Suely: The sadness that won’t leave the Córrego do Feijão

“My facial expression has even changed, I don’t smile as I do here anymore,” says Suely while she shows me the cover of a 2014 tourism magazine she featured because of her restaurant at the “Córrego do Feijão”.

Today, the Casa Velha restaurant is rented out to Vale and the wood-fired oven and the smell of homemade food is just one distant memory. The place now only bears the sadness and nostalgia of what it could have been if there was no disaster.

I met Suely at Brumadinho City Hall. She carried a sad look, a tired face and a heavy walk. The four walls of the administrative environment didn’t have any resemblance at all to the rural ambience of “Córrego do Feijão”. She seemed almost out of context in that place. 

She didn’t want to talk to me the first time I went there. She felt a lot of pain, both physical and emotional, and told me that she couldn’t talk about the tragedy without crying.

I came back the next day. And I asked her about her passions, in an attempt to soften the melancholy that surrounded her. “I’ve always been a nature lover, and that I inherited from my father. Everything was good for him. If he had rice, beans, pumpkins, everything from the backyard, in his plate, for him this was the most delicious food,” she recalls with affection.

Born and raised in “Córrego do Feijão”, Suely had her neighbourhood as “a corner of heaven”, where she cultivated her father’s love for nature. Where she dreamed of having her own house and her garden to cook homemade food for the community.

After 25 January, this dream was dragged along with the mud of the dam that collapsed. And the future became uncertainty. “So, what my father left for me to finish and what I liked to do, I can’t accomplish anymore. And I can’t help but thinking ‘will I be able to live where I grew up?”. 

These are Suely’s dilemmas today, in the face of the uncertainty left by the tragedy, especially in relation to the environmental consequences of the disaster, like soil contamination.

“This uncertainty has definitely aged me about 5 years from January until now. I’m sure I have aged. Because I’m in much more pain than before. And sadness, so much sadness. Living with it is very harmful to my health and it has certainly reduced my years of life,” she tells me with the hopelessness of those who were marked by tragedy.

For her, there is nothing to make the dam collapse be forgotten and, like many of the residents of the “Córrego”, Suely is only moving on with the help of medication. 

“The longest stretch that the mud has covered, I see it every day when I  come to work and to return home. So, it seems that it will never end. I’ve never taken medicine before and today I take it to sleep,” she says. “This sadness, in my opinion, will never leave Brumadinho, never again. It’s something that will never get out of my memory. I didn’t expect to die with this in my mind.”

The images of the days that followed the disaster still follow her, in a nightmare from which it is not possible to wake up. “I saw scenes worse than war. Helicopters arriving with bodies in those baskets, dripping with mud, 15 meters from my eyes. And we wonder: ‘who will it be? Will it be my friend? Is it someone’s mother? Is it someone’s son?’ These are scenes that will never fade from my memory,” she tells with the vivacity of those who are now haunted by the chaos of the mud.

In the end, she cannot contain the tears and leaves one last message. “What I would like to say is that all this should have been spared if it had not been the greed for money. There is no need to earn so much, to so much evil. That should have been spared. That’s all for me. Greed for money caused all this. For me, nothing will ever pay this cowardice,” Suely concludes.

Suely: A tristeza que ficou em Córrego do Feijão

“A minha fisionomia até mudou, eu não sorrio mais como aqui”, me diz Suely ao me mostrar a capa de uma revista do SEBRAE de 2014 em que apareceu por conta de seu restaurante no Córrego do Feijão.

Hoje, o restaurante Casa Velha está alugado para a Vale e o forno a lenha e o cheirinho de comida caseira é uma só uma lembrança distante. O lugar agora só carrega a tristeza do que poderia ter sido e não foi.

Conheci Suely na Câmara Municipal de Brumadinho, com olhar triste, fisionomia cansada e caminhar pesado. As quatro paredes do ambiente administrativo não lembrava em nada a vida rural do Córrego do Feijão. Ela parecia quase que fora de contexto naquele lugar. 

Não quis falar comigo na primeira vez que fui lá, sentia muita dor, física e emocional e me disse que não ia conseguir lembrar da tragédia sem chorar.

Voltei no dia seguinte. E lhe perguntei sobre suas paixões, na tentativa de amenizar a melancolia que a cercava. “Sempre fui uma apaixonada pela natureza, e isso eu herdei do meu pai. Tudo tava bom pra ele. Se tivesse na panela pra comer um arroz, um feijão, um angu, uma abóbora, tudo do quintal, para ele essa era a comida mais gostosa”, recorda com carinho.

Nascida e criada no Córrego do Feijão, Suely tinha o seu bairro como “um cantinho do céu”, onde cultivava o amor do pai pela natureza e planejava o sonho de ter a própria casa com uma horta para fazer quitanda na praça e na mercearia do irmão. 

Depois de 25 de Janeiro, esse sonho foi arrastado junto com a lama da barragem que se rompeu. E o futuro virou incerteza. “Hoje eu não sinto aquele cheiro de comida na praça mais, nem aquela harmonia de antes…Então assim, o que o meu pai deixou pra eu terminar e que eu gostava de fazer, eu nao consegui e eu penso assim, será que eu vou poder viver lá?”. 

São as indagações de Suely hoje, diante da dúvida das consequências deixadas pela tragédia, principalmente em relação à contaminação do solo.

“Essa incerteza definitivamente me envelheceu uns 5 anos de janeiro até agora, eu tenho certeza que envelheci. Porque estou com muito mais dores do que tinha antes, tristeza, muita tristeza. Conviver com isso é muito prejudicial para a minha saúde e com certeza diminuiu os meus anos de vida”, me afirma com a dor e desesperança de quem ficou marcada pela tragédia.

Para ela, não há nada que faça o rompimento da barragem ser esquecido e como muitos dos moradores do Córrego, Suely tem seguido com a ajuda de remédios. 

“O maior trecho que a lama percorreu, eu vejo todos os dias pra vir trabalhar e pra voltar pra casa. Então assim, parece que nunca vai ter fim. Eu nunca tomei remédio e hoje eu tomo pra dormir, inclusive já quebrei dois dentes de tensão”, conta.

“Essa tristeza, na minha opinião, nunca sairá de Brumadinho, nunca mais. É uma coisa que nunca vai sair da minha memória. Eu não esperava morrer com isso”.

As imagens dos dias que seguiram o desastre ainda a acompanham, em um pesadelo do qual não é possível acordar. “Eu vi cenas piores que guerra. Helicópteros chegando com os corpos naquelas cestinhas, pingando de lama, a 15 metros dos meus olhos. E a gente pensando: quem será? Será o meu amigo tal? Será a mãe de fulano? São cenas que nunca vão se apagar”, ela narra com a vivacidade de quem agora é assombrado pelo caos da lama.

A dor do impacto é tanta, que em sua declaração tristeza é estado permanente e me diz com convicção: “Eu sou muito triste com tudo o que aconteceu”. E ainda não consegue conter as lágrimas ao me dar um último recado sobre o acontecido.

“O que eu gostaria de falar é que tudo isso deveria ter sido poupado, se não fosse a ganância por dinheiro. Não precisava ganhar-se tanto, pra tanta covardia, pra tanta maldade. Isso deveria ter sido poupado. Pra mim é só isso. A ganância por dinheiro causou isso tudo. Pra mim essa covardia não tem nada pago. É muito triste”, Suely conclui.

Brumadinho: a dor do luto coletivo

Brumadinho é uma cidade triste. De ombros caídos e olhares cansados. O luto se sente nas ruas, em cada conversa casual com seus habitantes que não esquecem o dia em que a barragem se rompeu e tudo mudou. Se sente no pó marrom que cobre a cidade e na cor de lama do Rio Paraopeba, que faz a tragédia ser lembrada não só pelas pessoas, mas também pela natureza. Dizem que o tempo cura tudo, mas a dor parece não deixar a pequena cidade do interior de Minas Gerais tão cedo.

Estive lá exatos 6 meses depois do infame 25 de Janeiro. Adentrei por 4 dias pelo sofrimento e pela lama para tentar entender o que fica depois do crime. O que fica depois que já não se fala mais no assunto. Encontrei uma comunidade inteira atingida – em vários níveis. Sem parentes, sem amigos, sem colegas, sem vizinhos e sem reconhecer o lugar que antes era seu. Desacreditados com o futuro e abalados com um passado que não puderam controlar.

Doeu em tudo. 

Me doeu no coração ver tantos olhos cobertos de lágrimas e tanta gente devastada pela ausência que a tragédia deixou. Me doeu no pulmão respirar aquele cheiro pútrido da lama que ainda resta próximo a barragem. Me doeu a cabeça e me revirou o estômago ver o quão longe a ganância humana pode ir e o quão pouco uma vida vale diante dos lucros de uma empresa. Me doeu em algum lugar no fundo da alma ver o Rio Paraopeba morto e contaminado por minério. E me doeu em todo centímetro do meu corpo, da minha mente e do meu espírito assistir a uma cidade doente sem, de fato, poder fazer nada para curá-la além de ouvir suas histórias.

Por isso, eu grito. 

Eu grito pelas vidas que se foram e pelos sonhos interrompidos. Eu grito contra bárbarie cometida pela Vale. Eu grito pela natureza devastada pelos anos de mineração. E eu grito para que talvez essa dor se amenize um dia. 

As minhas palavras não me são suficientes para expressar tudo o que deve ser dito sobre o rompimento da barragem do Córrego do Feijão. Compartilho então as vozes todas que ouvi por lá – de cada um que me recebeu de coração aberto dentro da própria casa com um “cafézin”- para que elas possam ressoar para outros. E ter o mesmo efeito que tiveram sobre mim. Fica o recado: não há ganância, não há lucro e não há capital que valha mais que a vida humana.

Brumadinho: the anguish of collective grief

Brumadinho is a sad city. It is possible to feel the grief in the streets, in each casual conversation with its inhabitants who do not forget the day when Vale’s Bean Stream dam collapsed, changing everything. It is possible to feel it in the brown dust that covers the city and in the muddy colour of the Paraopeba River. They say that time heals everything, but the pain doesn’t seem to leave the small town in the interior of Minas Gerais so soon.

I was there exactly 6 months after the infamous 25th of January. For 4 days, I dived into suffering – and the mud – to try to understand what remains after the crime. What remains after no one talks about it anymore on the media. I found an entire community affected – at several levels. No relatives, no friends, no colleagues, no neighbours and no recognition of the place that was once theirs. In disbelief with the future and shaken by a past they couldn’t control.

It hurt in everything. 

It hurt my heart to see so many eyes covered with tears and so many people devastated by the absence that the tragedy left behind. It hurt me in my lungs to breathe that putrid smell of mud that still remains near the dam. It hurt my head and stomach to see how far human greed can go and how little life is worth in the face of a company’s profits. It hurt me somewhere deep in my soul to see the Paraopeba River dead and contaminated with ore. And it hurt every inch of my body, my mind and my spirit to watch a sick city without, in fact, being able to do anything to cure it but listen to its stories.

That’s why I scream. 

I scream for the lives that are gone and for the dreams that are interrupted. I scream against the barbaric act committed by Vale. I scream for the nature devastated by the years of mining. And I scream so that maybe this pain will diminish one day. 

My words are not enough for me to express everything that must be said about the collapse of the dam. But I share here all the voices I’ve heard there – the talks always joined by a “cafézin” at the houses of everyone who welcomed me with an open heart – so they can resonate with others. And have the same effect that they had on me. So they can serve as a message: there is no greed, there is no profit and there is no capital that is worth more than human life.

Alba and the Venezuelan resistance in Brazil

“When I left [Venezuela], I said, ‘I will be the resistance in Brazil because I will have a voice and I will tell the world who we are”. One of the pioneers of the first Boa Vista Welcoming Centre, Ms. Alba Marina is certainly a force of resistance in Brazilian lands – and still offers support to her compatriots so they can have a smoother transition when they arrive into another country.


Working in partnership with the NGO Fraternity Without Borders, Alba managed to put into practice the dream of creating a housing space in which the stigma of a refugee was denounced and deconstructed. In operation since December 2017, the Welcoming Centre is in constant transformation by those who call it home. “We don’t have a standard, a model, like ‘that’s how we had planned it’ here. It’s a lot based on our hearts, our logic and our common sense. It depends on what we want to improve and what we can do with the tools we have in our hands,” she says.

This is what makes the Centre so distinct from the region’s shelters, which are under the administration of the United Nations and the Brazilian Army, for example. There, each person is responsible for some kind of task or activity to keep the structure functioning, from cooking to entertainment for the children. “We don’t compete with anyone, because we don’t do the same work,” Alba says. “It’s my dream that we become a point of reference and importance in the world. A reference for humanity especially those displace – the immigrants, in a situation of refuge, crisis, and protagonists of their lives, capable of having control of their own lives. They just need to be seen, for people to believe that they can do things”, she adds with the sparkle in her eyes with a strong belief in social change. But it goes beyond that.

What makes the Welcoming Centre special is the vision behind Alba’s dream and hope that there is the story and linkage in every person who, just like everyone else there, was forced to be a migrant. There is a person whose resistance and bravery is to find a home away from home. “I even said once that the immigrant was an orphan from ‘there’. That it searched in the eyes of others, the lost gazes; that it searched in the hugs it received in Brazil, the hugs from friends, the love of thy neighbour; and the coffee here, it tried to feel the taste of coffee there. Our whole process is a process of ‘where is what I left behind’ and ‘the life I used to live, I want it again’. It’s a constant struggle because one had no option but to leave”, Alba narrates with the pain that only those who have experienced the hardship of having to leave home.


Alba carries in her words the wisdom of those who understand how important it is to welcome and look at the other with empathy because she herself experienced what it means to be displaced leaving everything she loved behind. “I never thought in my life that I would leave Venezuela. Now we are being forced to be immigrants without consent and any preparation. And the other countries are being forced to receive immigrants in retrospect. Because when I was in my country and saw immigration in Europe I thought ‘ah, they’re in Europe’. Don’t you know that you can be one of them?”

Alba reflects on how this process could be made easier, less painful if tolerance was cultivated before nationalism. “You are educated to be a nationalist. You are educated to think that what is yours is better than others. That’s bad. You have to be educated to be a citizen of the world. To see everyone as human beings, to be tolerant and to love others, to love the mixture. The Latin Americans are a total mixture, you know. How can we forget this reality? Why aren’t we reminded of this from the beginning? It would be much easier. We would accept each other. You would be able to look into my eyes and see ‘you’re just like me’”.

With sorrow, Alba still mentions the greatest pain of this whole situation is the loss of cultural identity loss and being stateless. “They asked me once, ‘Do you want to go back?’ I said, ‘Man, I want to go back. But could I go back?’ No. First, because I have nowhere to go back to. The country where I grew up, is not a country anymore. The structure is there, but my neighbours, my friends, my culture, my society, the one that educated me, doesn’t exist. It was destroyed”, she says. “I see them dying of hunger. And not only from hunger. To die from infinite sadness is the greatest lost and tragedy of humanity. People are dying from sadness. We were known as the happiest people. We still laugh at our misfortunes, sad as we are, but what I see today is desolation. People are walking with their shoulders down, their heads down, sad eyes…tired. What have they done to my country? I don’t know,” she says with the tired eyes of those who feel for her people.


Even so, Alba is hopeful and strives for a solution: “create things,” just like she did with the Welcoming Centre in Boa Vista. “We have to show the world who we are. To be Venezuela, not Venezuelan, outside Venezuela. Anywhere in the world. So that, when the day comes, we can go back and re-build our country and ourselves. A better country. It doesn’t mean it’s the best country, but what we thought our country was, you know? That’s what I have to tell you”, she concludes with a steely determination and the strength to resist and move forward.

Alba e a resistência Venezuelana no Brasil

“Quando eu saí de lá [da Venezuela], eu falei ‘eu vou ser resistência no Brasil’. Porque eu vou ter uma voz e eu vou dizer pro mundo quem a gente é”. Idealizadora do primeiro Centro de Acolhida de Boa Vista, Alba Marina com certeza resiste em terras Brasileiras – e ainda oferece suporte aos seus compatriotas para que eles possam ter uma transição menos sofrida ao chegar em outro país.

Trabalhando em parceria com a ONG Fraternidade sem Fronteiras, Alba conseguiu colocar em prática o sonho de criar um espaço de moradia em que o estigma de refugiado fosse desconstruído. Em funcionamento desde dezembro de 2017, o Centro de Acolhida está em constante transformação por aqueles que o habitam. “Esse lugar aqui não tem um padrão, um modelo, tipo ‘é assim que a gente tinha planejado’. É muito do que o nosso coração, o que a nossa lógica e o nosso senso comum acha. Depende do que a gente quer melhorar e o que a gente pode fazer com as ferramentas que a gente têm nas mãos”, conta.

É isso que torna o Centro distinto de abrigos da região, que ficam sob administração das Nações Unidas e do Exército Brasileiro, por exemplo. Lá, cada pessoa é responsável por algum tipo de atividade para manter a estrutura funcionando, desde a cozinha ao entretenimento para as crianças. “A gente não compete com ninguém, porque nós não fazemos o mesmo trabalho”, ressalta Alba. “É o meu sonho que nós sejamos referência no mundo. Mas referência de seres humanos, que, como imigrantes, numa situação de refúgio, de crise, são protagonistas da sua vida e capazes de criar. Eles só precisam ser enxergados, que as pessoas acreditem que eles podem”, completa com o brilho nos olhos de quem realmente acredita na mudança.

Mas ainda vai além disso. O Centro de Acolhida é tão particular porque por trás do sonho e idealização de Alba tem a história de uma pessoa, que, assim como todos ali, foi forçada a ser migrante. Existe uma pessoa cuja a resistência é também encontrar uma casa longe de casa. “Eu até disse uma vez, que o imigrante era um órfão de lá. Que procurava nos olhares dos outros, os olhares perdidos; que procurava nos abraços que recebia no Brasil, o abraço dos amigos, o amor do vizinho; o café daqui ele tenta sentir o sabor do café de lá. Todo o nosso processo é um processo de ‘cadê o que eu deixei para trás?’ e ‘o que eu vivi atrás, eu quero de novo’. É um duelo constante, porque você não queria partir”, narra com a dor que só quem já teve que sair da sua terra pode sentir.

Alba carrega nas suas palavras a sabedoria de quem entende o quanto é importante acolher e olhar para o outro com empatia justamente por ter se visto diante do despreparo que é deixar tudo o que ama para trás. “Eu nunca pensei na vida que eu fosse sair da Venezuela. Agora a gente ta sendo forçado a ser imigrante sem preparo nenhum. E os outros países estão sendo forçados a receber imigrantes sem preparo nenhum. Porque quando eu tava no meu país e via a imigração na Europa eu pensava ‘ah, lá na Europa’. Você não sabe que você pode ser uma delas?”, declara.

Ela reflete em como esse processo poderia ser menos doloroso se a tolerância fosse cultivada antes do nacionalismo. “Você é educado pra ser nacionalista. Você é educado pra achar que o que é seu é o melhor. Isso é ruim. Você tem que ser educado pra ser cidadão do mundo. Pra enxergar todos como seres humanos, pra ser tolerante, pra amar os outros, amar a mistura.Você sabe, o Latino Americano é uma mistura total. Como vamos esquecer essa realidade? Porque a gente não é lembrado disso desde o começo? Seria muito mais fácil. A gente conseguiria se aceitar. Você conseguiria me olhar e ver ‘você é igual a mim’”.

Com pesar, Alba ainda menciona a dor maior que é a perda de identidade do próprio país. “Me perguntaram uma vez ‘você quer voltar?’ Eu disse ‘cara, eu quero voltar. Mas eu posso voltar?’ Primeiro porque eu não tenho pra onde voltar, o país aonde eu cresci, nao é um país. A estrutura ta lá, mas os meus vizinhos, meus amigos, minha cultura, minha sociedade, a que me educou, existe? Ela foi destruída”, conta. “Eu vejo eles morrendo de fome. E não só de fome. Sabe qual é a morte mais feia? A de tristeza. São pessoas morrendo de tristeza. Nós éramos conhecidos como o povo mais feliz. A gente ri, ainda, das nossas desgraças. Assim que a gente é, mas o que eu vejo hoje é desolação. São pessoas caminhando de ombros caídos, cabeça baixa, olhos tristes…cansados. O que fizeram com o meu país? Eu não sei”, fala com os olhos cansados de quem sente pelo seu povo.

Mesmo assim, Alba vê a solução: “criar coisas”, assim como ela fez com o Centro de Acolhida em Boa Vista. “A gente tem que mostrar pro mundo o que a gente é. Ser Venezuela, não Venezuelano, fora da Venezuela. Em qualquer lugar do mundo. Pra que, quando chegue o dia, gente possa voltar e construir o nosso país. Um país melhor. Não quer dizer que é o melhor país, mas o que a gente achava que o nosso país era, sabe? É isso que eu tenho pra te dizer”, conclui com a força de quem sempre vai ser resistência.

Roraima: The Complexities of the Migratory Flow

Dona Raimunda has lived in Boa Vista since 1983 when she moved from Manaus. Like many Manauaras, she “came to visit and never went back”. Her recount is complex and rich described in a way that only Roraimans can deeply identify with.

In an informal conversation at the city’s Crafts Center, at first she complains of how the influx of Venezuelans has changed the lives of the people in Boa Vista. “Before we even slept with the windows open in here. Now we have to hold our bags firmly to walk around the city centre”. She mentions the neglection of the Government to” the paradise” she has chosen to call home and says she hopes for improvements with “this new man who has taken over [the government] now”. She praises the presence of the army in the street and says that without them “they would rob you inside the bank”. She still talks about countless cases of violence in the capital and attributes them 100% to the new immigrants.

Ironically however, despite her disapproval, she narrated with compassion the story of the Venezuelan family that lives in her street. Mrs. Raimunda speaks tenderly of a mother, a father and three children who shared a single mattress and still struggled to meet rent. She says she donated a mattress from her house so they could sleep comfortably and helped with everything she could. Mrs. Raimunda even mentions that her son managed to get a job for the father at an ice cream shop in town.

Mrs. Raimunda also talks about the soup that the family insist on bringing to her house in appreciation for the help, coined affectionately by her grandchildren “the broth of the Venezuelan sisters”. “But their food is very different, without seasoning, I do not like it very much,” she confesses.

Mrs. Raimunda sympathises with the hunger and misery that comes from Venezuela and says she can not bear to see the mothers and infants who arrive. Notwithstanding the situation of elderly ladies who cross the border carrying everything they have in their backs. She calls Maduro “Crazy” and hopes that the situation will improve across the border. “Look, I don’t wish this even to my worst enemy.” And completes with the phrase, “Venezuela is the same as Roraima, is equally rich”.

Mrs. Raimunda is just another important fabric, a part of the portrait of those who find themselves challenged by the changes that the flow of people brings. In her own words “with progress come the consequences”. Her speech is also the crossroads of those who identify themselves in the image of the migrant who saw in Roraima a perspective of home. “The father or uncle of my neighbour came from Venezuela and went to Manaus. Then he came back here. Here it’s too good, I wouldn’t go back to Manaus myself”, she comments almost in pride to know that the land she has chosen to love is also loved by others who come from outside.

The complexity of the existence that many have come to experience in the Roraima capital cannot be made simple but explained by looking deeply into the Manauarans eyes and soul. The eyes of those who nurture a love for a land where they were not born into but still identify and feel a sense of belonging – not as migrants but people with a sense of love and appreciation. Of those who are afraid of losing their “paradise” by making room for others who have not chosen their begotten circumstances. Not because of selfishness, but precisely because they know how difficult it is to find their place in the world and a sense of belonging and inclusion.

Roraima: onde as complexidades vão além de um fluxo migratório

Dona Raimunda vive em Boa Vista desde 1983, vinda de Manaus. Como muitos de seus conterrâneos, “veio para conhecer e nunca mais voltou”. O discurso dela é de uma complexidade que só Roraima parece carregar.

Numa conversa informal no Centro de Artesanato da cidade, ela reclama para mim de como a população Venezuelana mudou a vida dos habitantes de Boa Vista. “Antes a gente dormia até de janela aberta por aqui. Agora a gente vive agarrado na bolsa.” Menciona o abandono do governo para com “o paraíso” que escolheu chamar de lar e diz ter esperanças de melhoras com “esse novo [governo] que assumiu agora”. Elogia a presença do exército na rua e diz que sem eles “só falta te roubarem dentro do banco”. Ainda narra inúmeros casos de violência na capital e os atribui 100% aos novos imigrantes.

Ao mesmo tempo, narra com compaixão a história da família Venezuelana que mora na sua rua. Fala com ternura de uma mãe, um pai e três filhos que dividiam um colchão só e ainda assim pagavam o aluguel com dificuldade. Doou um colchão da casa dela para eles terem mais conforto para dormir. Disse que ajudou com tudo o que pôde e que seu filho inclusive conseguiu um emprego para o pai em uma sorveteria.

Raimunda também conta da sopa que eles insistem em levar na casa dela em agradecimento pela ajuda toda, apelidado pelos netos de “caldo das irmãs Venezuelanas”. “Mas a comida deles é muito diferente, sem tempero, não gosto muito não”, confessa.

Se compadece com a fome e miséria que chega da Venezuela e diz que não aguenta ver as mães e bebês de colo que chegam. Nem se conforma com as senhoras de idade que cruzam a fronteira carregando o que podem nas costas. Chama Maduro de “Doido de lá” e espera que a situação melhore do outro lado da fronteira. “Olha, eu não desejo isso nem ao meu pior inimigo”. E lamenta completando com a frase, “A Venezuela é igual a Roraima, é rica igual”.

Dona Raimunda é o retrato de quem se vê acuado pelas mudanças que o fluxo de gente traz. Nas próprias palavras dela “com o progresso vêm as consequências”. O discurso dela também é a encruzilhada de quem se identifica na imagem do migrante que viu em Roraima uma perspectiva de lar. “O pai ou tio do meu vizinho veio da Venezuela para cá e foi para Manaus. Depois voltou pra cá. Aqui é bom demais, eu mesma não volto mais pra Manaus”, comenta quase num orgulho de saber que a terra que escolheu amar também é amada por outros que vem de fora.

O universo particular que permeia a capital Roraimense só é possível de ser explicado ao olhar nos olhos manauaras e intensos desses que nutrem um amor por uma terra onde não nasceram e ainda assim não se veem migrantes. Desses que têm medo de perder o seu “paraíso” ao abrir espaço para o outro – que é tão parecido consigo. Não por egoísmo, mas exatamente por saber o como é dificil a luta para encontrar o seu lugar no mundo.

A Mão Amiga do Exército Brasileiro em Pacaraima

O primeiro rosto que os imigrantes encontram ao cruzar a fronteira é o do militar. E isso talvez seja motivo de medo e preocupação em muitos lugares do mundo (inclusive algumas outras partes do Brasil). Não em Pacaraima. Na cidade fronteira entre Brasil e Venezuela os militares tem um propósito: acolher.

A “Operação Acolhida” foi lançada ano passado como missão humanitária em Roraima para “atender os irmãos Venezuelanos que chegam no país”, de acordo com o Ministério da Defesa. E como me impressionou aprender que o exército, de fato, tem uma “Mão Amiga”, bem diferente do “Braço Forte” pra falar no jargão dos próprios militares. Durante o período que estive lá, o exército sempre estava presente de alguma forma; seja no exercício de ações humanitárias, seja nas menções em todas as entrevistas que fiz com pessoas envolvidas no fluxo migratório.

Por isso fui acompanhar de perto o trabalho deles no Centro de Triagem de Pacaraima – o Petrig. “Nós somos referência no mundo. As missões de paz do exército Brasileiro são reconhecidas internacionalmente, mas pouco se fala disso”, comenta o Major Marcus Fabius enquanto me acompanha em um tour na estrutura montada especialmente para a missão em Junho de 2018.

É lá que se faz toda a documentação necessária para a entrada dos novos migrantes; incluindo vacinação, carteira de trabalho e CPF. Lá também é o lugar onde estão reunidas organizações como a ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), OIM (Organização Internacional para Migração) e UNFPA (United Nations Population Fund), que dão suporte em assuntos desde abrigo à saúde sexual.

Mas, de tudo, o que mais me chamou atenção foram os detalhes, as conversas, os pequenos gestos de gentileza que presenciei por acaso. Eu vi de fato carinho e acolhimento, que se expressava tanto no olhar cansado e na fala sincera de todos os militares com quem conversei e que me contaram sobre o desgaste emocional de estar imerso 24 horas na missão; quanto em cenas como um oficial brincando com uma menininha que se aproximou dele com uma garrafa de água.

A Operação Acolhida pode ser de fato chamada de Acolhida depois que eu passei pela área de vacinação e um oficial me falou que a parte mais difícil eram as crianças chorando com medo da vacina. Para acalmá-las, a equipe comprou com o próprio dinheiro um USB e encheu de desenhos animados em Espanhol para passar na tela do espaço de espera como distração para os pequenos.

O acolhimento também está na seção onde se encontra o banner “Tu familia puede saber que estás bien. Contáctala” (Sua família pode saber que você está bem. Contate-a) para apresentar o serviço gratuito da Cruz Vermelha de Restabelecimento de laços familiares. Está na agente da ACNUR, que parou tudo o que estava fazendo e teve que adiar a entrevista que eu pedi para ela para poder atender uma mulher grávida, com mais um filho no braço pedindo “por favor” por abrigo porque o filho tinha fome e ela não tinha para onde ir.

O envolvimento total dos militares com a missão se mostra quando, durante o tour, o Major Marcus Fabius me explica sobre o alojamento temporário que existe no Petrig. Em todo final de expediente, é preciso definir quem é elegível para passar a noite no alojamento que tem estadia máxima de 24h e é destinado apenas para pessoas consideradas em situação de alto risco antes de serem encaminhadas para um abrigo oficial da ACNUR. Sua voz pesa ao me falar da dificuldade de fazer a decisão dos mais vulneráveis entre os já vulneráveis. “É muito difícil. A gente vê gente em todo tipo de situação aqui. Outro dia tinha uma família com oito filhos, não tem como deixar eles na rua. O coração fica apertado quando a gente tem que decidir quem vai e quem fica”, comenta o Major.

O tenente Bruno, coordenador do alojamento, repete o sentimento em sua fala. Conta do desgaste emocional de lidar com a vulnerabilidade humana diariamente durante os meses que tem servido na missão. Mas também ressalta a gratidão que sente por fazer parte da Acolhida pelo carinho que recebe de volta por parte dos acolhidos. “Já teve até criança com nome em homenagem a mim aqui. Saiu até no Instagram da Acnur Américas”, fala com a emoção de quem sabe que vai poder guardar a história com afeto pra sempre.

Depois de conhecer a estrutura da missão, termino a visita perguntando ao Major Marcus Fabius sobre a opinião dele sobre a importância da Operação Acolhida. E a resposta não poderia resumir melhor a sinceridade e empatia que eu senti durante o tour. “Se a situação fosse contrária, eu gostaria que o povo Brasileiro fosse acolhido da mesma forma que a gente acolhe a população Venezuelana aqui. Acolher o imigrante é um trabalho de valorização à vida”, concluiu.

The open helping hand: Brazilian Army Mission

The initial encounter the immigrants face when crossing the border is the military. This indeed may be a source of fear and concern including some other parts of Brazil; but not in Pacaraima. In the border city between Brazil and Venezuela, the military extends it’s welcome and helping hand.

The Operação Acolhida (Operation Welcome) was launched last year as a humanitarian mission in Roraima to “serve the Venezuelan brothers who arrive in the country,” according to the Ministry of Defense. And how impressed I was to learn that the army has, indeed, a “Friendly Hand,” that is quite different from their “Strong Arm” – insofar as military’s talk is concerned & certainly the images that perhaps is better known of.

During the time I was there, the army’s presence was felt, whether in the exercise of humanitarian actions or in the mentions in all the interviews I was able to conduct with people involved in the migratory influx.

That’s why I’ve decided to follow their work closely at the Pacaraima Triage Centre (Petrig). “We are a reference in the world. The peace missions of the Brazilian army are internationally recognised, but little is said about it”, says Major Marcus Fabius while walking me on a tour around the structure set up especially for the mission in June 2018.

All the necessary documentation for the entry of new migrants is processed here; including vaccination, work permit and ID. It is also at the Triage Centre that organisations such as UNHCR (United Nations High Commissioner for Refugees), IOM (International Organization for Migration) and UNFPA (United Nations Population Fund) are gathered to provide support in matters including shelter, sexual health to name just a few.

With all the processes put in place, what caught my attention was the intimate details of humanity. The conversations, acts and gestures of kindness that I constantly witnessed at the Centre. I saw true affection and welcome expressed both in the tired gaze and sincere speech of all the officials I spoke with who told me about the emotional challenges of being immersed 24 hours in the mission; to scenes of an officer playing with a little girl who approached him with a bottle of water.

The Welcome Operation has opened it’s compassionate arm, showing true welcome. This is what I observed walking past the vaccination area and the Officer told me that the hardest part was hearing the children crying in fear of the vaccination. To calm these fears, they entertained the children by putting together a catalogue of movies in a USB including cartoons in Spanish to screen on the waiting space TV as a welcome distraction for the little ones.

The Welcoming was also present in the banner “Tu familia puede saber que estás bien. Contáctala” (Your family may know that you are well. Contact them) to advertise the free service of the Red Cross for Restoring Family Ties. Amidst all of these, officers working showed dedication in all facets of the welcoming including the moment a UNHCR agent who was about to give me an interview stopped everything she was doing to look after a pregnant woman, holding another child in her arm asking “please” for shelter because her kid was hungry and she had nowhere to go.

The full involvement of the military in the mission was complex and non-stop as Major Fabius explained to me in greater detail for example about the temporary accommodation facilities of the Petrig. Careful assessments are made to identify those eligible to spend the night at the emergency accommodation that has a maximum stay of 24 hours and is primarily for high risk immigrants before being sent to an official UNHCR shelter for further action and processing.

The Major’s voice is heavy when he tells me of the difficulty of making the decision of who is the most deserving among the already vulnerable. “It is very difficult. We see people in all kinds of situations here. The other day we had a family with eight children, there is no way we can leave them on the street. The heart gets tight when we have to decide who goes and who stays,” says the Major.

Lieutenant Bruno, the temporary Accommodation Coordinator, shares these feelings too. He mentions the emotional stress of dealing with human vulnerability on a daily basis since he started serving on the mission. But he also stresses the gratitude he feels for being part of the Operation due to the affection he gets back from those who are welcomed. “We even had a child that was named after me here. It was published on the Acnur Americas Instagram account”, he says with the emotion of those who will have a story to keep with affection forever.

I end my visit to the Triage Centre by asking Major Fabius about his opinion on the importance of the Welcome Operation. And the answer was compelling with a deep sense of pride and duty. A feeling I knew all too well on my experience here. “If the situation were contrary, I would like the Brazilian people to be welcomed in the same way that we welcome the Venezuelan population here. Welcoming the immigrant is a work of valuing life”, he concluded.