Alicia Granci: “Sí, soy argentina” (Yes, I’m Argentinian)

“It’s crazy that right now we’re almost like prisoners. We’re not prisoners but we can’t go out the way we used to. It’s contradictory. As far as my family is concerned, being an international student, we are a sort of used to it because we know what it’s like to be away from our loved ones,” says Alicia Granci, on a Thursday night, leaning against her bedroom bed, while I listen to her from my living room through a video call. “I think we are already mentally prepared because we know that we have to be strong and move forward with our projects, which in this case is to study,” adds the Argentinian student, who now lives in Australia.

Alicia and I have known each other for some years now. We take the same course at the university, we share the identity of South Americans and a passion for dancing Salsa. Seeing someone who is part of your everyday life on-screen gives an even more (un)real feel to the pandemic – in fact, all the interviews in this project have something of fantastic and experimentation, of looking in the eye without looking in the eye. But that’s a reflection for later.

Back to Alicia. In our pandemic interview scenario, she talks about what it’s been like to be more at home and how the relationship with the Australian family who she lives with has changed: “I’ve always had a good relationship with them, but as I was almost always away from home, at university or at work, I never had a moment to sit down with them and talk. And now we sit down and talk about life, we have so much more interaction. This human contact is super important in all parameters, so the relationship that was already beautiful was intensified by a hundred.”

She comments on the relationship with her family back in Argentina as well. Although she doesn’t talk to them every day, she says how calling them makes her happy. “Seeing their smiles it’s something I enjoy,” she says. But she adds about coping with the uncertainty of when she will be able to physically see them again. “It’s like ‘aww, I want to hug them so much’! We don’t know when we’re going to be able to travel, so we have to think positively that we’re going to see them again. To have them a little bit closer by the voice at this moment is very important.”

Continuing with a voice full of pride and affection, Alicia adds about the love she has for her land. “Ever since I was born, Argentina is in my heart, from minute zero. And I don’t think that’s going to change. I think what happens to all Latinos when they leave is that we see many things that we think ‘I wish we could be at the same level of the country we live in now,’ at least in terms of health services, for example. But this love and appreciation, despite the needs that Argentina has, it’s always with me, because that’s where I was born and where I feel I belong. When I drink my mate… my voice always gets like this because, ‘Sí, soy Argentina’ (‘yes, I’m Argentinian’).” 

Photo Credit: Alicia Granci

“At the moment, I’m very happy that the president in power [of Argentina] took the decision, and said it publicly in words and also showing in actions, that more important than the economy is the health. That for me is the most important in any part of the universe. I am proud to say that the president cares about the population of the country where I was born and the country I love,” she adds.

When asked about the little things that make her sane during the quarantine, Alicia talks about music and sunshine. “For me, listening to music is a huge thing. And going out for a walk helps me too. I try to forget everything. Absorb the sunlight and think it’s recharging me, like when you put the phone in to charge until the battery reaches a hundred per cent.”

She also shares the learning that the pandemic situation has brought her. “I think I appreciate everything we have a little bit more. There’s a lot to be thankful for and valued beyond the financial, because now that I’m home, not even money matters anymore. Family affections, being sane, having a roof over your head and food, are the simple things you need to live. After that, whatever comes, I don’t know,” she concludes.

Alicia Granci: “Sí, soy argentina”

“É louco que nesse momento nós estamos quase como prisioneiros, não somos prisioneiros mas não podemos sair da maneira como saíamos. É contraditório. Enquanto o que diz respeito a minha família, por ser estudante internacional, estamos um pouco acostumados porque sabemos o que é estar longe dos nossos entes queridos,” me fala Alicia Granci, numa quinta feira a noite, apoiada contra a cama de seu quarto, enquanto eu a escuto da minha sala através de uma ligação de video.“Creio que já estamos mentalmente preparados porque sabemos que temos que ser fortes e seguir adiante com os nossos projetos, que no caso é estudar,” completa a estudante argentina, que hoje vive na Austrália.

Alicia e eu já nos conhecemos há alguns anos. Fazemos o mesmo curso da universidade, dividimos a identidade de sulamericanas e uma paixão por Salsa. E esse ver na tela alguém que faz parte do cotidiano dá um ar de mais (su)real à pandemia – aliás, todas as entrevistas dessa série tem um quê de fantástico e experimentação, de mirar nos olhos sem ollhar nos olhos. Mas isso é reflexão para depois.

Voltemos à Alicia. Nesse nosso cenário pandêmico de entrevista, ela me conta sobre como tem sido ficar mais em casa e de como a relação com a família australiana – uma mãe e uma filha – que mora com ela mudou.  “Sempre tive uma boa relação com elas, mas como eu estava quase sempre fora de casa, na universidade ou no trabalho, eu nunca tinha um momento de sentar com elas e conversar. E agora nos sentamos e falamos da vida, temos muito mais interação. Esse contato humano é super importante em todos os parâmetros, então o que já tinha de lindo, se intensificou por cem.”

Ela também comenta sobre a relação com a família de volta na Argentina. Ainda que não fale com eles todos os dias, diz como ligar para eles a faz feliz. “Ver o sorriso deles, é como algo que eu to disfrutando,” fala. Mas acrescenta sobre a dificuldade de lidar com a incerteza de não saber quando vai poder vê-los fisicamente de novo. “É como ‘ai, que vontade que eu tenho de abraçá-los’. Não sabemos quando vamos poder viajar, então temos que pensar positivo de que vamos vê-los de novo.”

E com a voz cheia de orgulho e carinho, Alicia acrescenta sobre o amor por sua terra. “Sempre, desde que nasci, a Argentina está no meu coração, desde o minuto zero. E acho que isso não vai mudar. Creio que o que acontece com todos os latinos ao sair é que vemos muitas coisas que pensamos ‘quisera eu que nós pudessémos estar na altura do país em que vivemos agora’, pelo menos em condições de saúde, por exemplo. Mas esse amor e apreciação, apesar das carências que a Argentina tem, não vão faltar, porque é onde nasci e onde eu me sinto identificada constantemente. E quando eu tomo um mate, é quando eu me sinto ‘sí, soy argentina’.”

Foto cedida por Alicia Granci

“Nesse momento eu to muito feliz que o presidente que está no poder, tomou a decisão, e o disse publicamente em palavras e também evidenciando em ações que mais importante que a economia é a saúde e isso para mim é o mais importante em qualquer parte do universo. Me sinto orgulhosa de dizer que o presidente se importa com a população do país onde eu nasci e do país que eu amo,” acrescenta.

Já falando da vida do outro lado do mundo, e as pequenas coisas que a mantém sã durante a quarentena, Alicia fala de música e da luz do sol. “Para mim, ouvir música é algo enorme. E como estou em um lugar menor, sair para caminhar me ajuda também. Tento esquecer de tudo. Não pensar em nada, absorver a luz do sol e pensar que está me recarregando como quando você põe o celular para carregar, até que a bateria chegue a cem por cento.”

E para finalizar, ela divide os aprendizados que a situação de pandemia trouxe para ela. “Acho que eu aprecio um pouco mais tudo o que temos. Há muito o que agradecer e valorizar além do monetário, porque agora que estou em casa, nem o dinheiro importa mais. Os afetos da família, estar sã, ter um teto e comida, são as coisas simples que precisamos para viver. Depois disso, o que vier, eu não sei,” conclui.

Gabriel Villalba: la certeza de un golpe de Estado en Bolivia

“Lo que el mundo necesita saber es que en Bolivia no vivimos en democracia”, es lo que me dijo Gabriel Villalba mientras hablábamos en un café de una terraza del centro de La Paz. Desde allí arriba, había una tranquilidad que no se parecía en nada a las calles que acabábamos de cruzar para llegar a aquel destino.

Abogado y analista político, Gabriel tiene clara la situación del país. No duda de que Bolivia sufrió un golpe de Estado en octubre de 2019 y narra con firmeza los hechos que llevaron a tanto. “La oposición ya tenía claro cuándo iban a actuar. Habían generado un sentido común de que las elecciones serían fraudulentas y no reconocieron el triunfo de Evo Morales,” dijo.

“El gobierno de Evo pidió inocentemente a la OEA (Organización de Estados Americanos) un informe técnico para saber si había ocurrido fraude y creo que esto fue un error político,” continuó.

El informe preliminar emitido por la OEA anunció un fraude en las elecciones. Pero sólo analizó el 0,22 por ciento de los registros de votación de Bolivia, según Gabriel. “Ya había un clima de violencia sistemática porque se habían quemado los tribunales electorales locales, las casas de campaña del Movimiento al Socialismo (MAS) y se habían amedrentado a líderes sociales. Estábamos en un estado de convulsión social, caótico, no?”, añadió.

Con pesar, cuenta los días de tensión que siguieron a ese momento, cuando Evo Morales tuvo que renunciar y Jeanine Áñez asumió la presidencia del país. Menciona la represión de las protestas sociales y la quema de la bandera Whipala – que representa a los pueblos indígenas de América Latina y es adoptada como la segunda bandera oficial del Estado Plurinacional de Bolivia – como símbolos de violencia del nuevo gobierno. 

“Ha sido muy triste, porque se daba cuenta de la diferencia de clases sociales. En las marchas que pedían, durante 21 días, para tumbar al gobierno de Evo Morales, tenían una condición de clase alta donde estaban los hijos del alto mando de la policía, no había represión.  Pero en las demás marchas, de los sectores populares, de la gente campesina, no tuvieron reparo a reprimirnos y eso fue lo que me causó más pena,” dijo Villalba.

También comenta la persecución política que sufren él y otros activistas políticos. “Yo mismo, afuera de mi casa, tenía policías y militares de civil rondando en autos. Así es que opera la inteligencia de la policía de los militares, como una forma de amedrentar. Tuve que salir de mi casa y durante una semana estuve de casa en casa de mis amigos moviendome porque no podía estar en una misma locación, era peligroso. Nuestra integridad física corría peligro.”

Pero también puede ver algo positivo en eso. “También me alegro que haya pasado. Sabes por qué? Porque toda la gente que decía que ‘con Evo vivimos en una dictadura’ cuando era un gobierno democrático, ahora se han dado cuenta de lo que es un gobierno dictatorial, con militares en las calles y armas de guerra disparando a los civiles. Ese es el verdadero golpe que ha habido, no? Y los jóvenes de 18 años finalmente han conocido lo que es una dictadura, los que decían que antes vivíamos en una dictadura. Así que creo que ese va a ser el voto oculto que va a determinar también un ámbito de apoyo,” dijo Gabriel, refiriéndose a las elecciones que estaban programadas para el 3 de mayo  – e indicaba resultados favorables al MAS según las encuestas de opinión.

Ahora, en un comentario más reciente sobre lo que está sucediendo en el país, que ha postergado las elecciones indefinidamente debido a la pandemia del Covid-19, Villalba ve la democracia boliviana como todavía más frágil en este momento. “Más allá que suspender o postergar las elecciones, tienen [el gobierno de Áñez] este miedo de esta tendencia del 40 por ciento de los votos al Movimiento al Socialismo, demostrada en las últimas encuestas. Así que Jeanine Áñez está tomando medidas, aprovechando el Coronavirus, para revertir esta intención de voto,” dijo en entrevista a Telesur en marzo.

Aún así, cree que el MAS puede ganar fuerza después de la pandemia. “Creo que eso va a caer por su propio peso. Están tomando medidas autoritarias, la población está tomando conciencia social y eso está generando un sentido común de repudio al gobierno de facto de Jeanine Áñez. Y eso va a tener sus consecuencias electorales también, como ya tiene y se puede ver en las encuestas,” concluyó.

Gabriel Villalba: the certainty of a coup d’état in Bolivia

“What the world needs to know is that in Bolivia we don’t live in a democracy,” is one of the things Gabriel Villalba told me when we talked in a rooftop café in La Paz. From up there, there was a tranquillity that looked nothing like the streets we had just crossed to get to that destination.

Lawyer and political analyst, Gabriel is clear about the situation in the country. He has no doubt that Bolivia suffered a coup d’état in October 2019 and he narrates firmly the facts that led to that situation. “The opposition already had in mind when they were going to act. So they created a common sense that the elections would be fraudulent and they didn’t accept Evo Morales’ victory,” he said.

“Evo’s government innocently asked the OAS (Organization of American States) to issue a technical report on the occurrence of fraud and I believe this was a political mistake,” he continued.

The preliminary report issued by the OAS announced fraud in the elections. But it only analysed 0.22 per cent of Bolivia’s voting records, according to Gabriel. “There was already a climate of systematic violence because local electoral courts had been burned, they were frightening social leaders of the Movimiento Al Socialismo (MAS) and we went into a state of social upheaval. Chaotic, no?” he added.

With sadness, he recounts the days of tension on the weeks that followed, when Evo Morales had to resign and Jeanine Áñez took over the office of the country. He mentioned the repression of social protests and the burning of the Whipala flag – which represents the indigenous peoples of Latin America and is adopted as the Plurinational state of Bolivia’s second official flag – as symbols of violence in the new government. 

“It was very disheartening because you realised the difference in social classes. In the protests asking to overthrow Evo Morales’ government, where the children of the high command of the police were, there was no repression.  But in the other marches, of the popular sectors, they had no constraints in repressing us,” Villalba said.

He also commented on the political persecution suffered by him and other fellow political activists. “I had, outside my house, plainclothes policemen and soldiers hanging around in cars. This is how the intelligence force of the military operates as a form of frightening. I had to be out of my house and for a week, moving from house to house of friends because I could not be in the same place. It was too dangerous. Our physical integrity was in danger,” he recalled.

But he can also see something positive in that. “I’m glad that’s happened, too. Do you know why? Because people used to say that with Evo we lived in a dictatorship when it was a democratic government. And now they realize what a dictatorship government is, with the military on the streets and war weapons shooting at civilians. That’s the real coup, isn’t it? And I believe that the young people who finally recognised this will be the hidden vote that will determine the elections,” Gabriel said, referring to the elections that were scheduled for May 3 at the time – and indicated results in favour of the MAS according to opinion polls.

Now, in a more recent commentary on what is happening in the country, which has postponed the elections indefinitely due to the Coronavirus pandemic, Villalba sees Bolivian democracy as even more fragile at the moment. “More than suspending or postponing the elections, they [the government of Áñez] fears this tendency of 40% of the votes to the MAS shown in the latest polls. So Jeanine Áñez is taking measures, taking advantage of the Coronavirus, to reverse this intention to vote,” he told Telesur network in March.

Even so, he believes that the MAS can go back to power after the pandemic. “They [Áñez administration] asked to postpone the elections without consulting the MAS, and I believe this will fall against them. They are taking authoritarian measures and the population is aware of that. They are disapproving Áñez’s de facto government actions and this has consequences on the ballot boxes, as you can see in the polls of intention to vote,” he concluded.

Gabriel Villalba: a certeza de Golpe de Estado na Bolívia

“O que o mundo precisa saber, é que na Bolívia não vivemos em democracia,” é o que me disse Gabriel Villalba enquanto conversamos em um café num terraço no centro de La Paz. Dali de cima, havia uma tranquilidade que nada se parecia com as ruas que tínhamos acabado de cruzar para chegar àquele destino.

Advogado e analista político, Gabriel é claro sobre a situação do país. Não tem dúvidas de que a Bolívia sofreu um golpe de Estado em outubro de 2019  e narra com firmeza os fatos que levaram a tanto. “A oposição já tinha claro o momento em que ia atuar. Então criaram todo um sentido comum de que as eleições seriam fraudulentas e não aceitaram a vitória do Evo Morales,” contou.

 “O governo do Evo pediu inocentemente a OEA (Organização dos Estados Americanos) para fazer um informe técnico sobre a ocorrência de fraude e creio que isso foi um erro político,” continuou.

O informe preliminar emitido pela OEA anunciou fraude nas eleições. Porém só analisou 0,22 por cento dos registros de voto na Bolívia, segundo Gabriel. “Já existia um clima de violência sistemática porque tribunais eleitorais locais tinham sido queimados, estavam amedrontando líderes sociais do Movimento ao Socialismo (MAS) e entramos em estado de convulsão social. Caótico, não?” completou.

Com pesar, ele recontou como foram os dias de tensão que seguiram esse momento, quando Evo Morales teve que renunciar e Jeanine Añez assumiu a presidência do país. Mencionou a repressão aos protestos sociais e a queima da bandeira Whipala – que representa os povos indígenas da América Latina e é adotada como segunda bandeira oficial do Estado Plurinacional da Bolívia – como símbolos de violência do novo governo. 

“Foi muito triste, porque você se dava conta da diferença de classes sociais. Nas marchas que pediram, por 21 dias, para derrubar o governo do Evo Morales e tinham uma condição de classe alta, onde estavam os filhos do próprio alto mando policial, não houve repressão.  Mas nas outras marchas, dos setores populares, não tiveram dúvidas em nos reprimir e isso foi o que mais me causou pena,” declarou Villalba.

E também comentou sobre a perseguição política sofrida por ele e outros companheiros ativistas políticos. “Eu mesmo, fora da minha casa, tinham policiais e militares à paisana rondando em carros. Assim opera a inteligência da polícia, dos militares como uma forma de amedrontar. Eu tive que sair da minha casa e durante uma semana fiquei me mudando de casa em casa de amigos porque não podia estar no mesmo lugar. Era perigoso demais. Nossa integridade física corria perigo”.

Mas também consegue enxergar algo de positivo nisso. “Eu também me alegro que isso tenha acontecido. Sabe porque? Porque todos diziam que com Evo nós vivíamos em ditadura, quando era um governo democrático. E agora se deram conta do que é um governo de ditadura, com militares nas ruas e armamento de guerra disparando contra civis. Esse é o verdadeiro golpe de Estado, não? E creio que os jovens que finalmente reconheceram isso vão ser o voto oculto que determinará um âmbito de apoio,” falou Gabriel, referindo-se as eleições que estavam previstas para o 03 de maio na época – e indicavam resultados favoráveis ao MAS de acordo com pesquisas de opinião.

Agora, em comentário mais recente ao que se passa no país, que adiou as eleições por tempo indeterminado pela pandemia do Coronavírus, Villalba vê a democracia boliviana mais frágil no momento. “Mais que suspender ou postergar as eleições, eles [o governo de Áñez] têm esse medo dessa tendência de 40 por cento dos votos ao Movimento Ao Socialismo, demonstrado nas últimas pesquisas. Então Jeanine Áñez está tomando medidas, aproveitando-se do Coronavírus, para reverter essa intenção de voto,” contou em entrevista a rede Telesur em Março.

Ainda assim, crê que o MAS pode se reerguer pós-pandemia. “Pediram para postergar as eleições sem consultar o MAS e creio que isso vai cair contra eles. Eles estão tomando medidas autoritárias e a população está tomando consciência social de repúdio ao governo de facto de Áñez e isso tem consequências nas urnas, como é possível ver nas pesquisas de intenção de voto,” concluiu.

Bolivia: reflexiones sobre la democracia entre protestas y susurros

En octubre de 2019, Bolivia apareció en los diarios de todo el mundo. Después de cuestionada la legitimidad de su tercera reelección, el entonces presidente Evo Morales fue removido en un movimiento que los libros de historia me habían enseñado sobre lo que es un golpe de Estado. Ejército en la calle, truculencia, represión. Aún así, leí editoriales de vehículos internacionales que decían lo contrario. Y en menos de dos semanas, el tema ya era cosa del pasado. 

No estaba contenta. Sentí que todavía había mucho que decir y nada se decía sobre ese momento de Bolivia. Supe de inmediato que estas historias tenían que estar aquí de alguna manera.

Fui en febrero. Encontré un escenario mucho más complejo de lo que imaginaba. Un país cuya política – como todo el resto de América Latina – estuvo marcada por golpes de Estado, renuncias, asesinatos y violencia desde siempre. Encontré un pueblo que ocupaba las calles y protestaba todos los días, pero que se sentía intimidado y tenía miedo a hablar cuando me acercaba. Todas las conversaciones tenían un aire de secreto, como “hablando de lado y mirando al suelo”, o en lugares “seguros” donde la guardia nacional no podía oírnos.

He escuchado muchas opiniones. Sentí mucha incertidumbre de las personas. Volví con más preguntas que respuestas, como siempre. Pero comparto con ustedes en esta nueva serie de las voces que escuché entre La Paz y Cochabamba. Porque merecen ser escuchadas. Y por que son importantes para cuestionar la dirección de la democracia en América Latina. 

Bolivia: reflections on democracy between protests and whispers

In October 2019, Bolivia made headlines around the world. After questioning the legitimacy of his third re-election, then-President Evo Morales was removed in a movement that the history books had taught me was a coup d’état. Army in the street, truculence, repression. Even so, I read editorials from international vehicles stating the opposite. And in less than two weeks the subject was already past. 

I was not satisfied. I felt that a lot still had to be said and it wasn’t about that moment in Bolivia. I knew that these stories had to be here somehow.

I went in February. I found a much more complex scenario than I ever imagined. I found a country where politics – like the rest of Latin America – was marked by coups d’état, renunciations, murders and violence. I found people who occupied the streets and protested every day, but who felt intimidated and afraid to speak when I approached. All the conversations had an air of secrecy, often kind of “talking on the side and looking at the ground” or in “safe” places where the national guard could not hear us.

I heard a lot of opinions. I noticed a lot of uncertainty. I came back with more questions than answers – as usual. But I share with you in this new series the voices I heard between La Paz and Cochabamba. Because they deserve to be heard. Because they are important to reflect on the direction of democracy in Latin America. 

Bolívia: reflexões sobre democracia entre protestos e cochichos

Em outubro de 2019, a Bolívia foi alvo das manchetes do mundo. Após questionamentos sobre a legitimidade de sua terceira reeleição, o então presidente Evo Morales foi retirado num movimento que os livros de história tinham me ensinado ser golpe de Estado. Exército na rua, truculência, repressão. Ainda assim, li editoriais de veículos internacionais afirmando o contrário. E em menos de duas semanas o tema já era assunto passado. 

Não me contentei. Senti que muito ainda tinha que ser dito e não estava sendo sobre aquele momento da Bolívia. Soube de pronto que essas histórias tinham que estar aqui de alguma forma.

Fui em fevereiro. Encontrei um cenário muito mais complexo do que imaginava. Um país cuja a política  – assim como o resto da América Latina – foi marcada por golpes de Estado, renúncias, assassinatos e violência desde sempre. Encontrei um povo que ocupava as ruas e todo dia protestava, mas que ao mesmo se sentia acuado e com medo de falar quando eu me aproximava. Todas as conversas tinham um ar de segredo, muitas vezes meio “falando de lado e olhando pro chão” ou em lugares “seguros”, onde a guarda nacional não pudesse nos ouvir.

Ouvi muitas opiniões. Percebi muita incerteza. Voltei com mais perguntas que respostas – como de costume. Mas divido com vocês nessa nova série as vozes que escutei entre La Paz e Cochabamba. Porque elas merecem ser ouvidas. Porque elas são importantes questionar os rumos da democracia na América Latina. 

Las llamadas a mi abuela (y la certeza de que ella habla mi idioma)

Vengo llamando a mi abuela más frecuentemente. Por alguna razón que no puedo explicar, nunca lo hice mucho.

Siempre ha vivido lejos. Pero nunca llamé. 

Tal vez porque algo en mí siempre alimentó la esperanza de que al final del año nos veríamos. Y luego podría darle los abrazos más fuertes y acostarme en su pierna para recibir un cariño.

Tal vez nunca llamé porque mis recuerdos con mi abuela siempre pasaron por esos afectos. Y de manera tonta, no llamarla era para mí una cierta garantía de que tendría que volver a verla para intercambiar estos afectos.

Hoy siento que he perdido el privilegio de querer limitar nuestros contactos a lo físico. Sólo por un deseo de querer que nuestros encuentros tengan siempre la misma calidez que la primera vez que volé a Recife y me recibió en la puerta del coche que llegaba del aeropuerto. 

Recuerdo que nunca me sentí tan aliviada en la vida al saber que, como yo, ella también hablaba portugués, incluso viviendo en lo que a mí me parecía tan lejano – a mis ojos de niña la distancia São Paulo-Recife era la más grande que existía. Mi abuela siempre fue esto para mí. La calidez de saber que incluso lejos de casa alguien siempre hablara mi idioma. 

Y duele. Duele perder el consuelo de querer que las cosas sean siempre iguales. Más aún cuando se trata de un cariño de abuela.

Ayer, eché de menos tocar su carita, sobre todo cuando se acercó a pantalla y pude ver sus marcas de expresión. Recordé un pasado no tan lejano pero que parece una eternidad atrás, en la que podía apretar su cara y decir “abuelita” cada mañana la última vez que vino a visitarnos. 

Podía oler su apartamento en Olinda mientras empacaba la cama y me hablaba. Un olor que sólo tiene su casa y que no puedo describir en absoluto, excepto como “el olor de la casa de mi abuela”. Me preguntaba si algún día volvería a oler ese lugar o si sólo quedaría el recuerdo.  

Pensé que como inmigrante durante los últimos 4 años, ya había dominado el arte de romper distancias por medio de la presencia virtual – y así este momento de caos sería más fácil. 

Gran ilusión. 

Ver a mi abuela en la pantalla del móvil es tan reconfortante como angustiante. Es la prueba de que el futuro es incierto. Y esta incertidumbre es siempre difícil de manejar. 

Pero también hay belleza en estos encuentros virtuales con mi abuela de los que siempre me he privado por el puro apego a los viejos recuerdos. 

Como ella nos visita en São Paulo desde hace algunos años, rara vez tengo la oportunidad de estar con ella en su casa. Y me gusta tanto, tanto estar en su casa.

Siempre está más radiante en casa. Ella da una pequeña sonrisa que casi nunca aparece en São Paulo, donde está constantemente tratando de entender el “dónde” y el “por qué” de las cosas. Me gusta verla sustituir el “De donde yo vengo no hay tal cosa, no” con una cara cerrada de la que habla en Sao Paulo con “Amo a mi Olinda” con ojos felices que repite en su ciudad.

También me encanta que mi abuela tenga exactamente la misma costumbre que yo de colgar fotos en la pared. Y cuando llamo, ella se empeña en mostrármelas. “Mira lo hermosa que te ves en esa”. “Aquí está la pequeña de mamá”, dice, señalando a la foto de mi mamá con la voz de quien está hablando de su bebé. 

En la sala, tiene una foto de mi abuelo, que murió en 2006, e insiste en decir “Tu abuelo, qué hermoso” en un tono apasionado y con los ojos brillantes cuando pasa junto a él. Y creo que no hay nada más bello que este amor que aún alimenta por mi abuelo después de casi 70 años de matrimonio.

Mi abuela también me muestra el mar desde su balcón. Y así, al menos, tengo la oportunidad de ver el océano sin salir de casa. Hay algo en ver el mar que me hace sentir más cerca de ella. Tal vez porque sé que aunque no puedo verlo desde mi ventana, un poco de océano también está a unos metros de distancia de mi casa. Y que sólo compartimos eso porque estamos en lados opuestos del mundo, porque São Paulo no tiene playa.

Los tiempos son duros pero, al final, mi abuela todavía habla mi idioma. No importa lo lejos que esté. Y eso no cambia.

The calls to my grandmother (and the certainty that she speaks my language)

I’ve been calling my grandma more often. 

She’s always lived far away. But I never called. 

Maybe because something in me always fed the hope that at the end of the year we’d see each other. And then I could give her the tightest hugs and lay my head on her lap while she stroked my hair. 

Maybe I never called because my memories with my grandmother were always related to those affections. And in a silly way, not calling her was for me a certain guarantee that I would have to meet her again to exchange those affections.

Today, I feel I’ve lost the privilege of wanting to limit our connection to the physical. Just because I wanted our meetings to always have the same warmth as the first time I flew to Recife and she welcomed me at the car door when we arrived from the airport. 

I remember I never felt so relieved in life when I realised that, just like me, she also spoke Portuguese, even living in what to me seemed so far away – at the time there was no greater distance for me than São Paulo-Recife. This is what my grandmother always meant to me. The comfort of knowing that even far from home someone will always speak my language. 

And it hurts. It hurts to lose that privilege of wanting things to always stay the same. Even more so when they involve grandma and childhood memories.

Yesterday, I missed touching her little face when she approached the screen and I could see her wrinkles. I could smell her apartment in Olinda as she made up the bed and talked to me. A smell that only her house has and that I can only describe as “the smell of my grandma’s house”. I wondered if one day I would ever smell that place again or if I would be left with the memory of it.  

I thought that as an immigrant for the last 4 years, I had already mastered the art of breaking distances by virtual presence – and so this moment of chaos would be easier. 

Great illusion. 

To see my grandmother on the screen is as comforting as it is distressing. It’s proof that the future is uncertain. And this uncertainty is always hard to deal with. 

But there is also beauty in these virtual meetings with my grandmother that I may have always been deprived of by pure attachment to old memories. 

As she has been visiting us in São Paulo for some years now, I rarely have the opportunity to be with her in her house. And I like it so much to be at her house.

She is always more radiant at home. She gives a little smile that almost never appears in São Paulo, where she is constantly trying to understand the “where” and the “why” of things. I like to see her replace the “Where I come from there’s no such thing, no” with a moody face that she says a lot in SP with “I love my Olinda” with happy eyes that she repeats in her city.

I also love that my grandma has exactly the same habit I have of hanging pictures on the wall. And whenever I call she insists on showing them to me. “Look how beautiful you look in that one.” “Here’s mommy’s little girl,” she says, pointing to my mum’s picture.

In the living room, she has a painting of my grandfather, who died in 2006, and she insists on saying “Your grandfather, what a handsome man” in a passionate tone and shining eyes when she walks past. And I think there is nothing more beautiful than this love that she still nurtures for him after almost 70 years of marriage.

My grandmother also shows me the sea from her balcony. It’s an opportunity I have to see the ocean without leaving home. There is something about seeing the sea that makes me feel closer to her. Maybe because I know that although I can’t see it from my window, a little bit of ocean is also a short walk away from here.

Times are hard but, in the end, my grandmother still speaks my language. No matter how far away she is. And that doesn’t change.