Roraima: onde as complexidades vão além de um fluxo migratório

Dona Raimunda vive em Boa Vista desde 1983, vinda de Manaus. Como muitos de seus conterrâneos, “veio para conhecer e nunca mais voltou”. O discurso dela é de uma complexidade que só Roraima parece carregar.

Numa conversa informal no Centro de Artesanato da cidade, ela reclama para mim de como a população Venezuelana mudou a vida dos habitantes de Boa Vista. “Antes a gente dormia até de janela aberta por aqui. Agora a gente vive agarrado na bolsa.” Menciona o abandono do governo para com “o paraíso” que escolheu chamar de lar e diz ter esperanças de melhoras com “esse novo [governo] que assumiu agora”. Elogia a presença do exército na rua e diz que sem eles “só falta te roubarem dentro do banco”. Ainda narra inúmeros casos de violência na capital e os atribui 100% aos novos imigrantes.

Ao mesmo tempo, narra com compaixão a história da família Venezuelana que mora na sua rua. Fala com ternura de uma mãe, um pai e três filhos que dividiam um colchão só e ainda assim pagavam o aluguel com dificuldade. Doou um colchão da casa dela para eles terem mais conforto para dormir. Disse que ajudou com tudo o que pôde e que seu filho inclusive conseguiu um emprego para o pai em uma sorveteria.

Raimunda também conta da sopa que eles insistem em levar na casa dela em agradecimento pela ajuda toda, apelidado pelos netos de “caldo das irmãs Venezuelanas”. “Mas a comida deles é muito diferente, sem tempero, não gosto muito não”, confessa.

Se compadece com a fome e miséria que chega da Venezuela e diz que não aguenta ver as mães e bebês de colo que chegam. Nem se conforma com as senhoras de idade que cruzam a fronteira carregando o que podem nas costas. Chama Maduro de “Doido de lá” e espera que a situação melhore do outro lado da fronteira. “Olha, eu não desejo isso nem ao meu pior inimigo”. E lamenta completando com a frase, “A Venezuela é igual a Roraima, é rica igual”.

Dona Raimunda é o retrato de quem se vê acuado pelas mudanças que o fluxo de gente traz. Nas próprias palavras dela “com o progresso vêm as consequências”. O discurso dela também é a encruzilhada de quem se identifica na imagem do migrante que viu em Roraima uma perspectiva de lar. “O pai ou tio do meu vizinho veio da Venezuela para cá e foi para Manaus. Depois voltou pra cá. Aqui é bom demais, eu mesma não volto mais pra Manaus”, comenta quase num orgulho de saber que a terra que escolheu amar também é amada por outros que vem de fora.

O universo particular que permeia a capital Roraimense só é possível de ser explicado ao olhar nos olhos manauaras e intensos desses que nutrem um amor por uma terra onde não nasceram e ainda assim não se veem migrantes. Desses que têm medo de perder o seu “paraíso” ao abrir espaço para o outro – que é tão parecido consigo. Não por egoísmo, mas exatamente por saber o como é dificil a luta para encontrar o seu lugar no mundo.

A Mão Amiga do Exército Brasileiro em Pacaraima

O primeiro rosto que os imigrantes encontram ao cruzar a fronteira é o do militar. E isso talvez seja motivo de medo e preocupação em muitos lugares do mundo (inclusive algumas outras partes do Brasil). Não em Pacaraima. Na cidade fronteira entre Brasil e Venezuela os militares tem um propósito: acolher.

A “Operação Acolhida” foi lançada ano passado como missão humanitária em Roraima para “atender os irmãos Venezuelanos que chegam no país”, de acordo com o Ministério da Defesa. E como me impressionou aprender que o exército, de fato, tem uma “Mão Amiga”, bem diferente do “Braço Forte” pra falar no jargão dos próprios militares. Durante o período que estive lá, o exército sempre estava presente de alguma forma; seja no exercício de ações humanitárias, seja nas menções em todas as entrevistas que fiz com pessoas envolvidas no fluxo migratório.

Por isso fui acompanhar de perto o trabalho deles no Centro de Triagem de Pacaraima – o Petrig. “Nós somos referência no mundo. As missões de paz do exército Brasileiro são reconhecidas internacionalmente, mas pouco se fala disso”, comenta o Major Marcus Fabius enquanto me acompanha em um tour na estrutura montada especialmente para a missão em Junho de 2018.

É lá que se faz toda a documentação necessária para a entrada dos novos migrantes; incluindo vacinação, carteira de trabalho e CPF. Lá também é o lugar onde estão reunidas organizações como a ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), OIM (Organização Internacional para Migração) e UNFPA (United Nations Population Fund), que dão suporte em assuntos desde abrigo à saúde sexual.

Mas, de tudo, o que mais me chamou atenção foram os detalhes, as conversas, os pequenos gestos de gentileza que presenciei por acaso. Eu vi de fato carinho e acolhimento, que se expressava tanto no olhar cansado e na fala sincera de todos os militares com quem conversei e que me contaram sobre o desgaste emocional de estar imerso 24 horas na missão; quanto em cenas como um oficial brincando com uma menininha que se aproximou dele com uma garrafa de água.

A Operação Acolhida pode ser de fato chamada de Acolhida depois que eu passei pela área de vacinação e um oficial me falou que a parte mais difícil eram as crianças chorando com medo da vacina. Para acalmá-las, a equipe comprou com o próprio dinheiro um USB e encheu de desenhos animados em Espanhol para passar na tela do espaço de espera como distração para os pequenos.

O acolhimento também está na seção onde se encontra o banner “Tu familia puede saber que estás bien. Contáctala” (Sua família pode saber que você está bem. Contate-a) para apresentar o serviço gratuito da Cruz Vermelha de Restabelecimento de laços familiares. Está na agente da ACNUR, que parou tudo o que estava fazendo e teve que adiar a entrevista que eu pedi para ela para poder atender uma mulher grávida, com mais um filho no braço pedindo “por favor” por abrigo porque o filho tinha fome e ela não tinha para onde ir.

O envolvimento total dos militares com a missão se mostra quando, durante o tour, o Major Marcus Fabius me explica sobre o alojamento temporário que existe no Petrig. Em todo final de expediente, é preciso definir quem é elegível para passar a noite no alojamento que tem estadia máxima de 24h e é destinado apenas para pessoas consideradas em situação de alto risco antes de serem encaminhadas para um abrigo oficial da ACNUR. Sua voz pesa ao me falar da dificuldade de fazer a decisão dos mais vulneráveis entre os já vulneráveis. “É muito difícil. A gente vê gente em todo tipo de situação aqui. Outro dia tinha uma família com oito filhos, não tem como deixar eles na rua. O coração fica apertado quando a gente tem que decidir quem vai e quem fica”, comenta o Major.

O tenente Bruno, coordenador do alojamento, repete o sentimento em sua fala. Conta do desgaste emocional de lidar com a vulnerabilidade humana diariamente durante os meses que tem servido na missão. Mas também ressalta a gratidão que sente por fazer parte da Acolhida pelo carinho que recebe de volta por parte dos acolhidos. “Já teve até criança com nome em homenagem a mim aqui. Saiu até no Instagram da Acnur Américas”, fala com a emoção de quem sabe que vai poder guardar a história com afeto pra sempre.

Depois de conhecer a estrutura da missão, termino a visita perguntando ao Major Marcus Fabius sobre a opinião dele sobre a importância da Operação Acolhida. E a resposta não poderia resumir melhor a sinceridade e empatia que eu senti durante o tour. “Se a situação fosse contrária, eu gostaria que o povo Brasileiro fosse acolhido da mesma forma que a gente acolhe a população Venezuelana aqui. Acolher o imigrante é um trabalho de valorização à vida”, concluiu.

The open helping hand: Brazilian Army Mission

The initial encounter the immigrants face when crossing the border is the military. This indeed may be a source of fear and concern including some other parts of Brazil; but not in Pacaraima. In the border city between Brazil and Venezuela, the military extends it’s welcome and helping hand.

The Operação Acolhida (Operation Welcome) was launched last year as a humanitarian mission in Roraima to “serve the Venezuelan brothers who arrive in the country,” according to the Ministry of Defense. And how impressed I was to learn that the army has, indeed, a “Friendly Hand,” that is quite different from their “Strong Arm” – insofar as military’s talk is concerned & certainly the images that perhaps is better known of.

During the time I was there, the army’s presence was felt, whether in the exercise of humanitarian actions or in the mentions in all the interviews I was able to conduct with people involved in the migratory influx.

That’s why I’ve decided to follow their work closely at the Pacaraima Triage Centre (Petrig). “We are a reference in the world. The peace missions of the Brazilian army are internationally recognised, but little is said about it”, says Major Marcus Fabius while walking me on a tour around the structure set up especially for the mission in June 2018.

All the necessary documentation for the entry of new migrants is processed here; including vaccination, work permit and ID. It is also at the Triage Centre that organisations such as UNHCR (United Nations High Commissioner for Refugees), IOM (International Organization for Migration) and UNFPA (United Nations Population Fund) are gathered to provide support in matters including shelter, sexual health to name just a few.

With all the processes put in place, what caught my attention was the intimate details of humanity. The conversations, acts and gestures of kindness that I constantly witnessed at the Centre. I saw true affection and welcome expressed both in the tired gaze and sincere speech of all the officials I spoke with who told me about the emotional challenges of being immersed 24 hours in the mission; to scenes of an officer playing with a little girl who approached him with a bottle of water.

The Welcome Operation has opened it’s compassionate arm, showing true welcome. This is what I observed walking past the vaccination area and the Officer told me that the hardest part was hearing the children crying in fear of the vaccination. To calm these fears, they entertained the children by putting together a catalogue of movies in a USB including cartoons in Spanish to screen on the waiting space TV as a welcome distraction for the little ones.

The Welcoming was also present in the banner “Tu familia puede saber que estás bien. Contáctala” (Your family may know that you are well. Contact them) to advertise the free service of the Red Cross for Restoring Family Ties. Amidst all of these, officers working showed dedication in all facets of the welcoming including the moment a UNHCR agent who was about to give me an interview stopped everything she was doing to look after a pregnant woman, holding another child in her arm asking “please” for shelter because her kid was hungry and she had nowhere to go.

The full involvement of the military in the mission was complex and non-stop as Major Fabius explained to me in greater detail for example about the temporary accommodation facilities of the Petrig. Careful assessments are made to identify those eligible to spend the night at the emergency accommodation that has a maximum stay of 24 hours and is primarily for high risk immigrants before being sent to an official UNHCR shelter for further action and processing.

The Major’s voice is heavy when he tells me of the difficulty of making the decision of who is the most deserving among the already vulnerable. “It is very difficult. We see people in all kinds of situations here. The other day we had a family with eight children, there is no way we can leave them on the street. The heart gets tight when we have to decide who goes and who stays,” says the Major.

Lieutenant Bruno, the temporary Accommodation Coordinator, shares these feelings too. He mentions the emotional stress of dealing with human vulnerability on a daily basis since he started serving on the mission. But he also stresses the gratitude he feels for being part of the Operation due to the affection he gets back from those who are welcomed. “We even had a child that was named after me here. It was published on the Acnur Americas Instagram account”, he says with the emotion of those who will have a story to keep with affection forever.

I end my visit to the Triage Centre by asking Major Fabius about his opinion on the importance of the Welcome Operation. And the answer was compelling with a deep sense of pride and duty. A feeling I knew all too well on my experience here. “If the situation were contrary, I would like the Brazilian people to be welcomed in the same way that we welcome the Venezuelan population here. Welcoming the immigrant is a work of valuing life”, he concluded.

Miriam e a luta pelo reencantamento dos sonhos

“Leila, faz dois anos que eu não tiro férias. Faz dois anos que eu to no fluxo migratório”, é o que Miriam me confessa enquanto conversamos sentadas na histórica mesa de madeira da Casa da Música. Foi lá que aconteceram grandes decisões sobre o acolhimento de imigrantes em Pacaraima: Primeira reunião da ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), capacitação da OIM (Organização Internacional para Migrações), decisão da abertura de um abrigo para os Waraós e tantas outras. Isso porque Miriam é 100% dedicação e amor ao que faz, nas palavras dela, “reencantar os sonhos”.

“Maestrina” do Coral Canarinhos da Amazônia, Miriam vem trabalhando com jovens e crianças em situação de risco desde 1997. Primeiro em Boa Vista, capital Roraimense. Depois, do outro lado da fronteira, em Santa Elena de Uiarén, com crianças Brasileiras vivendo lá. Até o projeto mudar definitivamente para Pacaraima, em 2017, e atender imigrantes.

Para ela, foi necessário migrar a Associação para o lado Brasileiro novamente quando a situação política na Venezuela já não permitia mais a execução do projeto. “Foi interessante porque eu percebi [em Santa Elena] que ‘olha, não dá pra continuar nesse sistema que está desconstruindo o país’. A gente olhou profundamente e viu que, de repente, tudo era um caos. Dai a gente vê um sistema político que não funcionou. Por mais bem intencionado que Chávez era, não funcionou. É muito simples de entender isso”, analisa.

O Coral então ganhou status de “fio condutor” do que na verdade é todo um sistema de apoio e acolhimento para famílias Venezuelanas em Pacaraima. Miriam é referência na cidade. As pessoas sabem que é até ela que é preciso ir quando chegam e necessitam de ajuda. Muito mais do que “maestrina”, Miriam também desempenha o papel de amiga, psicóloga, assistente social, advogada…e o que for preciso para garantir a segurança de quem chega. “Nós trabalhamos com as famílias, com a capacitação das mulheres para o mercado de trabalho, com rodas de conversa, com empoderamento, com proteção. E isso tem feito da Associação um espaço. Em qualquer lugar, a gente vai carregando esse patrimônio histórico de resgatar a vida das pessoas”, me conta sobre como a Canarinhos da Amazônia funciona.

Durante a conversa que temos, logo antes das crianças do coral chegarem para o almoço, ela me conta como é “conviver com a fome diariamente” desde que mudou-se para Pacaraima. “Quando as crianças chegam, que elas atravessam a fronteira, elas vêm num estado deplorável de fome, de desnutrição, de desespero, de falta completa de perspectiva. Daí o que a gente pode fazer?”. Como boa “encantadora de sonhos” que é, ela continua: “Vamos sentar e começar o processo da cura. Abrir os olhos, reencantar os sonhos. Isso é o primeiro trabalho que a gente faz depois de alimentar o corpo”.

Mais do que isso, a luta de Miriam é para que as pessoas consigam encontrar o seu equilíbrio e senso de normalidade de volta depois de sair do caos que está o outro lado da fronteira. “Se me pergunta, o que é a Casa da Música? É um espaço pacífico de convivência. Acontece o que lá? Acontece de tudo. Tudo de bom. Entende?. Lá as pessoas vão e têm comida, as pessoas têm carinho, têm acolhida, têm proteção. As pessoas passam de novo a sonhar, ter paz na sua vida”, me conta. “A gente só consegue caminhar se estiver harmoniosamente em paz. Se tiver muito sem saber onde você está e o que você está fazendo, você não consegue sair do lugar. Tem que ter essa neutralidade pra saber o que quer e poder seguir”, me resume com a sabedoria que só quem dedicou a vida a abrir caminhos e dar rumos poderia ter.

Ser encantadora de sonhos em ambientes de crise, no entanto, não é tarefa fácil. Miriam já encarou situações extremas de conflito na fronteira. Um dos episódios que me conta com indignação foi de quando um grupo de manifestantes ateou fogo no local onde viviam cerca de 30 famílias Venezuelanas no centro de Pacaraima, em agosto de 2018. “Foi horrível. Foi muito complicado, por que você não sabia a quem recorrer. A cidade parecia que tava pegando fogo, em todo lugar que você via tinha fogo. Era eu, eu mesma e essas pessoas. Enfim, foi traumático”, narra com a intensidade de quem viveu o horror da barbárie humana e lutou para conseguir abrigar todos na sua casa.

Me fala que tudo se organizou melhor depois da chegada do Exército Brasileiro para a missão humanitária, chamada de Operação Acolhida. Mas que o sentimento xenofóbico ainda é muito grande. “Principalmente do poder público que fomenta isso. Olhando de um ponto de vista -com o olhar das outras pessoas- tem muita gente que não entendeu e que não aceita. ‘É uma invasão no meu país, no meu território, na minha cidade’”, afirma.

Outro episódio marcante que me narra -dessa vez por mensagem- é o de 23 de Fevereiro desse ano, quando houve uma tentativa frustrada de envio de ajuda humanitária para o outro lado da fronteira. Na ocasião, o exército Venezuelano abriu fogo contra pessoas que tentavam atravessar ao lado Brasileiro. “Eu não tenho nenhuma questão ideológica a defender esse déspota Maduro, eu vejo mais além. Eu olho o ser humano, entende? Eu to vendo as pessoas que estão correndo e atravessando a fronteira pelos caminhos ilegais, homens e mulheres desesperadas. Enfim, são dois anos convivendo com essa migração, de corpo e alma e sentindo na pele. Vendo sonhos destruídos e tentando reencantar outros, mas hoje é o dia que eu me sinto mais impotente. O clima é de pavor”, me conta com a dor de quem luta pelo amor numa guerra dominada pelo poder.

Ainda assim, Miriam resiste. E vive um dia de cada vez. Seguindo na sua missão de reencantar sonhos de centenas de famílias que chegam a Pacaraima sem saber como será o futuro e assombrados por um passado de fome e miséria. “De alguma forma, a gente precisa ter o nosso Jardim do Éden, que é o teu momento de paz nas coisas que você acredita. E você precisa acreditar que elas estão aí pra te auxiliar, que o universo não é só esse caos que nós vivemos no planeta”, finaliza com esperança.

Miriam and the fight for the rekindle of dreams

“Leila, I have not taken a vacation in two years. I’ve been in the migration influx for two years”, is what Miriam shares with me as we talk at the historic wooden table of the Casa da Música (House of Music). Major decisions about the welcoming of immigrants in Pacaraima took place here: First meeting of UNHCR (United Nations High Commissioner for Refugees), IOM training (International Organization for Migration), the decision to open a shelter for the Waraós and many others.

“Maestrina” of the Canarinhos da Amazônia Choir, Miriam has been working with young people and children at risk since 1997.That’s because Miriam is very dedicated and love what she does, in her own words, a way to “rekindle dreams”. First in Boa Vista, Roraima’s capital city. Then, on the Venezuelan side of the border, in Santa Elena de Uiarén, with Brazilian children living there. Until the project had to be moved to Pacaraima in 2017 and focus on immigrants.

For her, it was necessary to move the Association to the Brazilian side again when the political situation in Venezuela reached critical point which meant the project could no longer run. “It was interesting because I realised [in Santa Elena] that ‘look, you cannot continue in this system that is devastating the country’. We looked deeply and saw that, suddenly, everything was in chaos. So, we see a political system that didn’t work. As well intended as Chávez was, it didn’t work. It’s very simple to understand that”, she says.

The Choir then gained the status of  “guiding thread” of what is, in fact, a whole system of support and welcome for Venezuelan families in Pacaraima. Miriam is a point of contact in town for newly arrived migrants. Much more than a “Maestrina”, she also plays the role of friend, psychologist, social worker, lawyer … and whatever it takes to ensure the safety of those who need help. “We work with families, job support and training for women, empowerment and protection. This has strengthened the Association’s standing. Anywhere we go, we are carrying this historical patrimony of rescuing people’s lives”, is what she tells me how the Canarinhos da Amazônia works.

In our conversation, just before the kid’s choir arrived for lunch, she tells me what it’s like to “deal with hunger every day” since moving to Pacaraima. “When the children arrive, when they cross the border, they come in a deplorable state of hunger, malnutrition, despair and complete lack of perspective. So what can we do? We sit down and begin the healing process. Open their eyes, rekindle their dreams. This is the first job we do after feeding the body”.

More than that, Miriam’s mission is for people to be able to not lose hope, find their balance and sense of normalcy back after from the chaos across the border. “If you ask me, what is the Casa da Música all about? It is a peaceful space of coexistence. What happens there? Everything. All the best. Do you understand? There, people go and have food, have affection, have shelter, have protection…People rekindle their dreams, they once again have peace in their lives”, she tells me. “You can only go forward if you are harmoniously in peace with yourself. If you don’t know exactly where you are and what you are doing, you cannot go anywhere. You need to find this balance to know what you want and be able to keep on going”, she sums up with the wisdom that only those who dedicated their lives to guiding paths could have.

Being a “dream enchantress” in a crisis environment, however, is no easy task. Miriam has faced extreme conflict situations at the border. One of the episodes that she tells me with indignation was when a group of protesters set fire to the place where about 30 Venezuelan families lived in downtown Pacaraima in August 2018. “It was horrible. It was very complicated because you didn’t know who to turn to. The city seemed to be on fire, everywhere you looked around was on fire. It was me, myself, and these people. It was traumatic”, she recounts with the intensity of who lived the horror of human barbarism and fought to be able to shelter everyone in her house.

She tells me that everything got better organised after the arrival of the Brazilian Army for the humanitarian mission, called Operação Acolhida (Operation Welcome). But that the xenophobic feeling is still present. “[The xenophobia comes] Primarily from the public power that encourages this. Looking with the eyes of other people, there are many who didn’t understand and who don’t accept. ‘It’s an invasion in my country, in my territory, in my city’”, she says.

Another vital moment in the crisis that she recently shared with me through a message – was on February 23rd of this year, when there was a failed attempt to send humanitarian aid to the other side of the border and the Venezuelan army opened fire on people trying to cross to the Brazilian side. “I have no ideological reasons to defend this despicable Maduro. I look ahead. I look at the human being, you know? I see the people who are running and crossing the border by the illegal paths, desperate men and women. Two years of living inside this migration crisis, body and soul and feeling on the skin, seeing dreams destroyed and trying to rekindle others. But today is the day that I feel more powerless”, she tells me with the pain of those who fight for love in a war dominated by power politics.

And yet, Miriam endures and continues to find strength to go forward. And live one day at a time. Following her mission of rekindling dreams of hundreds of families who arrive at Pacaraima without knowing what the future holds and haunted by a past filled with terror, hunger and misery. “Somehow, we need to have our Garden of Eden, which is our moment of peace in the things that we believe. And we have to believe that they are there to help us, that the universe is not this chaos that we live on the planet”, she concludes with hope.

Milagros: a voz do povo Waraó em terras Brasileiras

Milagros tem a voz doce que só alguém com esse nome poderia ter. Seu sorriso e tranquilidade no olhar quase escondem a dor e angústia que me narra casualmente enquanto assiste ao ensaio do Coral Canarinhos da Amazônia no qual sua filha, Rosa Mística, canta.

Ela fala da vida do outro lado da fronteira em detalhes. Os horrores pelos quais a sua família passou são difíceis de ouvir. E não surpreende que ela aprecie tudo no novo cotidiano Brasileiro em que eles estão vivendo. As coisas mais simples passam despercebido do lado do privilégio, como poder fazer refeições regulares ou lavar a roupa dão para a família um senso de normalidade de novo.

O jeito dela encarar a vida e como se diz agradecida por ter sido recebida no país que chamo de lar só me faz pensar em como Milagros foi, de fato, um milagre na minha vida. Conhecê-la e ouvir suas experiências e história me fez colocar todos os meus valores em perspectiva. Me fez entender a força e persistência de um povo que é forçado a migrar. Também me fez compreender a dimensão do que é ser privado todos os direitos humanos básicos, como alimento, itens de higiene pessoal e o direito à dignidade. E, ainda assim, continuar lutando, vivendo um dia após o outro sem nunca perder a fé na vida. A conversa com Milagros foi uma benção que eu nunca vou esquecer e eu compartilho a trajetória dela aqui na esperança de passar um tanto da energia que ela me passou.

“Quando chegamos aqui dentro, encontramos muita comida. É como dizer que, bem…eu chorei quando vi bastante comida. Minhas filhas se alegraram e disseram ‘mami, tem muita comida aqui’”

Milagros faz parte de uma das centenas de famílias de indígenas Waraó que deixou a região do baixo delta na Venezuela para chegar ao estado de Roraima. A viagem definitivamente só pode ser feita inspirada pelo desespero de sair do pesadelo em que se encontram. “Viemos de lá sem comer. Passamos dois dias, um em San Félix e outro em Santa Elena. Em Santa Elena passamos um dia completo porque não tínhamos como chegar até aqui no Brasil”, fala lembrando da fome que não deixava a sua família na Venezuela. “Meus filhos choravam. Me pediam, ‘Mami, porque papai não nos compra algo para comer?’ e não tínhamos como comprar. O que podíamos falar? Só Deus. Tinha fé”.

Ela ainda fala da emoção de quando finalmente conseguiu chegar a divisa de países e encontrou um bem que já fazia falta há tempo: comida. “Quando chegamos aqui dentro, encontramos muita comida. É como dizer que, bem…eu chorei quando vi bastante comida. Minhas filhas se alegraram e disseram ‘mami, tem muita comida aqui’”, narra com a intensidade que só uma mãe que já viu os filhos passarem fome pode ter.

Também me descreve as dificuldades das atividades cotidianas para que eu entenda a insustentabilidade da situação. “Como a gente fazia para lavar a roupa? A gente esquentava a água em uma panela grande e deixávamos lá por 20 minutos. Depois a gente tirava e passava água fria. Ficava meio lavado, mas a gente tinha que usar assim”.

O tom da voz dela e a sinceridade no olhar não abrem espaço para desconfiança. “Falar, pensar na Venezuela, na situação que passamos é horrível, uma tristeza. De verdade, quando falamos da nossa terra, nos dá vontade de chorar. Muita gente não passa por isso, mas eu passei e o que estou te contando é verdade”.

O sentimento agora em terras Brasileiras, no entanto, é bem diferente. A gratidão de ter podido cruzar a fronteira e ser recebida em Pacaraima é evidente durante a conversa. Me afirma diversas vezes o quanto se sente feliz em ter mudado a realidade em que vivia. “O destino que passávamos lá [na Venezuela] mudou muito, graças a Deus e às terras do Brasil. Eu me sinto muito feliz porque nunca pensei que fosse chegar aqui e aqui estamos, com muito sofrimento mas chegamos”, conta. “Aqui eu estou contente e muito feliz”, diz com sinceridade.

Por fim, me expressa o seu maior desejo: “Que as coisas mudem na Venezuela. Desejo eu, de coração, que chegue um presidente bom que mude todas essas coisas que a gente tinha na Venezuela, para que seja possível regressar. Porque assim, do jeito que está, não posso voltar. Está um inferno lá”.

Milagros: the voice of the Waraós in Brazilian lands

Milagros has the sweet voice that only someone with that name (Miracle) could have. Her smile and the tranquillity in her eyes almost hides the pain and anguish as she tells me her story while watching the rehearsal of the Canarinhos da Amazonia Choir in which her daughter, Rosa Mística, sings.

She narrates the life on the other side of the border in graphic detail. The horrors her family lived are distressing to hear. It’s not surprising that she appreciates everything in the new Brazilian life that they have temporarily settled into. Simple things we take for granted, such as being able to cook regular meals and wash clothes have given her and her family a sense of normality again.

The way she looks at life and how she is thankful for being welcomed in the country I call home only makes me think of how Milagros was, indeed, a miracle in my life. Getting to know her and listening to her story and experiences made me put all my values ​​into perspective. It made me understand the strength and persistence of those who are forced to migrate. It also made me understand the dimension of what it is to be deprived of basic human rights, such as access to food and basic hygiene items and the right to dignity. And yet continue to fight, live another day and never lose hope. The conversation with Milagros was a blessing that I will never forget and I share her journey here in the hope of sharing some of the energy that she shared with me.

“When we got here [in Brazil], we found a lot of food. It’s like saying, well, I cried when I saw so much food. My daughters were filled with happiness, they said ‘Mommy, there’s a lot of food here’”

Milagros is part of one of the hundreds of Waraó indigenous families that left the low delta region of Venezuela to reach the state of Roraima. The trip can only be made born out of desperation because living was a nightmare. “We didn’t eat on the whole way [from Venezuela to Brazil]. It was two days of travelling, one in San Felix and another in Santa Elena. In Santa Elena we spent a full day because we had no way to get here in Brazil”, she says, remembering the hunger that didn’t leave her family in Venezuela. “My kids were always crying. They asked me ‘Mommy, why doesn’t Dad buy us something to eat?’ And we couldn’t buy anything. What could we say? Only god. I had faith. “

She also speaks of the heartfelt emotions when she finally managed to reach the border and found something her family had been missing for some time: food. “When we got here [in Brazil], we found a lot of food. It’s like saying, well, I cried when I saw so much food. My daughters were filled with happiness, they said ‘Mommy, there’s a lot of food here’”, she says with the intensity that only a mother who has seen her children go hungry can.

Milagros also describes the difficulties of daily activities so that I understand the instability and precariousness of the situation back in Venezuela. “How did we do our laundry? We would heat the water in a large pot and leave the clothes there for 20 minutes. Then we would take it out and pour cold water. It was kind of washed up, but we had to use it like that”.

The tone of her voice and the sincerity in her look do not open space for suspicion. “Speaking, thinking about Venezuela, is really sad. The situation we are in there is horrible. Truly, when we talk about our land, it makes us want to cry. A lot of people do not go through this, but I did and what I’m telling you is true”.

The feeling now in Brazilian soil, however, is quite different. The gratitude of having been able to cross the border and being welcomed in Pacaraima is evident during the conversation. She tells me several times how happy she is to be where she is now. “The lifestyle we were living in there [Venezuela] has changed a lot, thanks to God and the lands of Brazil. I feel very happy because I never thought I would get here and here we are, with a lot of suffering but we arrived, ” she says. “Here I am very happy,” she says sincerely.

Finally, she expresses to me her greatest wish: “I hope things change in Venezuela. I sincerely hope, from my heart, that a good president arrives to change all those things we had in Venezuela so that we can return. Because, as it is, I can not go back. It’s hell out there right now”.

Pacaraima: quando a esperança entra em chamas

No dia 18 de Janeiro, eu entrei num ônibus que me levou de Boa Vista a Pacaraima. Fui sem saber o que ia encontrar, mas meu coração dizia que eu tinha que ir e entender como funcionava a vida na fronteira Brasil-Venezuela. Hoje eu entendo o que me levou até lá.

De um jeito muito louco, quando eu estava na fronteira o que eu mais senti foi esperança. Eu pensei que fosse encontrar a devastação de um povo que realmente não podia mais aguentar a situação em que vivia. Eu pensei que fosse encontrar xenofobia na sua forma mais pura do lado Brasileiro. Ao invés disso, eu encontrei força para seguir e começar do zero em um novo país por parte dos Venezuelanos que acabavam de chegar. Ao invés disso, eu encontrei o exército, a ACNUR e diversas ONGs e pessoas prontas para receber os nossos vizinhos de braços abertos, de peito aberto.


Com todos os problemas que o Brasil possa ter, ir a Pacaraima me deu esperança de que ainda existia acolhimento e humanidade nesse país ultimamente corrompido pelo ódio. Ir a Pacaraima em Janeiro restaurou o meu orgulho em ser Brasileira em um tempo em que a nossa bandeira é usada para reforçar a ideia de que você só merece pertencer ao país se votou em certo candidato.

Conversei com pessoas fortes e incríveis que lutaram com todo fio de vida que tinham para estar lá e fugir da fome em outro país que, infelizmente, já anda a beira do penhasco há muito tempo. Pacaraima me ensinou a valorizar a vida de um jeito que eu nunca imaginei que fosse possível. Me fez entender o que é resiliência de verdade. Não há nada como olhar nos olhos de quem viveu na pele a crise humanitária, ouvir o que eles têm a dizer e saber que aquelas vidas vão muito mais além de “x pessoas cruzam a fronteira por dia” que a gente lê no jornal.


Hoje a fronteira está, literalmente, em chamas. O bloqueio da passagem entre Brasil e Venezuela é simplesmente cruel. E não há nada que dói mais do que ver de longe toda a esperança -que ainda brota em uma situação de crise- que eu vivi por lá, queimando, sendo completamente destruída. Quantos sonhos foram interrompidos quando o direito de cruzar de um país ao outro foi negado? Quantas mortes -literais e simbólicas- essa guerra pelo poder está causando? E, no final, quem ganha com isso? Quem está lutando pelo o quê? Quando foi que a vida perdeu completamente o seu valor diante da necessidade de fazer “declarações políticas”? Eu não consigo aguentar isso calada. Eu não nasci para ficar calada.

Aqui compartilho as vozes que eu escutei lá. Eu grito com elas em resistência, em solidariedade e na esperança de passar o recado de que a situação da fronteira hoje é simplesmente inaceitável. E precisa doer no mundo inteiro para mudar.

Pacaraima: when hope catches on fire

On the 18th of January, I got on a bus that took me from Boa Vista to Pacaraima. I didn’t know what to expect but felt compelled by the heart to go and understand how life worked on the Brazil-Venezuela border. Now, looking back, I understand exactly what brought me there.

In a crazy way, when I was at the border, what I felt the most was hope. I thought that I would find only the devastation of a people who really could not take the situation they were living anymore. I thought I would find xenophobia in its purest form on the Brazilian side. Instead, I found the strength to keep on going and start afresh in a new country from the Venezuelans that had just arrived. Instead, I found the army, the UNHCR and a lot more other NGOs and individuals ready to welcome our neighbours with open arms, open hearts.


With all the problems that Brazil may have, going to Pacaraima gave me hope that there was still love and humanity in this country lately corrupted by hate. Being in Pacaraima in January restored my pride in being Brazilian in a time where our flag is often used to reinforce the idea that you only belong in the country if you voted for a certain candidate.


I spoke with strong and incredible people who fought with everything they had just to be there and escape the hunger in another country that, unfortunately, has already been on the edge of the cliff for a long time. Pacaraima has taught me to value life in a way that I had never imagined it would possible to. It made me understand what real resilience is. There is nothing like looking at the eyes of those who lived the humanitarian crisis. There is nothing like truly listening to them and knowing that their lives are so much more than “x people cross the border every day” that we often read in the newspaper.


Today the border is literally on fire. The closure between the Brazilian and Venezuelan side is just cruel. There is nothing that hurts me more than to see all hope – which still springs in a crisis situation – that I lived there, burning, being completely destroyed. How many dreams have been interrupted when people were denied the right to cross from one country to the other? How many -literal and symbolical- deaths is this war for power causing? And, in the end, will there be any winners? Who is fighting for what? When did life lose completely its value over “political statements”? I can’t stand it quietly. I was not born to be quiet.

Here I share the voices I heard there. I scream with them in solidarity, in resistance and in the hope to get the message across that the border situation today is simply unacceptable. And they have to be heard all over the world for something to change.