“De Arepa en Budare”: Luísa e a força que ainda resiste na Venezuela

“Jamais, jamais, mesmo com a pior situação que estamos vivendo agora, eu abandono o meu país. Eu sou venezuelana, como dizemos aqui, ‘de arepa en budare’”. É uma das primeiras frases que me diz Luísa enquanto tomamos um café às 6 da manhã, em meio a tranquilidade da Gran Sabana.

Talvez não haja expressão melhor do que “de arepa en budare”* para descrever Luísa – e quiçá os venezuelanos que permanecem na Venezuela hoje. E eu explico: de todos os produtos que vi e consumi na Venezuela, o único ainda produzido lá, resistente à decadência econômica do país, foi a famosa harina PAN, ingrediente principal da iguaria típica do país, a Arepa.

Mas a resistência vai muito além de harina PAN e arepas. Luísa resiste todos os dias. Nos pequenos e nos grandes atos. Assim como os outros venezuelanos que conheci. A resistência está, por exemplo, na comida pronta que levamos de Santa Elena para a savana “caso a gente encontre alguém passando fome no caminho”. E também está na missão que ela acabara de voltar no delta do Rio Orinoco para fornecer atendimento médico à população indígena Waraó.

Ela me conta de como foi parada 15 vezes em postos de inspeção do exército para chegar no delta e que só conseguiu passar por todos eles por ter identidade indígena. E também narra sobre como tomava esses momentos nos postos de inspeção para abrir diálogo com militares. 

“Em muitos [postos de inspeção] eu dizia, ‘você tá pálido, não tem comido bem, esse fuzil que você carrega tá muito pesado…toma uma vitamina’. Dava a eles [os militares] uma vitamina. E eles me perguntavam, ‘de verdade? Como eu tomo?’, sabe é uma contradição,” me diz em um tom de desafio ao sistema que só quem vive lutando por  – e acredita em – condições melhores pode ter. “No momento em que eu dava uma vitamina, dizendo, ironicamente, que o fuzil que eles carregam pesa muito porque não têm comido bem e me perguntavam ‘você tem biscoito? Pão?’…é também uma oportunidade de falar e esse tem sido o meu trabalho,” completa.

Além disso, Luísa ainda conta com orgulho de um acampamento dela que hoje acolhe cerca de 20 famílias. “É hoje um lugar que parece abandonado, porque de fato não há mantimento, mas serve de resguardo. E assim estamos atuando muitos venezuelanos. Você passa e os lugares realmente estão em estado de abandono, mas dentro há resguardo e assim funciona,” conta. 

Em tempos de ditadura, o local se tornou abrigo para profissionais que sofrem algum tipo de perseguição política. “E é necessário se resguardar porque no momento não há segurança jurídica. É uma ditadura, não há liberdade de expressão. A liberdade de expressão é disfarçada e as pessoas ainda têm que trabalhar para manter a família,” explica. E ainda acrescenta um comentário importante. “Tudo isso eu faço em anônimo, senão não poderia fazê-lo. Eu só me atrevo a dizer o que disse a você porque você não é venezuelana”.

Para Luísa, essa força de resistência dos que ficam vem da esperança de ver um país melhor. “Neste momento, o amor e a esperança que temos vai muito além de um bom vestir e de um bom comer. Todos nós gostamos de azeite de oliva, por exemplo, porque conhecemos o azeite de oliva para comer uma boa salada. Mas se não temos, o que importa? Comemos um pouco com azeite vegetal e seguimos, dando nosso conhecimento e nossa esperança.”

E entende a situação de crise também como uma oportunidade para rever e aprender novos valores. “Para alguns de nós foi dada a missão de manter a esperança de que, sim, vamos sair [dessa situação] e temos que dar alegria às crianças para que não vejam tanta carência e se a veem, não importa,” conta. 

“Nesse momento não é possível ter um bom calçado, mas vamos aprender a andar descalços para também sentir a terra. Isso é também uma maneira de ensinar outros valores, de regressar à espiritualidade. Tudo isso nos move a espirirualidade, definitivamente,” fala Luísa com a serenidade de quem escolheu para olhar para a situação de maneira diferente.

Ela ainda reflete sobre os venezuelanos que também resistem fora do país de uma maneira ou de outra. “Ficamos todos aqueles que ainda creem que podem estar aqui e vamos estar para receber os que se foram e voltarão com mais sabedoria e valores também. Eu acredito que o venezuelano que saiu também foi para demonstrar ao mundo a alegria [daqui] e para fazer a diferença. E que apesar de terem ido por uma pressão de uma crise, nunca perdem o bom humor.”

“Eu creio muito na energia do meu país como um grande país. A situação política é circunstancial. Tem durado muito tempo mas é para a gente aprender a valorizar o que temos. Eu sinto que como a Venezuela não há. E vai ser melhor, inclusive,” fala Luísa com a certeza de que o futuro será positivo. “Agora é um pesadelo, mas vamos sair desse pesadelo, sem dúvidas. Mas talvez nós precisemos disso para valorizar o país que temos. Eu digo que não há mal que dure cem anos e nem corpo que resista. Então estou segura de que vamos sair e vai ser logo,” conclui.

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*Algo como em português dizer “Venezuelana raiz”, a expressão “de arepa en budare” faz alusão ao modo tradicional como os indígenas faziam o prato típico do país – a Arepa – em uma chapa de ferro redonda, chamada “budare”

Venezuela: Un hilo de esperanza en medio del caos

Mi tiempo en Venezuela fue corto. Llegué un día y me fui al siguiente. Y siento que necesitaba más para absorber la atmósfera del país que, sí, se está hundiendo en una crisis. Pero en cambio, tiene una gente que no se deja abatir. 

No pude detenerme mucho tiempo para las largas conversaciones que me gusta tener para crear el tipo de contenido que ves aquí porque sentarse y hablar, en realidad, es un hábito de la gente que no se preocupa tanto. Escuché mucho, porque en medio de una agotadora lucha diaria, siento que todos tenían algo que decir. Pero terminé prescindiendo de los registros formales porque hay cosas que de hecho no caben en un grabado y en un cuaderno. 

Dejé de lado muchas veces las formalidades para poder participar en conversaciones sobre la falta de gasolina -que sólo viene una vez al mes en Santa Elena de Uairén- y compartir recetas sobre cómo hacer que los alimentos rindan más. Me tomé el tiempo de descubrir la “verdadera profesión” de la gente antes de la crisis -como los músicos que se convirtieron en mineros y los pilotos que se convirtieron en comerciantes- y entender las razones que hacen de Venezuela un país para quedarse y no para emigrar. 

Vi gente cansada. Vi gente luchando por sobrevivir. Pero también vi gente esperanzada. También vi gente feliz. Incluso lo que más escuché fue que los venezolanos eran alegres y que una de las mayores pérdidas de la crisis era precisamente esta felicidad gratuita. Aun así, pude sentir la alegría que se escapaba en medio de las conversaciones, en el arte que nosotros, los brasileños, también conocemos bien que es “reírse de nuestra propia desgracia”. Y esta clase de alegría sólo podría haberla capturado con una cámara si no hubiera sido parte de ella. Tal vez si hubiera estado detrás de las lentes, no hubiera podido ver las fracciones de segundo en las que todo parecía en la más perfecta normalidad.

Elegí vivir esta felicidad clandestina para tratar de entender la situación en Venezuela más íntimamente. Volví comprendiendo más que antes. Comprendí que la vida siempre sigue y el ser humano siempre se adapta. Comprendí que las situaciones de crisis pueden despertar lo peor, pero también pueden despertar la fuerza. Una especie de fuerza que viene de dentro y que nadie puede quitar. Comprendí que la crisis también enseña una serie de valores que a veces hay que rescatar, como lo bueno que es estar cerca de tus seres queridos o cuán deliciosa es la comida en un plato. No sé si eso es bueno o malo. 

Tampoco puedo decir que no he visto tristeza y cierta nostalgia por lo que el país fue y no es más (y no volverá a serlo nunca más, porque no se vuelve al pasado). Pero aun así sentí que la esperanza era más fuerte, de la misma manera que sentí esperanza cuando estaba en la frontera un año antes.

Esta vez mi viaje fue diferente, el proceso vino de adentro y aquí está mi mirada sincera de lo que vi y experimenté. Esta serie es breve y tiene menos imágenes. Pero tiene más reflexiones. Espero que pueda transmitir un poco de lo que ha sido mi tiempo en suelo venezolano.

Venezuela: A spark of hope in the middle of chaos

My time in Venezuela was short. I arrived one day and left the next. And I feel that I needed more to absorb the atmosphere of the country that, yes, is sinking into a crisis. But in contrast, have people who don’t hold their heads down. 

I didn’t have the chance to stop for the long conversations I like to have to create the content that you usually see here because sitting down for a talk, in reality, it’s a habit of those who don’t have so much to worry about. I spent a lot of time listening, because, amidst a tiring daily struggle, I felt like everyone had something to say. But I gave up on formal interviews because there are things that don’t always fit into a recorder and some notes.

I left the formalities aside several times so I could participate in conversations about the lack of gasoline – which only arrives once a month in Santa Elena de Uairén – and share recipes on how to make food last longer. I took some time to discover people’s “real profession” before the crisis – like the musicians who became miners and pilots who became traders –  and understand the reasons that make Venezuela a country to stay and not migrate. 

I’ve seen tired people. I’ve seen people fighting for survival. But I’ve also seen hopeful people. I’ve also seen happy people. In fact, what I’ve heard most was that the Venezuelans were cheerful people and that one of the biggest losses of the crisis was precisely that happiness. But I could still feel a sparkle of joy sneaking into the middle of conversations, in the art that Brazilians also know too well that is “laughing at our misfortune”. And this kind of joy I could only have captured on camera if I hadn’t been part of it. Maybe if I was behind the lenses, I wouldn’t be able to notice the fractions of a second when everything seemed perfectly normal.

I chose to live this clandestine happiness to try to understand the real situation of Venezuela from an intimate perspective.

I came back understanding more than before. I understood that life always goes on and the human being always adapts. I understood that crises can unleash the worst in people, but they can also unleash strength. A kind of strength that comes from within and that no one can take away. I understood that a crisis also teaches a series of values that sometimes need to be rescued, such as how good it is to be close to those you love or how delicious it is food on your plate. I don’t know if that’s good or bad. 

I also can’t say I haven’t seen sadness and a certain nostalgia for what the country was and isn’t anymore (and it will never be again, because you can’t go back to the past). But I still felt that hope was the strongest feeling there, in the same way that I felt hope when I was at the border a year before.

This time my journey was different, the process came from within and here is my sincere perspective from what I saw and experienced. This series is brief and has fewer portraits. But it has more reflections. I hope it can capture a little bit of what my time on Venezuelan soil was like. 

Venezuela: Um fio de esperança em meio ao caos

Meu tempo na Venezuela foi curto. Cheguei num dia e fui no outro. E sinto que precisava de mais para absorver a atmosfera do país que, sim, está afundando em uma crise. Mas que, em contraposição, tem um povo que não se deixa abalar. 

Não consegui parar muito para as longas conversas que gosto de ter para criar o tipo de conteúdo que se vê aqui porque sentar e conversar, na realidade, é hábito de quem não está preocupado com tanto. Ouvi muito, porque em meio a uma luta cansativa e diária, sinto que todos tinham algo a falar. Mas acabei por dispensar registros formais porque tem coisas que nem sempre cabem em uma gravação e um bloco de notas. 

Deixei formalidades de lado muitas vezes pra poder participar em conversas sobre a falta da gasolina – que só chega 1 vez por mês em Santa Elena de Uairén – e dividir receitas de como fazer a comida render mais.Tomei tempo para descobrir a “profissão real” das pessoas antes da crise – tipo os músicos que viraram mineiros e pilotos que se tornaram comerciantes – e entender os motivos que fazem da Venezuela um país para ficar e não migrar. 

Eu vi gente cansada. Eu vi gente lutando por sobrevivência. Mas eu também vi gente esperançosa. Também vi gente alegre. Inclusive o que mais ouvi era que os Venezuelanos eram alegres e que uma das maiores perdas da crise foi justamente a dessa felicidade gratuita. Ainda assim, consegui sentir a alegria aparecer sorrateira no meio de conversas, na arte que nós, Brasileiros, também conhecemos bem que é a de “rir da própria desgraça”. E esse tipo de alegria eu só poderia ter capturado na câmera se eu não fizesse parte dela. Talvez se eu estivesse por trás das lentes, eu não conseguiria enxergar as frações de segundo em que tudo parecia na mais perfeita normalidade.

Escolhi viver essa felicidade clandestina para buscar entender a situação na Venezuela de forma mais íntima. Voltei entendendo mais do que antes. Entendi que a vida sempre continua e o ser humano sempre se adapta. Entendi que situações de crise podem despertar o pior mas também podem despertar força. Um tipo de força que vem de dentro e que ninguém pode tirar. Entendi que a crise também ensina uma série de valores que as vezes é preciso resgatar, tipo como é bom estar perto de quem se ama ou como comida no prato é gostosa. Não sei se isso é bom ou ruim. 

Também não posso dizer que não vi tristeza e uma certa nostalgia pelo o que o país foi e não é mais (e nunca voltará a ser, porque não se volta ao passado). Mas ainda senti que a esperança era mais forte, da mesma maneira que senti esperança quando estive na fronteira um ano antes.

Dessa vez a minha viagem foi diferente, o processo veio de dentro e aqui vai o meu sincero olhar sobre o que vi e vivi. Essa série é breve e tem menos retratos. Mas tem mais reflexões. Espero que ela possa transmitir um pouco do que foi o meu tempo em solo venezuelano.

Suely: The sadness that won’t leave the Córrego do Feijão

“My facial expression has even changed, I don’t smile as I do here anymore,” says Suely while she shows me the cover of a 2014 tourism magazine she featured because of her restaurant at the “Córrego do Feijão”.

Today, the Casa Velha restaurant is rented out to Vale and the wood-fired oven and the smell of homemade food is just one distant memory. The place now only bears the sadness and nostalgia of what it could have been if there was no disaster.

I met Suely at Brumadinho City Hall. She carried a sad look, a tired face and a heavy walk. The four walls of the administrative environment didn’t have any resemblance at all to the rural ambience of “Córrego do Feijão”. She seemed almost out of context in that place. 

She didn’t want to talk to me the first time I went there. She felt a lot of pain, both physical and emotional, and told me that she couldn’t talk about the tragedy without crying.

I came back the next day. And I asked her about her passions, in an attempt to soften the melancholy that surrounded her. “I’ve always been a nature lover, and that I inherited from my father. Everything was good for him. If he had rice, beans, pumpkins, everything from the backyard, in his plate, for him this was the most delicious food,” she recalls with affection.

Born and raised in “Córrego do Feijão”, Suely had her neighbourhood as “a corner of heaven”, where she cultivated her father’s love for nature. Where she dreamed of having her own house and her garden to cook homemade food for the community.

After 25 January, this dream was dragged along with the mud of the dam that collapsed. And the future became uncertainty. “So, what my father left for me to finish and what I liked to do, I can’t accomplish anymore. And I can’t help but thinking ‘will I be able to live where I grew up?”. 

These are Suely’s dilemmas today, in the face of the uncertainty left by the tragedy, especially in relation to the environmental consequences of the disaster, like soil contamination.

“This uncertainty has definitely aged me about 5 years from January until now. I’m sure I have aged. Because I’m in much more pain than before. And sadness, so much sadness. Living with it is very harmful to my health and it has certainly reduced my years of life,” she tells me with the hopelessness of those who were marked by tragedy.

For her, there is nothing to make the dam collapse be forgotten and, like many of the residents of the “Córrego”, Suely is only moving on with the help of medication. 

“The longest stretch that the mud has covered, I see it every day when I  come to work and to return home. So, it seems that it will never end. I’ve never taken medicine before and today I take it to sleep,” she says. “This sadness, in my opinion, will never leave Brumadinho, never again. It’s something that will never get out of my memory. I didn’t expect to die with this in my mind.”

The images of the days that followed the disaster still follow her, in a nightmare from which it is not possible to wake up. “I saw scenes worse than war. Helicopters arriving with bodies in those baskets, dripping with mud, 15 meters from my eyes. And we wonder: ‘who will it be? Will it be my friend? Is it someone’s mother? Is it someone’s son?’ These are scenes that will never fade from my memory,” she tells with the vivacity of those who are now haunted by the chaos of the mud.

In the end, she cannot contain the tears and leaves one last message. “What I would like to say is that all this should have been spared if it had not been the greed for money. There is no need to earn so much, to so much evil. That should have been spared. That’s all for me. Greed for money caused all this. For me, nothing will ever pay this cowardice,” Suely concludes.

Suely: A tristeza que ficou em Córrego do Feijão

“A minha fisionomia até mudou, eu não sorrio mais como aqui”, me diz Suely ao me mostrar a capa de uma revista do SEBRAE de 2014 em que apareceu por conta de seu restaurante no Córrego do Feijão.

Hoje, o restaurante Casa Velha está alugado para a Vale e o forno a lenha e o cheirinho de comida caseira é uma só uma lembrança distante. O lugar agora só carrega a tristeza do que poderia ter sido e não foi.

Conheci Suely na Câmara Municipal de Brumadinho, com olhar triste, fisionomia cansada e caminhar pesado. As quatro paredes do ambiente administrativo não lembrava em nada a vida rural do Córrego do Feijão. Ela parecia quase que fora de contexto naquele lugar. 

Não quis falar comigo na primeira vez que fui lá, sentia muita dor, física e emocional e me disse que não ia conseguir lembrar da tragédia sem chorar.

Voltei no dia seguinte. E lhe perguntei sobre suas paixões, na tentativa de amenizar a melancolia que a cercava. “Sempre fui uma apaixonada pela natureza, e isso eu herdei do meu pai. Tudo tava bom pra ele. Se tivesse na panela pra comer um arroz, um feijão, um angu, uma abóbora, tudo do quintal, para ele essa era a comida mais gostosa”, recorda com carinho.

Nascida e criada no Córrego do Feijão, Suely tinha o seu bairro como “um cantinho do céu”, onde cultivava o amor do pai pela natureza e planejava o sonho de ter a própria casa com uma horta para fazer quitanda na praça e na mercearia do irmão. 

Depois de 25 de Janeiro, esse sonho foi arrastado junto com a lama da barragem que se rompeu. E o futuro virou incerteza. “Hoje eu não sinto aquele cheiro de comida na praça mais, nem aquela harmonia de antes…Então assim, o que o meu pai deixou pra eu terminar e que eu gostava de fazer, eu nao consegui e eu penso assim, será que eu vou poder viver lá?”. 

São as indagações de Suely hoje, diante da dúvida das consequências deixadas pela tragédia, principalmente em relação à contaminação do solo.

“Essa incerteza definitivamente me envelheceu uns 5 anos de janeiro até agora, eu tenho certeza que envelheci. Porque estou com muito mais dores do que tinha antes, tristeza, muita tristeza. Conviver com isso é muito prejudicial para a minha saúde e com certeza diminuiu os meus anos de vida”, me afirma com a dor e desesperança de quem ficou marcada pela tragédia.

Para ela, não há nada que faça o rompimento da barragem ser esquecido e como muitos dos moradores do Córrego, Suely tem seguido com a ajuda de remédios. 

“O maior trecho que a lama percorreu, eu vejo todos os dias pra vir trabalhar e pra voltar pra casa. Então assim, parece que nunca vai ter fim. Eu nunca tomei remédio e hoje eu tomo pra dormir, inclusive já quebrei dois dentes de tensão”, conta.

“Essa tristeza, na minha opinião, nunca sairá de Brumadinho, nunca mais. É uma coisa que nunca vai sair da minha memória. Eu não esperava morrer com isso”.

As imagens dos dias que seguiram o desastre ainda a acompanham, em um pesadelo do qual não é possível acordar. “Eu vi cenas piores que guerra. Helicópteros chegando com os corpos naquelas cestinhas, pingando de lama, a 15 metros dos meus olhos. E a gente pensando: quem será? Será o meu amigo tal? Será a mãe de fulano? São cenas que nunca vão se apagar”, ela narra com a vivacidade de quem agora é assombrado pelo caos da lama.

A dor do impacto é tanta, que em sua declaração tristeza é estado permanente e me diz com convicção: “Eu sou muito triste com tudo o que aconteceu”. E ainda não consegue conter as lágrimas ao me dar um último recado sobre o acontecido.

“O que eu gostaria de falar é que tudo isso deveria ter sido poupado, se não fosse a ganância por dinheiro. Não precisava ganhar-se tanto, pra tanta covardia, pra tanta maldade. Isso deveria ter sido poupado. Pra mim é só isso. A ganância por dinheiro causou isso tudo. Pra mim essa covardia não tem nada pago. É muito triste”, Suely conclui.

Brumadinho: a dor do luto coletivo

Brumadinho é uma cidade triste. De ombros caídos e olhares cansados. O luto se sente nas ruas, em cada conversa casual com seus habitantes que não esquecem o dia em que a barragem se rompeu e tudo mudou. Se sente no pó marrom que cobre a cidade e na cor de lama do Rio Paraopeba, que faz a tragédia ser lembrada não só pelas pessoas, mas também pela natureza. Dizem que o tempo cura tudo, mas a dor parece não deixar a pequena cidade do interior de Minas Gerais tão cedo.

Estive lá exatos 6 meses depois do infame 25 de Janeiro. Adentrei por 4 dias pelo sofrimento e pela lama para tentar entender o que fica depois do crime. O que fica depois que já não se fala mais no assunto. Encontrei uma comunidade inteira atingida – em vários níveis. Sem parentes, sem amigos, sem colegas, sem vizinhos e sem reconhecer o lugar que antes era seu. Desacreditados com o futuro e abalados com um passado que não puderam controlar.

Doeu em tudo. 

Me doeu no coração ver tantos olhos cobertos de lágrimas e tanta gente devastada pela ausência que a tragédia deixou. Me doeu no pulmão respirar aquele cheiro pútrido da lama que ainda resta próximo a barragem. Me doeu a cabeça e me revirou o estômago ver o quão longe a ganância humana pode ir e o quão pouco uma vida vale diante dos lucros de uma empresa. Me doeu em algum lugar no fundo da alma ver o Rio Paraopeba morto e contaminado por minério. E me doeu em todo centímetro do meu corpo, da minha mente e do meu espírito assistir a uma cidade doente sem, de fato, poder fazer nada para curá-la além de ouvir suas histórias.

Por isso, eu grito. 

Eu grito pelas vidas que se foram e pelos sonhos interrompidos. Eu grito contra bárbarie cometida pela Vale. Eu grito pela natureza devastada pelos anos de mineração. E eu grito para que talvez essa dor se amenize um dia. 

As minhas palavras não me são suficientes para expressar tudo o que deve ser dito sobre o rompimento da barragem do Córrego do Feijão. Compartilho então as vozes todas que ouvi por lá – de cada um que me recebeu de coração aberto dentro da própria casa com um “cafézin”- para que elas possam ressoar para outros. E ter o mesmo efeito que tiveram sobre mim. Fica o recado: não há ganância, não há lucro e não há capital que valha mais que a vida humana.

Brumadinho: the anguish of collective grief

Brumadinho is a sad city. It is possible to feel the grief in the streets, in each casual conversation with its inhabitants who do not forget the day when Vale’s Bean Stream dam collapsed, changing everything. It is possible to feel it in the brown dust that covers the city and in the muddy colour of the Paraopeba River. They say that time heals everything, but the pain doesn’t seem to leave the small town in the interior of Minas Gerais so soon.

I was there exactly 6 months after the infamous 25th of January. For 4 days, I dived into suffering – and the mud – to try to understand what remains after the crime. What remains after no one talks about it anymore on the media. I found an entire community affected – at several levels. No relatives, no friends, no colleagues, no neighbours and no recognition of the place that was once theirs. In disbelief with the future and shaken by a past they couldn’t control.

It hurt in everything. 

It hurt my heart to see so many eyes covered with tears and so many people devastated by the absence that the tragedy left behind. It hurt me in my lungs to breathe that putrid smell of mud that still remains near the dam. It hurt my head and stomach to see how far human greed can go and how little life is worth in the face of a company’s profits. It hurt me somewhere deep in my soul to see the Paraopeba River dead and contaminated with ore. And it hurt every inch of my body, my mind and my spirit to watch a sick city without, in fact, being able to do anything to cure it but listen to its stories.

That’s why I scream. 

I scream for the lives that are gone and for the dreams that are interrupted. I scream against the barbaric act committed by Vale. I scream for the nature devastated by the years of mining. And I scream so that maybe this pain will diminish one day. 

My words are not enough for me to express everything that must be said about the collapse of the dam. But I share here all the voices I’ve heard there – the talks always joined by a “cafézin” at the houses of everyone who welcomed me with an open heart – so they can resonate with others. And have the same effect that they had on me. So they can serve as a message: there is no greed, there is no profit and there is no capital that is worth more than human life.

Alba and the Venezuelan resistance in Brazil

“When I left [Venezuela], I said, ‘I will be the resistance in Brazil because I will have a voice and I will tell the world who we are”. One of the pioneers of the first Boa Vista Welcoming Centre, Ms. Alba Marina is certainly a force of resistance in Brazilian lands – and still offers support to her compatriots so they can have a smoother transition when they arrive into another country.


Working in partnership with the NGO Fraternity Without Borders, Alba managed to put into practice the dream of creating a housing space in which the stigma of a refugee was denounced and deconstructed. In operation since December 2017, the Welcoming Centre is in constant transformation by those who call it home. “We don’t have a standard, a model, like ‘that’s how we had planned it’ here. It’s a lot based on our hearts, our logic and our common sense. It depends on what we want to improve and what we can do with the tools we have in our hands,” she says.

This is what makes the Centre so distinct from the region’s shelters, which are under the administration of the United Nations and the Brazilian Army, for example. There, each person is responsible for some kind of task or activity to keep the structure functioning, from cooking to entertainment for the children. “We don’t compete with anyone, because we don’t do the same work,” Alba says. “It’s my dream that we become a point of reference and importance in the world. A reference for humanity especially those displace – the immigrants, in a situation of refuge, crisis, and protagonists of their lives, capable of having control of their own lives. They just need to be seen, for people to believe that they can do things”, she adds with the sparkle in her eyes with a strong belief in social change. But it goes beyond that.

What makes the Welcoming Centre special is the vision behind Alba’s dream and hope that there is the story and linkage in every person who, just like everyone else there, was forced to be a migrant. There is a person whose resistance and bravery is to find a home away from home. “I even said once that the immigrant was an orphan from ‘there’. That it searched in the eyes of others, the lost gazes; that it searched in the hugs it received in Brazil, the hugs from friends, the love of thy neighbour; and the coffee here, it tried to feel the taste of coffee there. Our whole process is a process of ‘where is what I left behind’ and ‘the life I used to live, I want it again’. It’s a constant struggle because one had no option but to leave”, Alba narrates with the pain that only those who have experienced the hardship of having to leave home.


Alba carries in her words the wisdom of those who understand how important it is to welcome and look at the other with empathy because she herself experienced what it means to be displaced leaving everything she loved behind. “I never thought in my life that I would leave Venezuela. Now we are being forced to be immigrants without consent and any preparation. And the other countries are being forced to receive immigrants in retrospect. Because when I was in my country and saw immigration in Europe I thought ‘ah, they’re in Europe’. Don’t you know that you can be one of them?”

Alba reflects on how this process could be made easier, less painful if tolerance was cultivated before nationalism. “You are educated to be a nationalist. You are educated to think that what is yours is better than others. That’s bad. You have to be educated to be a citizen of the world. To see everyone as human beings, to be tolerant and to love others, to love the mixture. The Latin Americans are a total mixture, you know. How can we forget this reality? Why aren’t we reminded of this from the beginning? It would be much easier. We would accept each other. You would be able to look into my eyes and see ‘you’re just like me’”.

With sorrow, Alba still mentions the greatest pain of this whole situation is the loss of cultural identity loss and being stateless. “They asked me once, ‘Do you want to go back?’ I said, ‘Man, I want to go back. But could I go back?’ No. First, because I have nowhere to go back to. The country where I grew up, is not a country anymore. The structure is there, but my neighbours, my friends, my culture, my society, the one that educated me, doesn’t exist. It was destroyed”, she says. “I see them dying of hunger. And not only from hunger. To die from infinite sadness is the greatest lost and tragedy of humanity. People are dying from sadness. We were known as the happiest people. We still laugh at our misfortunes, sad as we are, but what I see today is desolation. People are walking with their shoulders down, their heads down, sad eyes…tired. What have they done to my country? I don’t know,” she says with the tired eyes of those who feel for her people.


Even so, Alba is hopeful and strives for a solution: “create things,” just like she did with the Welcoming Centre in Boa Vista. “We have to show the world who we are. To be Venezuela, not Venezuelan, outside Venezuela. Anywhere in the world. So that, when the day comes, we can go back and re-build our country and ourselves. A better country. It doesn’t mean it’s the best country, but what we thought our country was, you know? That’s what I have to tell you”, she concludes with a steely determination and the strength to resist and move forward.

Alba e a resistência Venezuelana no Brasil

“Quando eu saí de lá [da Venezuela], eu falei ‘eu vou ser resistência no Brasil’. Porque eu vou ter uma voz e eu vou dizer pro mundo quem a gente é”. Idealizadora do primeiro Centro de Acolhida de Boa Vista, Alba Marina com certeza resiste em terras Brasileiras – e ainda oferece suporte aos seus compatriotas para que eles possam ter uma transição menos sofrida ao chegar em outro país.

Trabalhando em parceria com a ONG Fraternidade sem Fronteiras, Alba conseguiu colocar em prática o sonho de criar um espaço de moradia em que o estigma de refugiado fosse desconstruído. Em funcionamento desde dezembro de 2017, o Centro de Acolhida está em constante transformação por aqueles que o habitam. “Esse lugar aqui não tem um padrão, um modelo, tipo ‘é assim que a gente tinha planejado’. É muito do que o nosso coração, o que a nossa lógica e o nosso senso comum acha. Depende do que a gente quer melhorar e o que a gente pode fazer com as ferramentas que a gente têm nas mãos”, conta.

É isso que torna o Centro distinto de abrigos da região, que ficam sob administração das Nações Unidas e do Exército Brasileiro, por exemplo. Lá, cada pessoa é responsável por algum tipo de atividade para manter a estrutura funcionando, desde a cozinha ao entretenimento para as crianças. “A gente não compete com ninguém, porque nós não fazemos o mesmo trabalho”, ressalta Alba. “É o meu sonho que nós sejamos referência no mundo. Mas referência de seres humanos, que, como imigrantes, numa situação de refúgio, de crise, são protagonistas da sua vida e capazes de criar. Eles só precisam ser enxergados, que as pessoas acreditem que eles podem”, completa com o brilho nos olhos de quem realmente acredita na mudança.

Mas ainda vai além disso. O Centro de Acolhida é tão particular porque por trás do sonho e idealização de Alba tem a história de uma pessoa, que, assim como todos ali, foi forçada a ser migrante. Existe uma pessoa cuja a resistência é também encontrar uma casa longe de casa. “Eu até disse uma vez, que o imigrante era um órfão de lá. Que procurava nos olhares dos outros, os olhares perdidos; que procurava nos abraços que recebia no Brasil, o abraço dos amigos, o amor do vizinho; o café daqui ele tenta sentir o sabor do café de lá. Todo o nosso processo é um processo de ‘cadê o que eu deixei para trás?’ e ‘o que eu vivi atrás, eu quero de novo’. É um duelo constante, porque você não queria partir”, narra com a dor que só quem já teve que sair da sua terra pode sentir.

Alba carrega nas suas palavras a sabedoria de quem entende o quanto é importante acolher e olhar para o outro com empatia justamente por ter se visto diante do despreparo que é deixar tudo o que ama para trás. “Eu nunca pensei na vida que eu fosse sair da Venezuela. Agora a gente ta sendo forçado a ser imigrante sem preparo nenhum. E os outros países estão sendo forçados a receber imigrantes sem preparo nenhum. Porque quando eu tava no meu país e via a imigração na Europa eu pensava ‘ah, lá na Europa’. Você não sabe que você pode ser uma delas?”, declara.

Ela reflete em como esse processo poderia ser menos doloroso se a tolerância fosse cultivada antes do nacionalismo. “Você é educado pra ser nacionalista. Você é educado pra achar que o que é seu é o melhor. Isso é ruim. Você tem que ser educado pra ser cidadão do mundo. Pra enxergar todos como seres humanos, pra ser tolerante, pra amar os outros, amar a mistura.Você sabe, o Latino Americano é uma mistura total. Como vamos esquecer essa realidade? Porque a gente não é lembrado disso desde o começo? Seria muito mais fácil. A gente conseguiria se aceitar. Você conseguiria me olhar e ver ‘você é igual a mim’”.

Com pesar, Alba ainda menciona a dor maior que é a perda de identidade do próprio país. “Me perguntaram uma vez ‘você quer voltar?’ Eu disse ‘cara, eu quero voltar. Mas eu posso voltar?’ Primeiro porque eu não tenho pra onde voltar, o país aonde eu cresci, nao é um país. A estrutura ta lá, mas os meus vizinhos, meus amigos, minha cultura, minha sociedade, a que me educou, existe? Ela foi destruída”, conta. “Eu vejo eles morrendo de fome. E não só de fome. Sabe qual é a morte mais feia? A de tristeza. São pessoas morrendo de tristeza. Nós éramos conhecidos como o povo mais feliz. A gente ri, ainda, das nossas desgraças. Assim que a gente é, mas o que eu vejo hoje é desolação. São pessoas caminhando de ombros caídos, cabeça baixa, olhos tristes…cansados. O que fizeram com o meu país? Eu não sei”, fala com os olhos cansados de quem sente pelo seu povo.

Mesmo assim, Alba vê a solução: “criar coisas”, assim como ela fez com o Centro de Acolhida em Boa Vista. “A gente tem que mostrar pro mundo o que a gente é. Ser Venezuela, não Venezuelano, fora da Venezuela. Em qualquer lugar do mundo. Pra que, quando chegue o dia, gente possa voltar e construir o nosso país. Um país melhor. Não quer dizer que é o melhor país, mas o que a gente achava que o nosso país era, sabe? É isso que eu tenho pra te dizer”, conclui com a força de quem sempre vai ser resistência.