no greater distance for me than São Paulo-Recife. This is what my grandmother always meant to me. The comfort of knowing that even far from home someone will always speak my language. 

And it hurts. It hurts to lose that privilege of wanting things to always stay the same. Even more so when they involve grandma and childhood memories.

Yesterday, I missed touching her little face when she approached the screen and I could see her wrinkles. I could smell her apartment in Olinda as she made up the bed and talked to me. A smell that only her house has and that I can only describe as “the smell of my grandma’s house”. I wondered if one day I would ever smell that place again or if I would be left with the memory of it.  

I thought that as an immigrant for the last 4 years, I had already mastered the art of breaking distances by virtual presence – and so this moment of chaos would be easier. 

Great illusion. 

To see my grandmother on the screen is as comforting as it is distressing. It’s proof that the future is uncertain. And this uncertainty is always hard to deal with. 

But there is also beauty in these virtual meetings with my grandmother that I may have always been deprived of by pure attachment to old memories. 

As she has been visiting us in São Paulo for some years now, I rarely have the opportunity to be with her in her house. And I like it so much to be at her house.

She is always more radiant at home. She gives a little smile that almost never appears in São Paulo, where she is constantly trying to understand the “where” and the “why” of things. I like to see her replace the “Where I come from there’s no such thing, no” with a moody face that she says a lot in SP with “I love my Olinda” with happy eyes that she repeats in her city.

I also love that my grandma has exactly the same habit I have of hanging pictures on the wall. And whenever I call she insists on showing them to me. “Look how beautiful you look in that one.” “Here’s mommy’s little girl,” she says, pointing to my mum’s picture.

In the living room, she has a painting of my grandfather, who died in 2006, and she insists on saying “Your grandfather, what a handsome man” in a passionate tone and shining eyes when she walks past. And I think there is nothing more beautiful than this love that she still nurtures for him after almost 70 years of marriage.

My grandmother also shows me the sea from her balcony. It’s an opportunity I have to see the ocean without leaving home. There is something about seeing the sea that makes me feel closer to her. Maybe because I know that although I can’t see it from my window, a little bit of ocean is also a short walk away from here.

Times are hard but, in the end, my grandmother still speaks my language. No matter how far away she is. And that doesn’t change.

As ligações para a minha Avó (e a certeza de que ela fala a minha língua)

Tenho ligado para a minha vó com mais frequência. Por algum motivo que eu não sei bem explicar, eu nunca o fiz muito.

Ela sempre morou longe. Mas eu nunca liguei. 

Talvez porque alguma coisa em mim sempre alimentou a esperança de que no final do ano a gente fosse se ver. E aí então eu poderia dar-lhe os abraços mais apertados e deitar no seu colo para ganhar um cafuné. 

Talvez eu nunca tenha ligado porque as minhas lembranças com a minha avó sempre passaram por esses afetos. E de um jeito bobo, não ligar para ela, era para mim uma certa garantia de que eu teria que encontrá-la novamente para trocar esses carinhos.

Hoje, eu sinto que perdi o privilégio de querer limitar nossos contatos ao físico. Só por um capricho de querer que nossos encontros tenham sempre o mesmo calor daquela primeira vez que eu voei para Recife e ela me recebeu na porta do carro chegando do aeroporto. 

Lembro de nunca ter me sentido tão aliviada na vida ao saber que, assim como eu, ela também falava português, mesmo morando no que para mim parecia tão longe – nos meus olhos de criança a distância São Paulo-Recife era a maior que existia. Minha vó sempre foi isso pra mim. O aconchego de saber que mesmo distante de casa alguém sempre vai falar a minha língua. 

E dói. Dói perder esse conforto de querer que as coisas permaneçam sempre as mesmas. Ainda mais quando elas envolvem chamego de vó.

Ontem, senti particular saudade de encostar no rostinho dela quando ela se aproximou da tela e pude ver as suas marcas de expressão. Lembrei de um passado não tão distante mas que já parece há uma eternidade atrás, em que eu podia apertar a carinha dela e falar “vóvó” todos os dias de manhã da última vez que ela veio nos visitar. 

Pude sentir o cheirinho do apartamento dela em Olinda equanto ela arrumava a cama e conversava comigo. Um cheiro que só a casa dela tem e que eu não consigo descrever de jeito nenhum a não ser como “o cheiro da casa da minha vó”. Me perguntei se algum dia eu vou voltar a sentir o cheiro daquele lugar de novo ou se vai restar apenas a lembrança.  

Achei que como imigrante pelos últimos 4 anos, eu já tinha dominado a arte de quebrar distâncias por presenças virtuais – e por isso, esse momento de caos seria mais fácil. 

Grande ilusão. 

Ver a minha vó pela tela do celular é tão confortante quanto angustiante. É a prova de que o futuro é incerto. E essa incerteza é sempre difícil de lidar. 

Mas tem também beleza nesses encontros virtuais com a minha avó que eu talvez sempre tenha me privado de ver por puro apego a lembranças antigas. 

Como já faz alguns anos ela que visita a gente em São Paulo, eu raramente tenho a oportunidade de estar com ela na casa dela. E eu gosto tanto, tanto de estar na casa dela.

Ela está sempre mais radiante em casa. Dá um tipo de sorrisinho que quase nunca aparece em São Paulo, onde ela está constantemente tentando entender o “onde” e o “porquê” das coisas. Eu gosto de ver ela substituir o “Na minha terra não tem isso, não” de cara fechada que ela fala em SP por “Eu amo minha Olinda” de olhos alegres que ela repete na cidade dela.

Eu também amo que a minha vó tem exatamente a mesma mania que eu de pendurar fotos na parede. E quando eu ligo ela faz questão de me mostrá-las. “Olha como você ta linda nessa”. “Aqui o brotinho de mamãe”, ela diz apontando para a foto da minha mãe com a voz de quem tá falando do seu bebê. 

Na sala ela tem um retrato do meu avô, falecido em 2006, e ela insiste em falar “Seu avô, que lindo” em tom apaixonado e olhos brilhando quando passa por ele. E eu acho que não existe nada mais bonito que esse amor que ela ainda nutre por meu vô depois de quase 70 anos de casados.

Minha avó também me mostra o mar da varanda dela. E assim, pelo menos, eu tenho uma chance de ver o oceano sem sair de casa. Há algo em ver o mar que me faz sentir mais perto dela. Talvez porque eu saiba que embora eu não consiga vê-lo da minha janela, a metros daqui também há um pedacinho de oceano. E isso só compartilhamos porque estamos em lados opostos do mundo, porque São Paulo não tem praia.

Os tempos estão difíceis mas, no fim, minha vó continua falando a minha língua. Não importa o quão distante ela esteja. E isso não muda.

Canarinhos refugiados em Pacaraima project: building Venezuela’s future from Brazil

“If you want to know what a country’s future looks like, look at the children. They’ll give you a good idea,” was one of the first things Miriam Blos said to me when we met at the Casa da Música in 2019. A year later, in the same place, the phrase couldn’t make more sense. 

If before I talked about the conversations I had about Venezuela’s glorious past and struggling present, in this text I want to talk about the country’s future. And how much I saw the construction of a better future through the Canarinhos refugiados em Pacaraima project – which began 23 years ago as Canarinhos da Amazônia

I’ve already talked about Miriam here and said how the choir, which is the heart of the project, serves as a starting point of a much bigger purpose that is the rekindle of dreams. And this can be seen in the eyes of the Canarinhos who arrive at the Casa da Música to sing. It can be felt, for example, when they sing the Brazilian anthem while practising for the first audition of the year – and in doing so, they also resignify the anthem in times it has only been used to reinforce hate speech and xenophobia.

But it goes beyond that. There is also a whole team working behind the scenes to keep the project going and they believe body, soul and heart in what is being done there. If that’s not the key to change, I don’t know what is. The Casa da Música, among so many things, is a reminder that a better future is built from the present.

Maria

“Thanks to this mission, we are supporting the youth of our Venezuela. We are Venezuelans and we can give our little contribution to help our children. I believe that if each one of us seeds in the hearts of our future, which are the kids, these values of respect, solidarity and kindness, that’s where the change in the country will be structured,” comments Maria, who has been working for a year and a half with the administration and logistics of the project and is also mum of two Canarinhos.

For her, being part of the mission is also a way to make the migration process less difficult: “It’s not easy being an immigrant, because it’s a process of leaving [your country] and getting to know new cultures, seeing beyond. This isn’t easy. But being here supporting the project has motivated me to always keep my mind and eyes on helping our children,” she says. 

Reina

Reina, who also is part of the Casa da Música team and has kids singing in the choir, sees the project as a support network for the families who arrive. “I like to see how the kids here grow up and build their paths. If they come without a direction of what they want, they find more. And the parents benefit as well because they have the chance to get the project’s message and change their lifestyle. If it was bad before, they can make it better. So it’s a whole family that is restored and leaves here with a positive outlook,” she says.

Reina also comments on the hope the kids give to her. “They are young but they know the language, they know how to treat people from different countries who visit us, they learn music from different places…and if they can do all that, I like to believe that we can. I feel good,” she concludes.

Canarinhos refugiados em Pacaraima: a construção de um futuro para a Venezuela no Brasil

“Se você quer saber como o futuro de um país se parece, olhe para as crianças. Elas vão te dar uma boa ideia,” foi uma das primeiras coisas que Miriam Blos me disse quando nos conhecemos na Casa da Música em 2019. Um ano depois, no mesmo lugar, a frase não podia fazer mais sentido. 

Se antes eu comentei aqui sobre as conversas que tive sobre o passado glorioso e o presente sofrido da Venezuela, nesse texto eu quero contar sobre o futuro do país. E do quanto eu vi a construção de um futuro melhor através do projeto Canarinhos refugiados em Pacaraima – que começou há 23 anos atrás como Canarinhos da Amazônia. 

Já falei sobre a Miriam aqui e contei como o coral, que é o coração do projeto, serve como fio condutor de sonhos. E isso se vê nos olhos dos Canarinhos que chegam na Casa da Música para cantar. E se sente, por exemplo, quando entoam o hino brasileiro baixinho pelos cantos enquanto praticam para a primeira audição do ano – e assim também o ressignificam em tempos em que o hino só tem sido usado para reforçar um discurso de ódio e xenofobia.

Mas vai além. Por trás do coral também percebi um time inteiro de pessoas trabalhando para manter o projeto funcionando e que acredita de corpo, alma e coração no que está sendo feito ali. E se essa não é a chave para a mudança e dias melhores, eu não sei qual é. A Casa da Música, entre tantas coisas, é um lembrete de que um futuro melhor se constrói a partir do presente.

Maria

“Graças a essa missão nós estamos apoiando a juventude da nossa Venezuela. De alguma maneira nós somos venezuelanos e podemos dar o nosso grãozinho de areia para ajudar também as nossas crianças. Acredito que se cada um plantar nos corações do nosso futuro, que são eles, esses valores de respeito, de solidariedade e de bondade é de aí que vai se estruturar a mudança no país. Nessa mudança de mentalidade,” comenta Maria, que trabalha há um ano e meio com a administração e logística da Casa e é mãe de Canarinhos.

Para ela, fazer parte da missão é também uma maneira de fazer o processo de migração ser menos duro. “Não é fácil ser imigrante, porque é um processo de deixar [o seu país] e conhecer culturas novas, ver mais adiante. E não é fácil. Mas estar aqui apoiando o projeto tem me motivado, a sempre manter a mente e os olhos postos em ajudar nossas crianças,” conta. 

Reina

Já Reina, que também faz parte do time da Casa da Música e tem filhos cantando no coral, vê o projeto como rede de apoio para as famílias que chegam. “Eu gosto de ver como as crianças vão crescendo e construindo um caminho. Se vinham sem direção do que queriam, já se encontram mais. E os pais também, que têm a chance de entender a mensagem e mudar o estilo de vida. Se estava ruim, podem melhorar. Então é uma família inteira que se restaura e saem daqui com uma visão positiva para onde quer que seja,” comenta.

Ela ainda acrescenta sobre a esperança que a organização lhe dá. “São crianças mas sabem o idioma, sabem tratar as pessoas de diferentes países que nos visitam, aprendem músicas de diferentes lugares…e se eles podem tudo isso, eu gosto de acreditar que sim, nós podemos. Me sinto bem,” finaliza.

La Gran Sabana: about the things a crisis cannot destroy

Tú no puedes comprar las nubes, tú no puedes comprar los colores, tú no puedes comprar mi alegría, tú no puedes comprar mis dolores” (you can’t buy the clouds, you can’t buy the colours, you can’t buy my happiness, you can’t buy my sadness), the chorus of Latinoamérica by the group Calle 13 echoes in my head as I observe the reflection of the clouds in a little stream on La Gran Sabana. There are things that a crisis, a regime or a disastrous government plan cannot destroy. Perhaps this was my greatest learning during my brief stay in Venezuela.

As I mentioned before, this trip was a bit different this time. I changed plans several times along the way. And it was good. La Gran Sabana is probably not the place a journalist would seek to portray the crisis, but I am grateful to have chosen this unusual destination. I spent the day both in the most perfect calmness and in the eye of the hurricane. And this constant contradiction allowed me to see dimensions of the country’s situation that I probably wouldn’t have been able to see elsewhere. 

Amidst the spaced vegetation, some lakes that form small oases and the grandiosity of the “tepuis” – like Mount Roraima – that can be seen from the distance, it is almost possible to forget why thousands of Venezuelans flee the country every day.

Almost. If you look more carefully and attentively, you can see that the sense of normality is only apparent and that the political, economic and humanitarian crisis, yes, is present even in the most hidden places. 

From where I was – and cannot be revealed for security reasons – the silence was broken several times a day. I crossed paths with people from all over the country, who saw there a refuge and a way to survive the current political and economic chaos without having to leave their homeland. 

Due to the proximity to Brazil, the lack of supply, in fact, does not seem to be a problem. And you cannot feel the crisis so much. Through a kind of parallel market – which is not approved by the government but also not barred by inspection – all kinds of Brazilian products arrive, from food and gasoline to cigarettes and alcohol. 

Even so, in the villages, there are those who walk for almost two hours to reach a point of sale of Brazilian products. Among the conversations, I heard many comments such as “I’m not going to work on my motorcycle because I can’t afford to spend so much on petrol” or “I can’t buy a lot of vegetables because there’s no way to keep them without a refrigerator at home”. 

You can’t deny that there’s something melancholic about the scenario. And it would be irresponsible to romanticise the suffering and daily difficulties of the crisis. But I’d like to emphasize here the strength of those who move forward, always. 

Because, at the same time, I heard a lot “I won’t leave this place even with the worst situation it might reach” and “I couldn’t be happy anywhere else”. 

There is something beautiful about how life goes on and how every little thing becomes happiness. I saw a celebration over a pot of olives, for example. “Wow, it’s been five years since the last time I’ve seen olives, oh my God!”, said a woman with bright eyes contemplating the “luxury” of being able to eat something different from the usual.

I travelled to the beaches near Caracas without leaving the place I was during a humorous talk about times when the only concern was deciding whether to go into the sea or not. I heard many laughs, I saw many smiles. It’s hard to explain that joy. But I know it’s also a form of resistance and deserves space in this blog.

No puedes comprar mi vida” (you can’t buy my life) say the final verses of  Calle 13 in Latinoamérica.