Nina: a re-encounter in Brazil after 10 Christmases in Australia

“For me, Christmas means family. Honestly, I don’t see Christmas as a super special date but it is a time to reunite with the family. I’m from a really small town, so all my brothers and sisters moved out to study and work and Christmas was real time of reunion. This is my recollection. My greatest happiness is being with my family” says Nina, who after 10 years living in Australia decided to return to spend Christmas in Brazil for the first time. 

For her, the decision to leave one of the best country dealing with the pandemic to return to one of the worst country facing the pandemic in the world, was not an easy choice.

“In the beginning I had the feeling of ‘am I doing the right thing? I left a super safe place, where the pandemic was already returning to ‘normal’ to come to a place where we can’t leave home or do anything…Being here, so close to friends, but not being able to visit them it’s hard,” she says.

However, being with the family is still the most important thing. “It’s worth spending more time with my family, though. I feel reconnected with them,” Nina says. 

“We were lucky because my sister is also working from home. She lives in São Paulo and also came to my city. And my brother is also back to my mum’s house, so it ended up everyone in the same house. It’s going to be a Christmas that we’ll be able to reunite all the siblings and my mother,” she says.

Photo: Nina’s archive

Due to the pandemic, Nina had to ask the Australian government for permission to leave the country and will need to stay in Brazil for a few months, which allows her to enjoy daily life in her hometown. “We can’t really say that there is a good thing in the pandemic, because there isn’t. But to spend all this time at home, I am really enjoying my family. I feel that I am getting to know my siblings, my mother, my father… and I am really participating in their daily lives,” Nina says. 

She still talks about what it is like to come back after so long and relive the times of adolescence when all the siblings lived in the same house. “Look, it’s really going back to the old days. I’m sharing a room with my sister, which was a situation that I thought would never happen again and we have those sister things, you know? So it’s not that visiting thing, that everybody’s is just nice with everybody. We do house chores, divide responsibilities…it reminds me of my teenage years, so for me it’s being good”.

Photo: Nina’s archive

Finally, she stresses the importance of reconnecting with the ones she loves this year. “It’s very important to spend this time here, especially because I’ve been away for so long. I’m not someone who talks on the phone or video calls often. I’m very shy, so I think we end up losing contact a bit. For me, physical contact is what works best. So being here to stay 3 to 4 months and spend Christmas, which is usually the time that we bring everyone together, that, for me, is the most special of all,” she concludes.

Nina: um reencontro no Brasil depois de 10 Natais na Austrália

“Pra mim, Natal significa família. Sinceramente, eu não tenho o Natal como uma data super especial mas é um momento de reunir a família. Eu sou de uma cidade super do interior, então todos os meus irmãos saíram pra estudar e trabalhar e era realmente uma época de reencontro. Essa que era a minha lembrança. Minha maior felicidade é estar com a família,” conta Nina, que depois de 10 anos morando na Austrália, decidiu voltar para passar o Natal no Brasil pela primeira vez este ano. 

Para ela, a decisão de deixar um dos países que melhor está lidando com a pandemia no mundo para regressar para um que pior está enfrentando a situação não foi escolha fácil. 

“No começo dá aquela sensação de ‘será que eu to fazendo a coisa certa? Saí de um lugar super seguro, onde a pandemia já tava voltando ao ‘normal’ para vir para um lugar que a gente não podia sair de casa ou fazer nada…Então estar aqui perto dos amigos mas sem poder visitar os amigos, sem poder ir naquele boteco que eu morro de saudade, que faz 10 anos que eu não vou…é difícil.” 

Porém estar com a família ainda é o mais importante. “Mas, ta valendo muito a pena estar passando mais tempo com a minha família, to me sentindo bem reconectada com eles,” comenta Nina. “A gente deu um tanto de sorte, a minha irmã também tá trabalhando de casa. Ela mora em São Paulo e também veio pra minha cidade. E o meu irmão também voltou pra casa da minha mãe, então acabou que tá todo mundo na mesma casa. Vai ser um natal que a gente vai conseguir reunir os meus irmãos e a minha mãe,” conta.

Acervo Nina

Por ser uma situação de pandemia, Nina precisou pedir uma permissão do governo para sair da Austrália e vai precisar ficar no Brasil por alguns meses, o que a permite aproveitar o cotidiano na sua cidade natal.  “A gente realmente não pode falar que existe uma coisa boa na pandemia, porque não tem. Mas passar esse tempo todo em casa, eu to aproveitando muito a minha família. To sentindo que to conhecendo de novo meus irmaõs, minha mãe, meu pai… e to participando realmente do dia a dia”, declara Nina. 

Ela ainda fala sobre como é voltar depois de tanto tempo e reviver os tempos de adolescência em que todos os irmãos viviam na mesma casa. “Olha, é voltar mesmo aos velhos tempos. Eu to dividindo o quarto com a minha irmã, que foi uma situação que eu achei que nunca fosse passar de novo e a gente tem aquelas coisas de irmã, sabe? Então não é aquela coisa de estar visitando, que todo mundo é bonzinho com todo mundo, que é só saudade. Tem que revezar pra arrumar a casa, pra cozinhar…enfim, tá me lembrando o meu tempo de adolescente, então pra mim tá sendo muito legal.”

Acervo: Nina

Por fim, ela ressalta a importância de se reconectar com quem ama nesse ano. “É muito importante passar esse tempo aqui, principalmente por estar há tanto tempo fora. Eu não sou uma pessoa de ficar falando no telefone ou ficar fazendo vídeo. Eu sou muito tímida, então acho que a gente acaba perdendo um pouco do contato. Pra mim, o contato físico é o que melhor funciona. Então estar aqui para ficar 3 a 4 meses e passar o Natal, que normalmente é a época que a gente juntava todo mundo, isso, pra mim, tá sendo o mais especial de tudo,” conclui.

100 mil mortes por Covid: os corpos que pulamos no caminho e o nosso futuro que é passado

Cem Mil. 100.000. C E M M I L. 

A notícia me chega as 2 da manhã no meio de uma insônia repentina. Me atravessa o peito que já previa a desgraça. E mesmo assim me dói como facada apunhalada pelas costas. 

Quando foi que o horror tornou-se rotina? Será que foi naquele momento da votação do impeachment em 2016 em que um deputado declarou seu voto em nome do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, “o terror de Dilma Rousseff” e saiu completamente impune dessa? Ou foi dois anos mais tarde quando esse mesmo homem foi eleito presidente do Brasil?

Será que o horror se instalou no dia em que balas estouraram na cabeça de uma vereadora eleita porque a sua existência na política como mulher negra, de favela, LGBT, incomodava demais? E se perpetuou na falta de resposta que ainda nos resta sobre quem mandou matar Marielle Franco? 

Ou talvez ainda a bárbarie do nosso país tenha começado no momento em que chegou a primeira esquadra portuguesa, que o sangue do primeiro indígena foi derramado e que foi decidido que o nome da nossa terra seria “Brasil”?

Ou será que o mais profundo absurdo se institucionalizou de vez quando desembarcou o primeiro navio negreiro em Salvador? Fazendo com que pelos próximos 400 anos a violação dos corpos negros tenha sido norma? E ainda permitindo que em 2020 entregadores chamados Matheus tenham que ouvir “você tem inveja disso aqui” de um branco que se acha senhor de engenho?

Talvez para um país fundado em genocídio e massacre – e que insiste em negar sua história de genocídio e massacre – a valorização da vida fique mesmo sempre pra segundo plano. E de nada surpreenda essa marca horrorosa dos 100 mil mortos por Covid – que poderia ter sido evitada com uma política pública responsável de isolamento social. Mas se tem uma coisa que a nossa “mãe gentil” sabe fazer bem é matar os nossos desde que somos nação.

Mas não dá pra ser assim. 

Não dá mais. 

Enquanto for assim, a gente continua em retrocedendo e desamparado. Nosso “progresso” anda ao contrário porque insistimos em pular os corpos que a história deixou em nosso caminho ao invés de dar-lhes o devido respeito e viver seu devido luto.

Cem mil dói porque logo serão 200 mil. 500 mil. 1 Milhão. Quem sabe? E não, não dá para “tocar a vida”. Porque cada morte que a gente não chora é um passo que a gente dá para o nosso futuro ter mais cara de passado. Cada vida que a gente insiste em silenciar – especialmente as de pretos, indígenas, mulheres e LGBTQI+ – é se colocar na ponta do abismo. 

Não, eu não vou “tocar a vida”. Eu sigo enlutada e me recuso a esquecer as nossas tragédias. Que é pra poder sonhar com um país onde a vida valha mais fora do caixão.

Las llamadas que he dejado de hacer a mi mamá

Si antes mencioné las llamadas que he empezado a hacer a mi abuela desde el principio de la cuarentena, hoy quiero hablar de las llamadas que he dejado de hacer a mi mamá – por las llamadas que hace a otros. 

Calma, lo explicaré. 

Mi madre es doctora. Paliativista. Trabaja en un hospital público en São Paulo. Y durante esta pandemia, se le fue dada la misión de llamar a las familias de los pacientes que están en la UCI por Covid-19 para dar noticias diarias de cómo están sus seres queridos. Y para mí es increíble la capacidad que ella tiene de ser puente para los afectos entre el mundo de “aquí dentro” y “afuera” en estos tiempos de confinamiento.

Decidí hablar de algo tan personal como la relación con mi mamá aquí porque mucho de lo que es este proyecto y la propuesta de mirar a América Latina con atención y afecto viene de observar la mirada atenta y cariñosa de mi madre a su trabajo. Y en estos tiempos en que el presidente de Brasil tiene la cobardía de decir “¿y qué?” delante del número de muertos por Covid-19 en el país, es el cuidado y la atención que ella dedica a los demás lo que me ha servido de refugio.

Nos hablamos menos – o quizás esa es mi impresión ahora que el tiempo ya no hace tanto sentido. Cuando llamo por la mañana, está lista para ir a trabajar. “Hola querida, tengo que hablar rápido porque tengo que estar pronto en el hospital.” Y por la noche, veo que está agotada. Su fisonomía ha cambiado. Su voz ha cambiado. Es casi como si pudiera ver el peso del mundo que lleva a la espalda. 

Aun así, en los espacios que encontramos para hablar, me cuenta las historias que escucha y vive todos los días. Creo que de ahí viene mi necesidad de contar historias todo el tiempo, la he heredado de ella. Se preocupa de mencionar todos los nombres, edades, profesiones y particularidades de la familia de los pacientes que acompaña. Porque sabe lo importante que es preocuparse. Porque sabe que nadie merece un “¿y qué?”. Porque sabe que nadie es sólo un número para las estadísticas.

Por eso, cada alta es una tremenda victoria y cada muerte es una dolorosa pérdida – para ella, para el personal del hospital, para la familia del paciente y para mí. Porque últimamente nuestra vida se ha entrelazado con las historias que vive en el hospital. “Es imposible no involucrarse, ¿no?,” comenta.

En las últimas semanas escuché la historia de una empleada del hospital que “tuvo la peor tomografía que he visto en mi vida” que se recuperó y pudo volver a casa para reunirse con sus hijos de 8 y 5 años.  “Su marido me dijo: ‘Cuánto he sufrido por esta mujer, doctora, no puede volver a dejarme'”, dice mi madre con una emoción que sólo pueden tener los que se dedican al cuidado real. 

También escuché la historia de un paciente que falleció al día siguiente, debido a un descuido en el sistema, mi madre no tuvo acceso a los registros médicos y no pudo actualizar a su familia. “Me sentí tan triste, porque no pude decirle a la familia cómo estaba en el último día de su vida”, comenta mi madre. 

“Pero llamé más tarde para ver cómo estaban y la hija me dijo: ‘Me aseguraré de ir a abrazarte cuando todo esto termine'”, añade. Y sé que son esos pequeños gestos los que la motivan cada día.

Me gusta cómo se fija en la delicadeza de la vida y siempre trata de hablar de las cosas buenas que suceden en esta sofocante realidad que es el Brasil de Bolsonaro. Esta semana mi madre me contó sobre las empanadas que le regaló un paciente argentino que fue dado de alta. También me envió un video de la hija de un paciente agradeciéndole su atención y afecto en estos momentos. 

Desde aquí, respiro un poco más aliviada al saber que la atención que da, también vuelve a ella de alguna manera. Y que en medio de este caos, no le falta afecto – aunque no se permiten los abrazos, ni los besos. 

Si hablar con mi abuela es asegurarse de que el futuro es incierto, hablar con mi madre es asegurarse de que el presente es duro – pero que mantener la dulzura en tiempos de odio es también una forma de resistencia.  

“No estamos en guerra. Esta es una crisis humanitaria, llamada pandemia. Nuestra misión es cuidar”, concluye con la certeza de que el afecto es siempre la mejor arma.

The calls I’ve stopped making to my mum

If before I wrote about the calls I’ve started making to my grandma since the beginning of the isolation, today I want to talk about the calls I’ve stopped making to my mum – because of the calls she has been giving to others. 

Hold on, I’ll explain. 

My mother is a doctor. Palliativist. She works in a public hospital in São Paulo. And during this pandemic, she was given the mission to call the families of patients in the ICU by Covid-19 to give them daily updates of how their loved ones are doing. And I think it’s incredible the way my mum manages to be a “bridge” for the affections between the “inside” and “outside” world in these isolation times.

I decided to talk about something as personal as my relationship with my mum here because much of what this project is and the idea to look at Latin America with attention and affection comes from watching my mother’s attentive and affectionate approach to her work. And in these times when the Brazilian president cowardly says “so what?” about the numbers of deaths by coronavirus in the country, it is the care and attention that she dedicates to others that are serving me as a refuge. 

My mum and I are not speaking as often as we used to – or maybe that is my impression since time does not make so much sense anymore. When I call in the morning, she’s ready to go to work. “Hi sweetie, I have to chat quickly because I have to be in the hospital soon.” And at night, I see she’s exhausted. Her physiognomy has changed. Her voice has changed. It’s almost as if I can see the weight of the world she’s carrying on her back. 

Still, in the gaps we find to talk to each other, she tells me the stories she hears and lives every day. I think this need I have to tell stories all the time, I inherited from her. She insists on mentioning all the names, ages, professions and particularities of the family of each patient she’s looking after. Because she knows how important it is to care. Because she knows that no one deserves a “so what?” Because she knows that no one is just a number in the statistics.

Because of that, every discharge is a tremendous victory and every death is a painful loss – for her, for her work team, for the patient’s family and for me. Because lately, our lives have been intertwined with the stories she lives in the hospital. “It’s impossible not to get involved, isn’t it?” she says. 

In the last few weeks, I heard the story of a hospital employee who “had the worst CT scan I’ve ever seen in my life” who recovered and could go home to meet again with her 8- and 5-year-old kids. “Her husband told me, ‘What I have suffered for this woman, doctor, she can never leave me again,'” my mother says with emotion that only those who are dedicated to real care can show. 

I also heard the story of a patient who passed away the day after, due to a flaw in the system, my mother was denied access to his medical records and could not update his family. “I was so sad because I couldn’t tell the family how he was on the last day of his life,” says my mum. 

“But I called later to see how they were doing and the daughter told me ‘I’ll make sure to give you a hug when all this is over,'” she adds. And I know it’s those little gestures that motivate her every day.

I like how she always sees beauty in the little things and tries to talk about something nice that happened in her week despite Brazil’s suffocating reality at the moment. This week my mother told me about the empanadas she got as a gift from an Argentinian patient who was discharged. She also sent me a video of a patient’s daughter thanking her for the attention and affection she’s giving to the family. 

From here, I breathe a little bit more relieved to know that the care she gives, also returns to her somehow. And that in the midst of this chaos, she has no lack of affection – even though hugs and kisses are not allowed. 

If talking to my grandma is a reminder that the future is uncertain, talking to my mum is a reminder that the present is tough – but kindness in times of hatred is also a form of resistance.  

“We are not in a war. This is a humanitarian crisis, called a pandemic. Our mission is to take care,” she concludes with the certainty that affection is always the best weapon.

As ligações que parei de fazer para a minha mãe

Se antes eu comentei sobre as ligações que comecei a fazer para a minha avó desde o início da quarentena, hoje eu quero contar sobre as ligações que eu tenho deixado de fazer para a minha mãe – por causa das ligações que ela tem feito para os outros. 

Calma, eu explico. 

A minha mãe é médica. Paliativista. Trabalha em um hospital público de São Paulo. E durante essa pandemia, ela ficou com a missão de ligar para as famílias dos pacientes que estão na UTI por Covid-19 para dar notícias diárias de como eles estão. E eu acho incrível como ela consegue ser ponte para os afetos entre o mundo de “aqui dentro” e “lá fora” nesses tempos de isolamento.

Resolvi falar de algo tão pessoal quanto a minha relação com a minha mãe aqui porque muito do que é esse projeto e a proposta de olhar para a América Latina com atenção e carinho vem de observar o olhar atento e carinhoso da minha mãe com o trabalho dela. E nesses tempos em que o presidente tem a covardia de dizer “e daí?”, é o cuidado e atenção que ela dedica aos outros que tem me servido de refúgio. 

Temos nos falado menos – ou talvez essa seja a minha impressão já que o tempo não faz mais tanto sentido. Quando eu ligo de manhã, ela já está pronta para ir trabalhar. “Oi nega, tenho que falar rapidinho porque daqui a pouco eu tenho que estar no hospital.” E de noite, eu vejo que ela está exausta. A fisionomia dela mudou. A voz dela mudou. É quase como se eu pudesse ver o peso do mundo que ela tem carregado nas costas. 

Ainda assim, nas brechas que encontramos para conversar, ela me conta as histórias que tem ouvido e vivido todos os dias. Acho que essa minha necessidade de transformar tudo em narrativa eu herdei dela, inclusive. Ela faz questão de mencionar todos os nomes, idades, profissões e particularidades da família de cada paciente que tem acompanhado. Porque ela sabe da importância de se importar. Porque sabe que ninguém merece um “e daí?” Porque sabe que ninguém é só número para estatística.

Por causa disso, cada alta é uma vitória tremenda e cada morte é uma perda doída – para ela, para a equipe do hospital, para a família do paciente e para mim. Porque ultimamente a nossa vida tem sido um entrelaçado das histórias que ela vive no hospital. “Não tem como não se envolver, né?” ela comenta. Não, não tem. 

Nas últimas semanas eu ouvi a história de uma funcionária do hospital que “tinha a pior tomografia que eu já vi na vida” que se recuperou e pode voltar para casa para rever os filhos de 8 e 5 anos de idade. “O marido dela me falava, ‘o quanto eu já sofri por essa mulher, doutora, ela nunca mais pode me deixar’,” fala a minha mãe com uma emoção que só quem se dedica ao cuidado de verdade pode ter. 

Também ouvi a história de um paciente que faleceu um dia depois de, por um descuido no sistema, a minha mãe não ter tido acesso ao prontuário e não poder atualizar a família. “Eu fiquei tão triste, porque não consegui falar pra família como ele estava no último dia de vida,” comenta a minha mãe. 

“Mas eu liguei depois para ver como eles estavam e a filha me disse ‘faço questão de ir te abraçar quando tudo isso passar’,” acrescenta. E eu sei que são esses pequenos gestos que movem ela todos os dias.

Eu gosto de como ela se atenta ao delicado da vida e sempre procura falar do que aconteceu de bom nesse cotidiano sufocante que é o Brasil de Bolsonaro. Essa semana a minha mãe me contou das empanadas que ganhou de presente de um paciente argentino que recebeu alta. Também me enviou um video da filha de uma paciente agradecendo a ela pela atenção e carinho nesses tempos. 

Daqui, eu respiro um pouco mais aliviada por saber que o cuidado que ela dá, também volta para ela de alguma forma. E que no meio desse caos, afetos não lhe faltam – ainda que abraços, beijos e toques não estejam permitidos. 

Se falar com a minha avó é ter a certeza de que o futuro é incerto, falar com a minha mãe é ter certeza que o presente é duro – mas que manter a doçura em tempos de ódio é também uma forma de resistência.  

“Não estamos em uma guerra. Isso é uma crise humanitária, chamada pandemia. Nossa missão é cuidar,” ela finaliza com a certeza de que afeto é sempre a melhor arma.

Daniella Reina: “Cuando decides migrar definitivamente, tienes que cerrar todas tus puertas”

“Me quiero ir de Australia. Creo que antes que todo esto pasara, uno veía a Australia como un país de oportunidades y yo veía como ‘sí, me puedo quedar’. Mi pareja es de Estados Unidos, entonces siempre tuvimos la discusión de cuando me graduara si nos quedamos aquí o nos vamos a Estados Unidos. Pero eso ya me dio la idea de que yo me quiero ir, no quiero seguir acá porque siento que no hay futuro en la parte económica. Quiero terminar lo que empecé aquí e irme,” comenta la venezolana Daniella Reina, reprimiendo las lágrimas.

Estudiante de ingeniería, Daniella se mudó a Australia hace casi dos años para poder terminar la universidad después de tener problemas para terminar su carrera en Venezuela debido a la crisis humanitaria del país. Pero en medio de la pandemia, ahora cuestiona si la inversión vale la pena. Con las clases online en un curso que requiere práctica, siente que no está aprendiendo lo que se necesita. 

“Como no estoy en mi casa, no tengo las herramientas necesarias para estudiar aquí. Necesito programas especiales para ingeniería y mi computadora acá, con el programa, se pone loca. Y parte de las herramientas que tu aprendes es por los laboratorios porque tu ves el proceso. Creo que en la ingeniería, son procesos muy abstractos y la única manera que tu lo veas es el físico. Entonces siento que por lo menos los laboratorios, tu deberías tener la opción de poder hacer en el próximo semestre,” explica, intentando encontrar una solución al problema.

Para ella, mantener el foco en los estudios durante la cuarentena ha sido otro obstáculo. “Ver la casa como sitio de trabajo, sitio de estudio me ha costado mucho. Sabes la gente que puede estudiar en casa? Hay gente que escucho ‘ay, yo termino eso en casa, yo hago esa tarea en casa’ y yo no. Yo necesito terminar en la universidad y ya no puedo hacer eso. Es frustrante. Demoro más para hacer las cosas. Me siento como lenta, es decir, no focada. Como viendo pajaritos en el aire,” cuenta con la tristeza de aquellos que han perdido su casa como lugar de descanso.

Foto cedida por Daniella Reina

Y añade sobre el desafío adicional de tener que manejar el segundo idioma en clases no presenciales. “Como estudiante internacional, obviamente que el inglés es tu segunda lengua y es mucho más fácil para comunicarte en persona porque puedes explicar lo que quieres. En cambio, cuando estás detrás de una cámara o un email, a veces decir lo que quieres decir es mucho más difícil”, dice. 

“No estoy recibiendo la educación que recibía antes y no estoy aprendiendo como antes. La verdad es que aprendo, pero no por las clases. Al final, yo no estoy recibiendo la educación que estoy pagando,” habla, con la frustración de aquellos que han cruzado un océano para estar donde están y no sienten que están logrando aprovechar al máximo la oportunidad.

Daniella también comenta la situación de ser inmigrante en este momento. “Creo que es mucho más difícil porque uno no recibe ninguna ayuda del gobierno. Y al final, estás solo. Tienes que luchar para mantener lo que tienes y no hay opción B de ‘me quedo con un familiar o un amigo’. Porque a veces al inmigrante le cuesta demasiado tener ese amigo que ‘ay, me quedo en tu casa’ o algo así.”

En cuanto a su familia, Daniella se siente más tranquila y dice que el hecho de ser migrante ya ha traído la costumbre de verlos de lejos: “Bueno, es lo mismo, no? Los veo desde lejos hace tanto tiempo que no hay mucha diferencia. Creo que separé de mi gemela cuando tenía 18 años, ahora tengo 25. Es costumbre, no me da en ese aspecto,” explica con la experiencia de aquellos que han conocido situaciones de crisis durante muchos años.

“Si estuviera en Venezuela, iría todos los domingos a la casa de mi abuela. Entonces eso sí, me pegaría, pero ahorita no visito a mi abuela, entonces ok. No hay nada diferente en mis domingos,” añade.

Hoy en día, con todos sus familiares viviendo en Europa, Venezuela es algo que ha quedado atrás. “No tengo nada de contacto con Venezuela ahorita. Creo que cuando decides migrar y irse definitivamente, tienes que realmente, para sentirte mejor contigo mismo, cerrar todas tus puertas. Porque este recuerdo de ‘ah, si estuviera haciendo eso en Venezuela’, como que pensar mucho en el pasado, no te deja seguir adelante. Este es mi punto de vista,” dice Daniella.

Cuando le pregunto qué la hace sentirse en casa ahora, me habla de su futuro marido. “Creo mi novio ahorita, estamos juntos y nos vamos a casar… creo que mi novio me hace que me sienta en casa,” concluye con una sonrisa.

Daniella Reina: “When you decide to migrate for good, you have to close all your doors”

“I want to leave Australia. I think that before all this happened, I used to see Australia as a country of opportunity and I saw it as ‘yes, I can stay’. My partner is from the United States, so we always had the discussion of, when I graduated, would we stay here or go to the United States. But now I want to leave, I don’t want to stay here because I feel that there is no future, economically speaking. I want to finish what I started here and leave,” says the Venezuelan Daniella Reina, holding back her tears.

An engineering student, Daniella moved to Australia nearly two years ago so she could finish university after facing problems completing her degree in Venezuela due to the country’s humanitarian crisis. But in the midst of the pandemic, she now questions if the investment is worth it. With classes being held online in a course that requires practice, she feels she is not learning enough. 

“Since I’m not at home, I don’t have the tools to study here. I need special programs for engineering and my computer goes crazy with the program. And also part of what you learn is from the labs because you see the process. In engineering, many processes are abstract and the only way to see it is the physical. Now the labs are nothing, so I think at least we should have the option to watch it next semester,” she says, trying to give a solution to the problem. 

For her, keeping the focus on studies at home is another obstacle. “It took a long time for me to see my home as a place to study or work. You know those people who say they can study at home? I’m not one of them. I need to finish my assignments at uni and I can’t do that anymore. It’s frustrating, I take a lot longer to do things. I feel slow, unfocused, like seeing birds in the sky,” she says with the sadness of those who lost the comfort of having their home as a place for rest. 

Photo credit: Daniella Reina

She also talks about the additional challenge of having to deal with a second language in non-presential classes. “As an international student, English is my second language and it is much easier to communicate in person because you can explain what you want. When you’re behind a camera or an email, sometimes saying what you want is much harder,” she says. 

“So I’m not getting the education I was getting before and I’m not learning like before. The truth is that I learn, but not from classes. In the end, I’m not getting the education I’m paying for,” she says with the frustration of those who crossed an ocean to be where they are but don’t feel they are living the experience to the most.

Daniella also comments on the situation of being an immigrant during this time. “I think it’s much harder because you don’t get any help from the government. And, in the end, you’re alone. You have to fight to keep what you have and there’s no option B of staying with a relative or a friend. Because sometimes for an immigrant it’s very difficult to have that friend that you can say, ‘Oh, can I stay at your house?’ or something.”

As for her family, she feels more at ease. She says that being a migrant helped her to get through this situation better. “Well, it’s still the same thing, isn’t it? I’ve been seeing them from afar for so long that it doesn’t make much difference. I got separated from my twin sister when I was 18, now I’m 25. It’s part of my life, so it doesn’t affect me in that respect,” she explains with the expertise of those who have been dealing with crisis situations for too long. 

“If I was in Venezuela, I would go every Sunday to my grandmother’s house. So yes, it would impact me, but now I don’t visit my grandmother anymore, so it’s okay. There’s nothing different about my Sundays,” she adds.

Today, with all her family living in Europe, Venezuela is something that is left behind. “I have no contact with Venezuela now. I think that when you decide to migrate for good, to feel better about yourself, you have to close all your doors. Because those memories of ‘ah, if I was in Venezuela, I would be doing this,’ that thinking too much about the past, it doesn’t let you move forward from my point of view,” Daniella says.

When I ask her what makes her feel at home now, she tells me about her future husband. “I think it’s my boyfriend now, we’re together and we’re getting married…so I think he makes me feel at home,” she concludes with a smiley face.

Daniella Reina: “Quando você decide migrar definitivamente, você tem que fechar todas as suas portas”

“Eu quero ir embora da Austrália. Eu acho que antes de tudo isso acontecer, eu via a Austrália como um país de oportunidades e via como ‘sim, eu posso ficar’. Meu namorado é americano e a gente sempre teve essa discussão se a gente ia ficar aqui ou ir pros Estados Unidos quando eu me graduasse. Mas agora eu tenho a ideia de que eu quero ir, não quero ficar aqui porque sinto que não há futuro na parte econômica. Eu quero terminar o que eu comecei aqui e ir embora,” desabafa a venezuelana, Daniella Reina, segurando as lágrimas. 

Estudante de engenharia, Daniella mudou-se para a Austrália há quase dois anos para poder terminar a universidade depois de enfrentar problemas para completar o curso na Venezuela, devido à crise humanitária do país. Porém, em meio à pandemia, ela agora questiona se o investimento está valendo a pena. Com as aulas online em um curso que exige prática, ela sente que não está aprendendo o necessário. 

“Como eu não estou na minha casa, eu não tenho as ferramentas necessárias para estudar aqui. Eu preciso de programas especiais para engenharia e o meu computador fica louco com o programa. E também, parte das ferramentas que você aprende é pelos laboratórios porque você vê o processo. Na engenharia, muitos processos são abstratos e a única maneira de ver é o físico. E agora os laboratórios não são nada, então acho que pelo menos a gente deveria ter essa opção de poder assistir os laboratórios no próximo semestre,” explica, tentando buscar uma solução para o problema. 

Para ela, manter o foco nos estudos estando dentro de casa é outro obstáculo. “Demorou muito para eu conseguir ver a minha casa como local de estudo ou trabalho. Sabe aquelas pessoas que dizem que conseguem estudar em casa? Eu não sou uma delas. Eu preciso terminar os trabalhos na faculdade e não posso mais fazer isso. É frustrante, eu demoro muito mais para fazer as coisas. Me sinto lenta, desfocada, como vendo passarinhos no céu,” conta com a tristeza de quem perdeu o lar como lugar de descanso.  

Foto cedida por Daniella Reina

E ainda acrescenta sobre o desafio adicional de ter que lidar com o segundo idioma nas aulas não-presenciais. “Como estudante internacional, obviamente, inglês é a sua segunda língua e para se comunicar é muito mais fácil ao vivo porque você pode explicar o que você quer. Quando você está atrás de uma câmera ou um email, as vezes dizer o que você quer é muito mais difícil,” desabafa. 

“Então eu não to recebendo a educação que recebia antes e não estou apredendo como antes. No final, isso é um negócio e eu não estou recebendo pelo o que estou pagando,” fala com a frustração de quem atravessou um oceano para estar onde está e não sente que está conseguindo aproveitar a oportunidade em total.

Daniella também comenta sobre a situação de ser imigrante em esse momento. “Acho que é muito mais difícil, porque você não recebe nenhuma ajuda do governo. E no final, você ta sozinho. Você tem que se virar e lutar para manter o que tem e não existe uma opção B de ficar na casa de um familiar ou um amigo. Porque as vezes para um imigrante é muito difícil ter esse amigo que você pode falar ‘ai, posso ficar na sua casa?’ ou algo assim.”

Já em relação a família, ela se sente mais tranquila. Para ela, o fato de ser migrante a ajuda a lidar com esse momento. “Bom, continua a mesma coisa, não? Eu já vejo eles de longe há tanto tempo que não faz muita diferença. Eu me separei da minha irmã gêmea quando tinha 18 anos, agora tenho 25. Já é um costume, não me afeta em esse aspecto,” explica com a experiência de quem já sabe viver situações de crise há muitos anos.

“Se eu tivesse na Venezuela, eu iria todos os domingos para a casa da minha avó. Então sim, me impactaria, mas agora eu não visito a minha avó então ok. Não há nada de diferente nos meus domingos,” acrescenta.

Hoje, com todos os seus familiares vivendo na Europa, a Venezuela é algo que ficou para trás. “Eu não tenho nada de contato com a Venezuela agora. Creio que quando você decide migrar definitivamente, você tem que realmente, para se sentir melhor consigo mesmo, fechar todas as suas portas. Porque essas lembranças de ‘ah, se eu tivesse na Venezuela, eu estaria fazendo isso’, esse pensar muito no passado, não te deixa seguir adiante do meu ponto de vista,” diz Daniella.

Quando a pergunto sobre o que a faz sentir-se em casa agora, ela me fala do futuro marido. “Acho que é meu namorado agora, nós estamos juntos e vamos nos casar…acho que ele faz com que eu me sinta em casa,” conclui com os olhos sorrindo.

Nico Betancur: De Medellín a Sídney

“Me parece que nosotros estudiantes internacionales siempre estamos haciendo algo y llega el coronavirus y dice ‘no puedes hacer nada’. Y el gobierno no te va a ayudar, pero tienes que seguir pagando las cuentas y seguir con la vida, y eso me pareció muy duro,” comenta Nico Betancur, estudiante colombiano en Australia. “Tenemos que estar agradecidos por la oportunidad de estar acá y también valorar todas las cosas que una vez tuvimos, porque en eses momentos, ya nada vale la nada. No tenemos nada.”

Nico se mudó de Medellín a Sydney hace más de cuatro años para vivir con parte de su familia que ya vivía en Australia. Estudiante universitario, cuenta las dificultades de estudiar desde su casa en un idioma distinto al suyo. “Es muy complicado. Se me complica para concentrar cuando la gente me habla en inglés, en los trabajos, y no tengo la ayuda del profesor ahí. Y obviamente, como vivo con mi familia, ellos hablan español. Entonces es muy complicado. Yo gustaba de salir, ir a la universidad, pasar el día allí y de conocer gente, cierto? Al pasar a estar encerrado, a veces me ponía muy desmotivado,” dice.

También agrega sobre los desafíos de mantener las amistades como migrante, que se intensifican en un momento como éste. “A veces la gente no se da cuenta de uno viene solo, que en el proceso empieza a conocer gente y hacer amigos. Pero los amigos vienen y van porque haces un amigo que es de un país y él regresa y tú te quedas. Y llegan otros, y se van y tú te quedas…eso te cuesta mucho,” dice. “Y justo en esta pandemia, hay mucha gente que se fue o que no llegó. Eso es muy triste. Me pone a pensar a veces que es complicado estar encerrado, pero es más complicado es que cuando todo pase, seguramente, tus amigos no van estar acá.”

Además, la familia en Colombia es un motivo adicional de preocupación en estos tiempos. “Extraño a mi país y a la gente, específicamente a mi mamá. Me da tristeza que mi familia se puede llegar a infectar por el virus y estamos tan lejos que no se puede hacer nada. Suena muy triste pues pase lo que pase, no nos vamos poder a ver,” comenta con pesar. “Me pone mucho a pensar que a veces yo, por estar en Australia, no les hablo tanto y penso que no les necesito y en un momento como ese veo que ahora sí me hacen falta. Este coronavirus me puso a pensar que soy muy agradecido a la familia.”

En contraste, el confinamiento lo acercó a los miembros de la familia que comparten la misma casa con él en esta pandemia. “Después de cuatro años, nos sentamos todos juntos a la mesa para jugar! Eso es algo. Nos hemos vuelto más unidos y nos estamos conociendo más uno del otro y eso me sorprendió mucho. Eso sí nos ayudo mucho [la pandemia], a estar más juntos. Fue un cambio que tuvimos todos”, dice entusiasmado el colombiano.

Foto cedida por Nico Betancur

Para Nico, estos son tiempos para la reflexión, y para aprender a valorar las cosas simples y los momentos que compartimos con los que amamos. Todavía cree que es un buen momento para descubrir (o redescubrir) qué actividades te hacen feliz y cuáles no. “Me había olvidado la lectura y me encanta leer, por ejemplo. O no sabía ni siquiera que podía pintar y un día empecé a pintar. Y bueno, son cosas que hago para conocerme. Tenemos otra oportunidad cuando eso pase de que si, por ejemplo, nunca te ha gustado hacer algo, no lo hagas porque no sabes si eso puede volver a pasar y ser peor,” explica.

Pero la música y los ritmos de América Latina siguen siendo lo que le motiva a seguir adelante en tiempos de incertidumbre. “Es lo que más me ha ayudado. Desde el momento que me despierto, me pongo mi musiquita y ‘vamos’. Entonces, bueno, sé que eso va a pasar,” concluye.